O conversar que leva à compreensão
É possível ter conversas extremamente prazerosas com pessoas idosas se soubermos ouvir o grito daquilo que não é dito
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SIGA NODesde muito cedo somos ensinados que uma boa conversa é capaz de evitar grandes mal-entendidos. Contudo, ninguém nos ensina como se ter uma “boa conversa”. Muitos de nós, diante de argumentos contrários, gritamos, invalidamos ou buscamos estratégias para rebater a fala do outro, sem de fato nos deixar afetar pelo seu argumento. Uma conversa genuína, que é aquela voltada para o entendimento e não para a manipulação, não requer estratégia, mas abertura para ingressarmos verdadeiramente no mundo do outro, sem reservas, temores ou pré-julgamentos.
Um diálogo produtivo nos convida a fazer real a Regra de Ouro, direcionando nossas ações à luz da máxima que afirma que devemos tratar as outras pessoas como nós mesmos gostaríamos de ser tratados caso estivéssemos naquela situação. Pensemos em uma criança, já perceberam que só conseguimos ter uma boa conversa com uma criança se compreendemos profundamente seu mundo? Vocês já se imaginaram chegar a um lugar estranho, repleto de regras - algumas, inclusive, sem sentido na sua cabeça -, dependente de tudo e de todos, entendo muito pouco sobre a razão das coisas? A gente é que não se lembra, mas devem ter sido tempos assustadores.
É possível ter uma experiência aproximada, ainda que muito aquém do que experimenta a criança, quando chegamos a um país no qual, em razão das barreiras linguísticas e culturais, não conseguimos nos comunicar ou compreender as regras. Uma boa conversa com uma criança pressupõe que compreendamos que é preciso, estando na mesma altura que ela, falar com paciência, sobre esse mundo no qual ela chegou e tudo é novidade. Assim como esperamos, em uma viagem, gentileza dos nativos, os filhos esperam gentileza daqueles que chegaram antes deles.
Leciono uma matéria complexa na universidade e, se meu objetivo é me fazer entendida, preciso compreender o mundo no qual meus alunos vivem, pois só assim saberei dar concretude àquilo que há de etéreo no conteúdo que é imprescindível que eles captem. Em sua pedagogia poética, Rubem Alves nos adverte que ensinar é seduzir o aluno para que ele deseje aprender e, desejando, aprenda de fato. Mas isso só é possível se visitamos o seu mundo, não para fazer graça ou infantilizar, mas para compreender que o aluno vive para além da abstração da disciplina: ele sofre, ama, teme, se entedia e questiona sobre si próprio, isso tudo em um momento em que a idade ainda não os ajuda a lidar com tais questões.
E por falar em idade, é possível ter conversas extremamente prazerosas com pessoas idosas se soubermos ouvir o grito daquilo que não é dito. Será que já pensamos verdadeiramente que, sob a perspectiva do idoso, não é simples perder vitalidade, ver os familiares e amigos morrendo e, ainda assim, permanecer otimista diante da vida? Assim como, em razão da novidade, tudo deve ser conversado pacientemente com a criança; a finitude precisa ser considerada – e não necessariamente conversada- na relação com a pessoa idosa, ainda que ela nunca tenha se manifestado sobre o tema.
Estar-se diante da vida é certamente um assombro para a criança – pessoalmente, não tenho lembranças. Estar vivo é um milagre, cujo mistério ainda não foi totalmente elucidado pela ciência, mas, jovens que ainda somos, não pensamos sobre o tema, pois estamos ocupados para ganhar o pão. O envelhecimento nos coloca de modo radical diante desse enigma, se tornando quase impossível não nos questionarmos sobre a vida que tivemos, as escolhas que fizemos e a razão de tudo o que foi vivido, já que o inevitável fim dos tempos – individual - chega para cada um de nós. Uma verdadeira conversa com uma pessoa idosa só pode ser boa se considerarmos a real dimensão do problema.
Em cada etapa da vida, mudam-se as perguntas, os temores e os silêncios e talvez seja por isso mesmo que devemos praticar a difícil arte de verdadeiramente nos deslocarmos para o lugar do outro, não sendo nós mesmos, mas sendo o outro, com todas as suas ausências, faltas e excessos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
