O que a Ásia me ensinou sobre empreendedorismo
Viagem por cinco cidades asiáticas rendeu reflexões sobre empreendedorismo, digitalização, informalidade e ambiente de negócios
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Passei julho viajando com meu filho Felipe por um roteiro que começou em Dubai e atravessou Bangkok, Hong Kong, Shanghai e Chongqing.
A ideia era descansar. Confesso que falhei. Quem trabalha há mais de duas décadas com políticas para pequenos negócios não consegue olhar para um mercado de rua em Bangkok ou para um QR code colado numa banca de frutas em Shanghai e ver apenas paisagem. Eu via ecossistemas. E voltei com a cabeça fervendo.
Bangkok: a informalidade como escola
A Tailândia tem uma das maiores densidades de microempreendedores do planeta. Isso não aparece em relatório, aparece na calçada. Em Chatuchak, um mercado com cerca de 15 mil boxes, cada corredor é uma aula de segmentação: o vendedor de camisetas sabe exatamente quem é seu cliente, testa preço em tempo real e ajusta estoque no fim do dia. No MBK Center e na Pantip Plaza, a lógica se repete em eletrônicos e moda, com uma agressividade comercial que faria muito varejista brasileiro corar.
O que me impressionou não foi o volume, foi a fluidez. A barreira de entrada para empreender ali é quase zero. Uma banca, um produto, um sorriso e o negócio está de pé. Isso tem um custo, claro: baixa proteção social, pouca escala, quase nenhum acesso a crédito formal. É exatamente o dilema que enfrentamos no Brasil quando desenhamos o MEI. A pergunta que a Tailândia me devolveu foi incômoda: nós formalizamos para proteger ou formalizamos para controlar? Quando a formalização é simples e barata, ela vira trampolim. Quando é cara e burocrática, vira muro. Bangkok funciona apesar do Estado. Eu prefiro um modelo em que o pequeno funcione por causa dele.
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E tem a comida. A economia do street food tailandês é um caso sério de estudo: margens apertadas, giro altíssimo, reputação construída prato a prato, na frente do cliente. Nenhum MBA ensina gestão de fluxo de caixa melhor que uma senhora vendendo pad thai em Sukhumvit.
Hong Kong: o capital gosta de regras claras
Hong Kong é outra conversa. Ficamos hospedados em Tung Chung, na ilha de Lantau, e a primeira coisa que salta aos olhos é a infraestrutura: do aeroporto ao centro financeiro, tudo conspira para reduzir atrito. Abrir empresa ali leva dias, não meses. O imposto é simples, previsível e baixo. O resultado está no ranking: a cidade briga há décadas pelo posto de economia mais livre do mundo.
Minha leitura, e aqui vai opinião mesmo, é que Hong Kong prova que ambiente de negócios não é discurso, é engenharia. Não adianta programa de incentivo se o alicerce jurídico e tributário é um pântano. A cidade tem seus problemas, e a relação com Pequim adiciona uma camada de incerteza que os números ainda não capturam por completo. Mas a lição estrutural permanece: previsibilidade é o insumo mais barato e mais poderoso que um governo pode ofertar ao empreendedor. No Brasil, gastamos fortunas em programas e economizamos no que custaria menos: simplificar.
Shanghai: o pequeno negócio virou digital antes de virar grande
Shanghai foi o choque. Eu sabia da tese, conhecia os dados, mas viver a economia sem dinheiro físico é outra coisa. Tudo passa por Alipay e WeChat. E quando digo tudo, é tudo: o camelô da Qipu Road, o box de réplicas da AP Plaza, o carrinho de espetinhos na porta do metrô. O QR code fez pela formalização chinesa o que anos de campanha institucional não fariam. Cada transação deixa rastro, gera histórico, vira credencial de crédito. O microempreendedor chinês entrou no sistema financeiro pela porta do celular, não pela porta do banco.
Isso conversa diretamente com o que vivemos aqui com o Pix. A diferença é que a China acoplou pagamento, marketplace, logística e crédito num único ambiente, os superapps. O vendedor não usa a plataforma, ele mora nela. Há um lado sombrio nisso, e não vou fingir que não vi: dependência de dois ou três conglomerados, vigilância estatal, margem espremida pelo algoritmo. Não é um modelo para copiar. É um modelo para estudar com lápis na mão, separando o que é ganho de produtividade do que é perda de autonomia.
Detalhe de viajante: negociar na AP Plaza exige pedir 60 a 80 por cento de desconto sobre o preço inicial. Em Bangkok, 40 a 60 já resolve. Até a pechincha tem cultura de negócio embutida.
Chongqing: a fronteira que ninguém está olhando
Chongqing foi a surpresa do roteiro. Uma metrópole de mais de 30 milhões de pessoas na região metropolitana, construída na vertical entre montanhas e dois rios, com viadutos que atravessam prédios residenciais. O comércio popular de réplicas que existia ali praticamente desapareceu com a fiscalização, e o que sobrou é mais revelador: uma cidade industrial do interior chinês que se digitalizou na mesma velocidade que a costa. A mensagem para quem pensa desenvolvimento territorial, minha praia de origem no Sebrae, é direta. Interiorização não é sinônimo de atraso quando a infraestrutura digital chega antes da física.
O que trago na bagagem, além das compras
Volto com três convicções reforçadas e uma inquietação.
Primeira convicção: velocidade importa mais do que perfeição. Em toda a Ásia que visitei, o empreendedor testa antes de planejar. Erra barato, corrige rápido. Nossa cultura de negócios ainda pune demais o erro e exige plano de negócio onde caberia um protótipo.
Segunda: a digitalização do pequeno não é agenda de futuro, é agenda atrasada. Se o vendedor de manga da esquina de Shanghai opera 100 por cento digital, não há desculpa estrutural para o pequeno negócio brasileiro ficar fora. Falta menos tecnologia e mais desenho de política: interoperabilidade, crédito baseado em dados transacionais, capacitação que caiba na rotina de quem trabalha 12 horas por dia.
Terceira: ambiente de negócios se constrói com tédio regulatório. Regra estável, imposto simples, registro rápido. Hong Kong não é criativa nisso, é disciplinada. Nós fomos criativos ao desenhar o Supersimples e o MEI, e essa criatividade mudou a vida de milhões. O passo seguinte exige a disciplina de não complicar o que nasceu simples.
E a inquietação: em nenhum dos lugares que visitei o empreendedor espera pelo Estado. Ele empreende no vão que existe, com o que tem. Instituições de fomento, e me incluo nessa conta, precisam decidir todos os dias se estão abrindo caminho ou apenas administrando a fila. A Ásia me lembrou de qual lado eu quero estar.
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Ah, e as férias? Foram ótimas. Felipe voltou com a mala cheia. Eu voltei com pauta para um ano inteiro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
