Brasil olha para o Paraguai, mas outra história acontece ao lado
Exploração da Colômbia como polo de inovação e negócios na América Latina, em contraste com o foco brasileiro no Paraguai
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Enquanto o Brasil olha para o Paraguai, tem outra história sendo escrita aqui ao lado.
Todo mundo que circula em eventos de negócios no Brasil nos últimos dois anos ouviu a mesma conversa: Paraguai. Imposto único de 1% pela Lei de Maquila. Energia barata. Burocracia enxuta. Grau de investimento conquistado na Moody's em 2024 e na S&P em 2025. Muitas indústrias brasileiras já atravessaram a fronteira, sendo que, no intervalo de dez anos, esse número saltou de cerca de 40 para mais de 200, avanço superior a 400%. Riachuelo, Vale, JBS. O assunto virou consenso nos grupos de WhatsApp de empreendedores e nas mesas de jantar de quem pensa em internacionalizar.
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Não estou aqui para dizer que o Paraguai não faz sentido. Até faz, em determinados e limitados contextos, para pontuais modelos de negócio. Mas passei alguns dias em Bogotá e voltei pensando porque tanta gente fica tão hiper focado num vizinho e quase não olha pro outro.
A catedral que começa 180 metros abaixo do chão
Saí de Bogotá numa manhã de segunda-feira numa van com outros turistas dos Estados Unidos e IRlanda, direção norte. Uma hora de estrada em uma paisagem fria e aberta, até chegar em Zipaquirá. A cidade em si é pequena, colonial, boa de caminhar. Mas ninguém vai até lá pela cidade.
A Catedral de Sal, uma daquelas obras humanas que nos fazem questionar o significado de impossível, fica enterrada a 180 metros de profundidade numa antiga mina. Você desce por um túnel escuro, curvo, com luz projetada nas paredes de sal, e quando o espaço abre (e ele abre de um jeito que você não espera) a sensação é de que você está dentro de algo que não deveria existir. Uma nave gótica completamente esculpida no sal. Três naves menores que levam até ela, cada uma representando uma estação da Via Crucis. Escala absurda. Silêncio que pesa.
O que me pegou não foi só o lugar em si, embora seja extraordinário. Foi o que existe em torno dele.
Em 2025, a Catedral de Sal atingiu um recorde histórico de 705.045 visitantes. Esses visitantes vêm de mais de cem países. A fila do café na saída da mina tinha gente falando inglês, espanhol, francês e até japonês. Ali dentro ainda tem restaurantes, artesanato, joalheria, tudo de altíssimo nível. Por fora, hospedagem, guias, transporte. Uma cadeia econômica inteira que não existia antes da reconversão da mina em destino turístico.
O patrimônio subterrâneo se ressignificou e se conectou a novas audiências, integrando concertos, exposições e experiências artísticas à força simbólica da pedra e do sal. Hoje a Catedral não é só atração religiosa. É palco, museu e case de economia criativa. O Museo Subterrâneo, que acaba de ampliar seu espaço, expõe o modelo de economia laranja do destino com impacto em mais de 100 países.
Isso é transformação de ativo ocioso em motor econômico. É exatamente o tipo de coisa que a gente passa horas discutindo em workshops de inovação e ali estava, literalmente, debaixo da terra.
Saí de Zipaquirá com a impressão de que a Colômbia sabe fazer algo que muitos países da região ainda não dominam: transformar identidade em produto sem destruir a identidade no processo.
Bogotá por baixo do óbvio
Bogotá não é uma cidade fácil de gostar de primeira. O trânsito é denso, a altitude de 2.600 metros te deixa sem fôlego nos primeiros dias, e o tamanho (quase 8 milhões de pessoas) é intimidador sem mapa. Mas depois que você encontra o ritmo dela, começa a entender por que tanta gente de fora está escolhendo se instalar ali.
La Candelaria, o centro histórico, tem a energia de quem está se reinventando sem pedir licença. Grafites enormes dividem espaço com igrejas coloniais. Cafés com Wi-Fi bom na mesma rua que mercados tradicionais. Uma convivência de camadas que parece caótica, mas funciona numa verdadeira Babilônia. O Chapinero e o Usaquén, bairros mais ao norte, têm uma densidade de startups, coworkings e restaurantes vibrantes que me lembrou, em escala menor, o que São Paulo tenta construir no entorno da Paulista.
O que Bogotá tem, e que não aparece nos rankings, é essa sensação de cidade que aceitou sua própria complexidade e decidiu trabalhar com ela, não contra ela. A violência dos anos 90 ainda vive na memória da cidade e, curiosamente, parece ter gerado uma geração de fundadores com tolerância alta ao risco e urgência real para resolver problemas. Não é romantização. É observação.
Os números que explicam o movimento
A Colômbia se consolidou como um polo de energia empreendedora, e 2024 foi transformador: os investimentos em startups colombianas chegaram a US$ 1,6 bilhão, um aumento de 45% em relação ao ano anterior.
O país ocupa o segundo lugar na América do Sul e o 36º globalmente em ecossistemas de startups, segundo o StartupBlink 2025. O investimento estrangeiro direto chegou a US$ 14,2 bilhões em 2024, com os setores de serviços financeiros, manufatura e turismo liderando a entrada de capital não extrativo.
A Colômbia subiu no ranking global pelo quarto ano consecutivo e, embora o país tenha registrado apenas 104 acordos de investimento, captou 12% do total investido na região, demonstrando eficiência de capital que vai além do volume.
Bogotá concentra mais de 80% de todo o capital levantado no país e abriga mais de 50% das startups colombianas. Essa concentração tem lados bons e ruins. Gera massa crítica, mas também cria uma disparidade regional. Medellín está crescendo. Barranquilla e Bucaramanga estão aparecendo. Mas ainda é Bogotá que puxa.
O setor de fintechs lidera com 19% de todas as startups ativas, em parte porque quase 50% dos colombianos ainda não têm acesso pleno ao sistema bancário. Mercado real enorme, problema real, produto real. Não é moda de pitch: é necessidade estrutural sendo endereçada por tecnologia.
Brasil e Colômbia: a sinergia que ainda está sendo descoberta
Essa parte é onde eu acho que a conversa empresarial brasileira mais falha em aproveitar o que já existe.
O Brasil é o terceiro maior fornecedor comercial da Colômbia, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. As exportações brasileiras para o país cresceram em média 4,1% ao ano entre 2013 e 2023, e o comércio bilateral em 2023 ultrapassou R$ 6 bilhões. São 70 empresas brasileiras já operando em solo colombiano. Não é uma relação nova. É uma relação que ainda não foi levada a sério.
O estoque de capital investido pela Colômbia no Brasil cresceu 352% entre 2013 e 2022, saindo de US$ 673,2 milhões para US$ 3 bilhões. O fluxo é nos dois sentidos. E há espaço considerável para ampliar.
A ApexBrasil mapeou mais de 1.500 oportunidades de comércio ainda não exploradas entre os dois países, com destaque para máquinas e equipamentos de transporte, produtos químicos, cosméticos e artigos manufaturados. Oportunidades mapeadas, não capturadas. Isso é gap, não teto.
No campo da inovação, a aproximação começa a se materializar. Iniciativas como o SoftLanding Colombia facilitaram parcerias com aceleradoras como Techstars e Y Combinator, e o ecossistema colombiano está ativamente buscando conexões internacionais. Uma startup brasileira de agritech que queira entrar no mercado andino tem em Bogotá uma base com infraestrutura de aceleração, conexão com capital latino-americano e proximidade cultural incomparável com qualquer outra rota de internacionalização.
No turismo, a parceria já está formalizada. A Embratur e a ProColombia assinaram um Memorando de Entendimento em 2024, durante a visita oficial do presidente Lula a Bogotá, com diretrizes para ações conjuntas de promoção turística entre os dois países.
O que ainda falta é uma narrativa mais clara para o empresário brasileiro sobre o que a Colômbia pode oferecer além do mercado de exportação tradicional. A conversa ainda é tímida perto do potencial.
O que diferencia a Colômbia do Paraguai e por que as duas conversas precisam acontecer
O Paraguai atrai quem quer reduzir carga tributária e custo operacional. Faz sentido para alguns ramos da indústria, para logística, para quem produz e exporta. O argumento parece ser majoritariamente fiscal e regulatório, e aparentemente está funcionando.
A Colômbia atrai outra coisa: quem quer escala de mercado, talento, conexão com capital internacional e um ecossistema que já tem profundidade. Mais de 100 startups colombianas estabeleceram presença na América do Norte, Europa e Ásia em 2024.
São apostas diferentes. Não são concorrentes diretas.
O que me incomoda no debate brasileiro é que ele ainda está preso numa lógica binária. A Colômbia representa uma alternativa de mercado em crescimento, da inovação com propósito, da escala latino-americana sem precisar cruzar o Atlântico. O país avança em sofisticação empresarial, mas ainda tem gaps gigantes em infraestrutura de pesquisa e educação, o que significa que há espaço para quem chega com conhecimento técnico e disposição para construir junto. Parceria, não apenas expansão.
Uma última coisa sobre a catedral
Antes de subir de volta à superfície, fiquei alguns minutos sentado aguardando a condução que nos leva de volta ao ponto de partida. Além do aspecto religioso, o lugar impõe um silêncio que vai além da acústica. Alguém esculpiu isso aqui embaixo. Alguém transformou uma mina exaurida em maravilha arquitetônica. Alguém apostou que valeria a pena.
Esse tipo de aposta, a que transforma o que parecia esgotado em algo novo, é o que a Colômbia está tentando fazer em escala nacional. Não está pronto. Tem muito por construir. Mas a direção está clara, e o movimento é real.
Vale olhar além de hypes como o do Paraguai. Às vezes a história mais interessante começa 180 metros abaixo do que você estava esperando encontrar.
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