André Spínola
André Spínola
Um dos autores do Supersimples e da lei do MEI. São 20 anos construindo estratégias para empreendedores e de paixão pela inovação, transformação digital e novos modelos de negócio.
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Empreendedores negros são maioria. E não paramos para pensar nisso direito

O Brasil chegou ao fim de 2025 com mais de 30 milhões de donos de negócio

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São 15,8 milhões de pessoas. Um crescimento de 17% em dez anos, mais rápido do que os empreendedores brancos, que cresceram 12,9% no mesmo período. Isso não é projeção. É dado da PNAD Contínua do IBGE, levantado pela área de estratégia do Sebrae.

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Eu fico pensando quantas vezes essa informação poderia ter aparecido num painel de diversidade e não apareceu. Porque o empreendedor negro ainda é tratado, na maioria dos debates, como um gap a ser preenchido. Como ausência. Como potencial não realizado. Os dados mostram outra coisa: ele já é o centro do empreendedorismo brasileiro. O que ainda não é central é o reconhecimento disso.

 

Quem é esse empreendedor?

Homem, na maior parte das vezes. 67,8% dos negros donos de negócio são homens. As mulheres são 32,2%. Mas essa proporção, sozinha, esconde algo importante que os dados revelam quando você vai fundo.

As mulheres negras donas de negócio são consistentemente mais escolarizadas que os homens negros donos de negócio. 67% delas têm ensino médio completo ou mais. Entre os homens, esse número cai para 47%. Isso não é de agora. As pesquisas registram essa tendência ao longo de toda a série histórica. Elas estudam mais. E isso, que deveria se traduzir em vantagem econômica, encontra pela frente uma parede dupla: raça e gênero ao mesmo tempo.

No perfil geral de escolaridade dos empreendedores negros, o dado que mais chama atenção é o seguinte: 26,8% têm fundamental incompleto. Quase um em cada quatro. Isso não é um detalhe, mas uma característica estrutural de quem entra no empreendedorismo sem a mesma base de capital humano e, muitas vezes, sem outra saída formal no mercado de trabalho.

A faixa etária é distribuída, o que é bom sinal. A maior concentração está entre 30 e 49 anos, com 24,8% tendo de 30 a 39 anos, 25,3% de 40 a 49, 7,7% têm até 24 anos e 13% têm 60 ou mais. O empreendedorismo negro não tem uma geração. Tem todas.

 

A renda que não engana

Esse é o dado que eu acho mais difícil de olhar com frieza.
Renda real média habitual no trabalho principal, por sexo e raça, no 4T2025:

  • Homens brancos: R$ 5.144
  • Mulheres brancas: R$ 3.879
  • Homens negros: R$ 2.868
  • Mulheres negras: R$ 2.090

A mulher negra dona de negócio ganha 27% a menos que o homem negro dono de negócio. 46% a menos que a mulher branca. 59% a menos que o homem branco com a mesma ocupação, na mesma condição jurídica.

O empreendedorismo é frequentemente vendido como o grande equalizador, onde você é seu próprio chefe, você define o que cobra, você constrói o que quiser. Os dados dizem que isso é parcialmente verdade. A autonomia formal existe. A autonomia econômica real ainda depende de quem você é antes de abrir o CNPJ.

O gap de renda entre empreendedores negros e brancos não é acidente de mercado. É o mercado funcionando exatamente como foi estruturado, favorecendo quem já chegou com mais capital social, melhor ensino, mais rede, mais acesso a crédito, mais confiança dos clientes e mais décadas de acúmulo familiar.

Por que empreender? O GEM 2025 foi direto

A Global Entrepreneurship Monitor, a maior pesquisa sobre empreendedorismo do mundo, trouxe, na edição brasileira de 2025, um recorte racial que raramente aparece com esse nível de detalhe.

Entre os empreendedores negros potenciais, as motivações para iniciar um negócio foram:

  • "Fazer a diferença no mundo": 74% (brancos: 77%)
  • "Ganhar a vida porque os empregos são escassos": 72% (brancos: 70%)
  • "Construir uma grande riqueza ou renda muito alta": 70% (brancos: 67%)
  • "Continuar uma tradição familiar": 49% (brancos: 40%)

Repare no que acontece quando você coloca esses quatro números juntos. Ambição e necessidade coexistem, e entre os negros a necessidade aparece com frequência ligeiramente maior. Isso não é fraqueza. É a resposta racional de quem enfrenta um mercado formal que historicamente fecha portas. Empreender, aqui, é também uma estratégia de sobrevivência econômica. Os dois podem ser verdade ao mesmo tempo.

O dado sobre tradição familiar me parece o mais revelador de todos: 49% dos negros potencialmente empreendedores são motivados por continuar uma tradição da família. Entre brancos, 40%. Quase 10 pontos de diferença. Isso é herança econômica transmitida na informalidade, no negócio da avó, no ofício do pai, na banca da esquina que sustentou três gerações. É memória produtiva que o registro formal nunca capturou direito, mas que segue viva e passando de mão em mão.

Com o que a população negra sonha?

O GEM também mapeou os sonhos. E esse dado é onde eu acho que a conversa sobre empreendedorismo negro precisa chegar mais rápido.

Entre a população negra, os principais sonhos são:


1.Comprar a casa própria - 46,9%;
2.Ter o próprio negócio - 41,3%;
3.Viajar pelo Brasil - 36,3%;
4.Viajar para o exterior - 34,1%;
5.Comprar um automóvel - 34,1%. 

Entre a população branca:

1.Comprar a casa própria - 40,1%;
2.Viajar para o exterior - 41,2%;
3.Viajar pelo Brasil - 39,8%;
4.Ter o próprio negócio - 37,8%;
5.Comprar um automóvel - 30,9%.

O negócio próprio aparece como segundo maior sonho entre os negros. Entre os brancos, aparece em quarto. Não é que os brancos não queiram empreender, mas que têm mais opções concorrendo com esse sonho. Quando você tem mais mobilidade econômica, viajar para o exterior sobe na lista. Quando o acesso ao emprego de qualidade é mais restrito, o negócio próprio vira protagonista do projeto de vida.

Isso muda tudo sobre como a gente deveria pensar o apoio ao empreendedorismo negro. Não é caridade. Não é cota empresarial. É política de desenvolvimento econômico com o grupo que mais quer e mais precisa empreender, e que já demonstrou, nos últimos dez anos, que cresce mais rápido quando tem alguma condição de fazê-lo.

Em 13 anos de acompanhamento desse tema, na síntese mais honesta que eu consigo fazer, os empreendedores negros cresceram. Cresceram mais rápido. Tornaram-se maioria. E continuam chegando ao mercado com renda menor, escolaridade em desvantagem entre os homens, e taxas de empreendedorismo abaixo dos brancos.

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Crescimento sem equidade não é vitória completa. É progresso com trabalho pela frente.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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