Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
PÉ & TORNOZELO

Artroplastia do tornozelo no Brasil: realidade, desafios e futuro

Um dos principais entraves é o custo. As próteses de tornozelo são dispositivos de alta complexidade e, consequentemente, de alto valor

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A artrose do tornozelo, embora menos prevalente que a do joelho e do quadril, tem um impacto funcional desproporcionalmente alto. Diferentemente dessas articulações, onde a degeneração costuma estar associada ao envelhecimento, a artrose do tornozelo é, na maioria das vezes, consequência de trauma prévio. Fraturas, lesões ligamentares mal tratadas e instabilidades crônicas levam, ao longo dos anos, a um desgaste progressivo da cartilagem, culminando em dor incapacitante e limitação importante da mobilidade.

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Historicamente, o tratamento cirúrgico padrão para esses casos avançados sempre foi a artrodese, ou seja, a fusão da articulação. Trata-se de um procedimento eficaz para controle da dor, mas que impõe uma limitação definitiva do movimento. Em pacientes mais jovens e ativos, isso frequentemente resulta em sobrecarga das articulações vizinhas e, não raramente, em degeneração secundária ao longo do tempo.

É nesse cenário que a artroplastia total do tornozelo surge como alternativa conceitualmente mais atraente. Ao substituir a articulação por uma prótese, preserva-se o movimento, melhora-se a biomecânica da marcha e, potencialmente, reduz-se o risco de degeneração das articulações adjacentes. Em países da Europa e nos Estados Unidos, essa técnica já está consolidada. No Brasil, entretanto, a realidade ainda é bastante diferente. A artroplastia do tornozelo ainda é um procedimento pouco difundido. Isso se deve a uma combinação de fatores que envolvem desde questões estruturais do sistema de saúde até aspectos culturais da própria prática médica.

Um dos principais entraves é o custo. As próteses de tornozelo são dispositivos de alta complexidade e, consequentemente, de alto valor. Diferentemente do que ocorre com próteses de quadril e joelho, amplamente incorporadas ao sistema público e suplementar, a prótese de tornozelo ainda enfrenta grande resistência por parte das operadoras de saúde. A negativa de cobertura é frequente, obrigando médicos e pacientes a recorrerem a processos administrativos ou judiciais.

Outro ponto importante é a seleção de pacientes. Diferentemente de outras artroplastias, a indicação no tornozelo exige critérios mais rigorosos. Alinhamento adequado, estabilidade ligamentar, qualidade óssea e condições de partes moles são fatores determinantes para o sucesso do procedimento. Em um cenário onde muitos pacientes chegam tardiamente, com deformidades avançadas e histórico de múltiplas cirurgias, a indicação da prótese pode se tornar mais desafiadora. Ainda assim, é inegável que estamos diante de uma mudança de paradigma.

Os implantes de terceira geração trouxeram avanços significativos em termos de desenho, fixação e durabilidade. Sistemas modulares, instrumentais mais precisos e melhor compreensão da biomecânica do tornozelo contribuíram para reduzir complicações e melhorar os resultados funcionais. Estudos recentes mostram taxas de sobrevida das próteses superiores a 85%–90% em 10 anos, números que começam a se aproximar de outras artroplastias já consagradas.

No Brasil, observa-se um crescimento gradual do interesse pela técnica. Cursos, congressos e fellowships internacionais têm contribuído para a formação de cirurgiões mais familiarizados com o procedimento. A troca de experiência com centros de referência no exterior tem sido fundamental para acelerar esse processo.

Outro aspecto relevante é o papel da informação. Pacientes estão cada vez mais conscientes das opções de tratamento disponíveis e passam a questionar abordagens tradicionais. A ideia de preservar o movimento, em vez de simplesmente eliminar a dor à custa da rigidez, é intuitivamente mais atraente,  especialmente para indivíduos ativos.

No entanto, é fundamental manter o equilíbrio. A artroplastia do tornozelo não é uma solução universal. A artrodese ainda tem seu espaço, com excelentes resultados em indicações bem estabelecidas. O desafio está justamente em individualizar o tratamento, oferecendo a melhor opção para cada paciente, com base em critérios técnicos e não em limitações estruturais. Quando olhamos para o futuro, alguns pontos parecem claros.

A tendência é de maior incorporação da artroplastia do tornozelo no arsenal terapêutico da ortopedia brasileira. Isso passa, necessariamente, por uma mudança na relação com as operadoras de saúde, com maior reconhecimento da técnica e de suas indicações. Estudos nacionais, com dados de custo-efetividade, podem desempenhar um papel importante nesse processo.

Além disso, a concentração de casos em centros especializados pode ser uma estratégia interessante para otimizar resultados. Modelos que priorizem volume cirúrgico e treinamento estruturado tendem a gerar melhores desfechos, aumentando a confiança na técnica.

Do ponto de vista tecnológico, o avanço não deve parar. Navegação, guias personalizados e até impressão 3D já começam a ser explorados, com potencial para aumentar ainda mais a precisão dos procedimentos. A evolução dos materiais também pode contribuir para maior longevidade dos implantes. Por fim, há um aspecto que muitas vezes passa despercebido: o impacto social.

A artroplastia do tornozelo no Brasil ainda está em construção. Entre desafios e oportunidades, o cenário é de transição. Cabe à comunidade médica, às instituições e aos gestores de saúde conduzir esse processo de forma responsável, baseada em evidências e centrada no paciente.

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Mais do que adotar uma nova técnica, trata-se de repensar a forma como lidamos com uma condição incapacitante. E, nesse contexto, preservar movimento pode ser mais do que uma escolha técnica, pode ser uma mudança de perspectiva.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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