Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
PÉ & TORNOZELO

Carnaval é maratona, não tiro curto

O corpo até acompanha no primeiro dia. No segundo, começa a sinalizar. No terceiro, grita

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Todo ano, o carnaval chega carregado de uma sensação curiosa de urgência. É como se fossem poucos dias para viver tudo o que ficou represado ao longo de meses. Dorme-se menos, anda-se mais, dança-se por horas, come-se mal, hidrata-se pouco. O corpo, quase sempre tratado como coadjuvante, é convocado a aguentar sem reclamar. A ideia implícita é simples: são só alguns dias, depois a gente descansa.

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O problema é que o corpo não funciona em modo “tiro curto”. Ele responde como quem corre uma maratona sem preparo.

Carnaval, para o organismo, não é um evento pontual. É uma sequência de estímulos repetidos: longas caminhadas, permanência em pé, movimentos explosivos, pisos irregulares, pouco sono, calor, desidratação. Isoladamente, nada disso é dramático. Somado, vira sobrecarga. E sobrecarga, quando ignorada, cobra seu preço.

Talvez o maior erro seja tratar a folia como algo que exige apenas disposição mental. Vontade não substitui preparo. Empolgação não compensa fadiga. O corpo até acompanha no primeiro dia. No segundo, começa a sinalizar. No terceiro, grita. E quase sempre esses sinais são interpretados como frescura, preguiça ou falta de espírito carnavalesco.

Pensar o carnaval como maratona muda a lógica do cuidado. Maratonistas não correm todos os dias no limite. Alternam intensidade, respeitam pausas, cuidam de hidratação e sono. Não porque são fracos, mas porque sabem que resistência se constrói com estratégia. A folia segue a mesma lógica, ainda que poucos percebam.

Não é raro ver pessoas que passam o ano inteiro sedentárias tentando compensar tudo em quatro ou cinco dias. Horas em pé, caminhadas longas, dança intensa, tudo isso sem base mínima de força ou resistência. O resultado aparece rápido: dores nos pés, tornozelos inchados, joelhos reclamando, lombar travando. Nada disso surge por acaso. É o corpo tentando se adaptar a uma demanda para a qual não foi preparado.

Outro ponto pouco valorizado é o descanso entre os estímulos. No carnaval, o dia costuma ser vivido como uma linha contínua. Sai-se cedo, volta-se tarde, dorme-se pouco e recomeça-se no dia seguinte. O corpo não tem tempo de recuperar microlesões, reorganizar tecidos, baixar o nível de fadiga. A sensação de “cansaço acumulado” não é psicológica. É fisiológica.

A hidratação entra no mesmo raciocínio. Calor, álcool e atividade física aumentam a perda de líquidos. A desidratação não se manifesta apenas como sede. Ela piora o desempenho muscular, aumenta risco de câimbras, reduz tempo de reação e favorece quedas. Em um ambiente de multidão, piso irregular e fadiga, isso faz diferença real.

Pequenas estratégias mudam completamente a experiência. Alternar blocos mais intensos com períodos de pausa. Sentar quando possível. Comer antes de sair e não apenas quando a fome já virou mal-estar. Escolher calçados que protejam, em vez de apenas compor a fantasia. Ouvir o corpo quando ele pede redução de ritmo.

Existe uma romantização do exagero que precisa ser revista. A ideia de que aguentar tudo é sinal de força ainda está muito presente. Mas força, na vida adulta, costuma estar mais associada à capacidade de se preservar do que à insistência cega. O heroísmo corporal pode render boas histórias, mas frequentemente deixa sequelas silenciosas.

Muitos dos problemas ortopédicos que aparecem semanas depois do carnaval começam ali. Não com uma grande lesão, mas com pequenas agressões repetidas ignoradas. Um tornozelo que inchou e foi “levado”. Um joelho que doeu e foi abafado com analgésico. Uma lombar que travou e foi empurrada até o último dia. O corpo aguenta, mas não esquece.

Planejar o carnaval como maratona também envolve aceitar limites individuais. Idade, histórico de lesão, condicionamento físico e rotina prévia importam. O que é leve para um pode ser pesado para outro. Comparar-se com quem aguenta mais só aumenta o risco de erro. O corpo não se adapta por comparação. Ele responde à sua própria realidade.

Há também um aspecto emocional importante. Quando o cuidado entra na equação, a experiência tende a ser mais prazerosa. Menos dor, menos mal-estar, menos frustração. Curtir não é só estar presente fisicamente, é conseguir aproveitar sem se preocupar com o dia seguinte. Voltar inteiro também é vitória.

Talvez seja hora de amadurecer a relação com a festa. Entender que aproveitar não exige se destruir. Que intensidade sem estratégia não é sinônimo de liberdade. Que o verdadeiro luxo é conseguir curtir hoje sem pagar com sofrimento amanhã.

Carnaval é maratona porque exige resistência, não bravata. Quem aprende a dosar, pausa melhor, volta melhor e guarda da festa aquilo que realmente importa: a alegria, não a dor.

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