Paris é uma festa
Numa cidade como Paris, onde a boa comida está por toda a parte, sentir fome é uma tortura
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Adoro ler e adoro cozinhar. Quando um livro é espetacular e ainda fala de comida e vinhos dentro de uma narrativa inteligente, é mais do que descrever pratos, é poesia. “Paris é uma festa” (“The Moving Feast”), de Ernest Hemingway, é um deles.
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Numa cidade como Paris, onde a boa comida está por toda a parte, sentir fome é uma tortura. Como muitos dos escritores e artistas ainda desconhecidos em Paris nos anos 20, Hemingway eventualmente passava fome, mentia para a sua mulher dizendo que tinha convites para almoços e para despistar seu estado visitava museus, onde concluía que a fome desperta os sentidos e que pintores como Cézanne deviam ter muitas vezes pintado neste estado.
Entre encontros com Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, Scott Fitzgerald e visitas a Sylvia Beach na célebre livraria Shakspeare and Company ou sentado em cafés e brasseries, onde escrevia ou se aquecia nos invernos rigorosos, Hemingway faz muitas referências à comida e bebida contextualizando-as com tudo.
Desde a engraçada reclamação à Gertudre Stein sobre a tentativa de um amigo gay de seduzi-lo com um Marsala (Stein responde “Corromper você, um rapaz acostumado ao álcool com uma pobre garrafa de Marsala?”) a quando comprava um litro de vinho, pão e linguiça e sentava ao sol para ler enquanto olhava a pescaria no Sena.
Além de descrever a comida, Hemingway a combinava com vinhos. Os peixes do Sena rechonchudos e de carne macia eram acompanhados de um esplêndido Muscadet e as ostras do Café des Amateurs, da célebre casa Pruniers (aqui com caranguejo mexicano também) ou em outro restaurante caro do Boulevard Saint-Michel eram provadas com “copos de Sancerre” ou com Pouilly-Fuissé.
A encomenda de dois tournedos com sauce Bérnaise para ele e um amigo foi provada com um Châteauneuf du Pape, que a propósito, Hemingway escreve, “não é um vinho adequado para o almoço”.
Há citações ao xerez seco bebido no Deux Magots, ao bom vinho de Cahors do Négre de Toulouse e ao simples vinho Corso que bebia em casa, robusto e barato.
Excelente quando Hemingway escreve que “todos consideravam o vinho tão normal e sadio como qualquer bom alimento, além de grande fonte de alegria e bem-estar. Beber vinho não era esnobismo ou sinal de sofisticação, nem uma espécie de culto. Era tão rotineiro como comer e, para ele, igualmente necessário. Jamais me ocorrera fazer uma refeição sem tomar vinho, sidra ou cerveja”.
Divertido é o relato de uma viagem ao Rhône com Scott Fitzgerald, como numa insólita opinião dada no banheiro de um restaurante – depois de comer a torta de cerejas e beber a última garrafa de vinho – sobre o tamanho do pênis do amigo (Zelda, sua mulher, queixava que era pequeno).
Enquanto Fitzgerald oscilava entre depressão, euforia e doenças imaginárias, Hemingway descreve um excelente carneiro provado num restaurante argelino em Lyon, as garrafas de champagne que diminuíam a intensidade do discurso do amigo e a degustação de um “lanche” numa parada de estrada de um frango assado com recheio de trufas com uma admirável garrafa de Macôn branco.
Na Borgonha, enquanto Fitzgerald levantava da mesa e tinha outra crise, comeram “uns escargots geniais” e uma “poularde de Bresse” acompanhado de uma garrafa de Montagny.
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O relato da vida com sua mulher era perfeito: “Depois de visitar a Shakespeare and Company voltaremos então para casa, comeremos aqui mesmo, teremos um jantarzinho delicioso e beberemos um Beaune. Depois leremos um pouco e, mais tarde, iremos para cama fazer um amorzinho gostoso.”
Bom gosto!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.