Nós e as redes sociais
Recebemos, dia e noite, selfie com imagens idealizadas, opiniões de especialistas, leigos, desinformados e mentirosos, cabendo a nós separar o joio do trigo
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Não apenas as campanhas eleitorais, mas a forma como nos relacionamos atualmente nos obriga a admitir a enorme importância das redes sociais. Foi incrível como o reposicionamento do primeiro para o segundo turno, pela mobilização causada impulsionando e direcionando, pela invenção de Janones, o Exército de Lula. Uma virada histórica, que nos leva a duas coisas excepcionais na história do Brasil.
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Por qualquer ângulo ou posição que se leia esse artigo, haveremos de concordar, gostando ou não, que foi um acontecimento absolutamente inédito e, creio, não se repetirá. A vitória da democracia se impôs no país absolutamente dividido.
Mas isso todo mundo já sabe. Meu foco é o comportamento humano, hoje absolutamente dependente e cativo das redes sociais e abduzido pelas telas, seja a do celular ou das TVs. Recebemos, dia e noite, selfies autoproduzidas e cheias de filtros que promovem imagens idealizadas, opiniões de especialistas, leigos, desinformados e mentirosos, cabendo a nós separar o joio do trigo. Ou seja, desembolar esse nó. Uma tarefa árdua. Para isso, teremos que ficar o tempo todo na pesquisa, na conferência de informações, fakes ou não?
Para muitos, a dúvida é esclarecida pela IA, mas, vai saber... se não é manipulada também pelas grandes administradoras. Portanto, uma certa dose de paranoia e insegurança paira sobre nós. As pessoas estão cada vez mais narcisistas e donas da verdade. O imaginário se impõe, estamos no reinado da imagem, da aparência. Abduzidos pelas telas, acreditamos no que queremos, ou existe verdade? Já não é mais “ser ou não ser” a questão, mas “crer ou não crer”.
Somos cercados de mentiras e ficções. Yuval Noah Harari, em “21 lições para o século 21”, descreve os tempos da pós-verdade, quando, inseguros, não sabemos o que é verdade ou não. Não podemos confiar em notícias sem vislumbrar as tramas que se armam por trás do que se diz.
Fake news sempre existiram, algumas, duram muito tempo. Governos fazem discursos maquiados, escondem as verdadeiras intenções. É o que assistimos. Ficções justificam terríveis atos, como se fossem um bem. Não aceitemos tudo que parece, não temamos mergulhar nas trevas de nosso tempo para esclarecer verdades. Só assim atravessaremos fantasmas, negacionismos, para encontrar verdade.
Giorgio Agamben, filósofo italiano, autor do ensaio “O que é o contemporâneo?” e de outros inúmeros livros, destaca a diferença entre contemporâneo e atualidade. É esclarecedor. Atualidade seria um pertencimento verdadeiro ao tempo. Um obstáculo ao contemporâneo.
O contemporâneo implica precisamente uma não coincidência da pessoa com sua época. Um desassossego. É ser "capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente", isso coloca em jogo uma dimensão efetivamente prática do ser no mundo e convoca a um deslocamento do sujeito com relação ao tempo ao redor. Distanciamento necessário, sem paixão, que permite a capacidade crítica.
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De volta ao campo da psicanálise: na descoberta do inconsciente por Freud, fundador da psicanálise, os processos do sistema inconsciente não têm, justamente, nenhuma relação com o tempo. O inconsciente é atemporal. Haveria algo que, no campo da psicanálise, se poderia chamar de contemporâneo. O discurso analítico escuta o sujeito afetado pelo sofrimento e promove um distanciamento. Um esfriamento sintomático, operando um rearranjo que nos permite a distância de ver.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.