Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
EM DIA COM A PSICANÁLISE

O que temos para hoje

O real acontece à revelia das vontades. Para a psicanálise, esse real está para além dos desejos, nos mostrando que não somos donos nem da nossa própria morada

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Neste domingo (25/10) termina a disputa eleitoral. Vamos às urnas e, depois de uma sofrida espera, a decisão. Semana difícil; de um lado, esforço redobrado. Do outro, um clima de já ganhei. Esse, logo retificado pela forte reação da militância. O equívoco de cantar vitória antes do tempo ignorando um real indefinido.

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O debate da Band, na semana passada, espelhou a realidade: desrespeito, deboche, acusações e provocação. Flávio perdeu a oportunidade de ser mais respeitoso com o adversário; Lula reagiu com raiva e, claro, se ofendeu, rebatendo. Mas, pelo menos, não ficou igual papagaio de pirata, se manifestando atrás do adversário. Feio. Que espetáculo decepcionante. Das propostas, dos programas, pouco se disse.


De uma coisa sabemos, com certeza. Neste país exausto e dividido, com mínima diferença entre os lados, muitos sairão feridos e insatisfeitos, e, melhor será aceitar o resultado das urnas. A democracia nos obriga.


O real está sempre a bater em nossas portas. Ele é o ido, é o que é, o que nos surpreende, o que não podemos controlar. A máxima “até a Deus é vedado fazer não acontecido o que aconteceu” dita pelo poeta grego Agatão, no século V a.C., e perpetuada pelo filósofo Aristóteles.


Estamos sempre a trombar com acontecimentos, os quais não podemos revogar, por mais que queiramos. O real é dessa natureza, acontece à revelia das vontades. Para a psicanálise, esse real está para além dos desejos, nos mostrando que não somos donos nem da nossa própria morada.


Como nos disse Freud, sofremos três golpes narcísicos no decorrer da história. Primeiro: golpe cosmológico, quando Copérnico derrubou o geocentrismo. Desmentiu que a Terra era o centro do universo. Segundo: golpe biológico, Charles Darwin e o fim da presunção do homem de ser superior aos animais. O terceiro, golpe psicológico: o homem não é senhor em sua própria casa. O ego não tem o controle de tudo, somos dotados de um inconsciente, que desconhecemos e rege a vida consciente.


Pois bem, neste domingo saberemos o que será dos próximos anos. E seja lá qual for o resultado, sobreviveremos, como afirmou Bethânia. Enfrentamos um percurso difícil e longo, e a agressividade demonstrada nas redes não poupou ninguém. Amigos e irmãos dividiram opiniões, muita gente rompeu relações.


Não sabemos o que pode acontecer, caso haja virada. Mas, caso não haja, deu tempo de calcular o que poderá advir da extrema-direita. Privatizações, o SUS vai virar Einstein, atenderão a todos por telefone, marcando consultas e levando remédios, as universidades públicas na pasta da Ciência e Tecnologia, cortes nas bolsas, etc.


Esperemos, se virar, que não seja tão odioso como nas últimas eleições. A democracia esquecida. O ex-presidente se recusou a entregar a faixa e saiu do país. Na sequência, revolta e ódio, a desagregadora pulsão de morte. Recusa do real. A violência mostrou a cara, demandaram golpe de Estado às Forças Armadas e mais, o 8 de janeiro. O narcisismo ferido, o amor próprio abalado, a odiosidade. E, hoje, alguém sairá perdedor.

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Os brasileiros escolheram e colherão as consequências. Será o real, mesmo que impossível de suportar; o que podemos esperar? Desejamos um país justo, pacífico. Educação, saúde, economia saudável, segurança e soberania. O país é nosso. Cito a psicanalista Gilda Vaz, em artigo nos “Fragmentos de um discurso psicanalítico” da última semana: “Observando o funcionamento mostrado pelas redes sociais, fica a pergunta: será isso utopia? Será possível?”.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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