Um passado que retorna
"Um passado a se realizar: A topologia atemporal do inconsciente" (Editora Scriptum), de Loren Costa Assim, é leitura imperdível para interessados em psicanálise
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Para aqueles que amam a psicanálise e se interessam pelos caminhos tortuosos da vida psíquica, desejantes em saber mais sobre o desejo, o inconsciente, os sintomas, atos falhos, sonhos e repetições, sempre haverá uma boa literatura.
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Os psicanalistas estão sempre produzindo e insistindo na transmissão de um saber sobre o qual não sabemos. O inconsciente vivo. O estranho mais íntimo de cada um. Convido os leitores a percorrer essa interessante escrita. Leve, poética, clara, pontual e assertiva.
“Um passado a se realizar: A topologia atemporal do inconsciente”, livro da psicanalista Loren Costa Assim, lançado em agosto último pela Editora Scriptum, é esta leitura. Imperdível. Fonte de pesquisa para estudiosos da psicanálise, analisantes e leigos interessados nos meandros da vida psíquica no cotidiano.
A pergunta que norteia a escrita de Loren ecoa desde Freud: o que faz o sujeito repetir experiências tão penosas, sair de uma situação de sofrimento e retornar a ela, mais uma e outra vez? A constante recorrência do mesmo, segundo nos ensina Freud, inspirado em Nietzsche, não nos impressiona quando é uma escolha consciente, mas causa espanto quando vivida de forma passiva.
As pessoas costumam explicar suas repetições como fatalidades da vida, azar, triste coincidência, carma, destino e ainda costumam dizer que têm o “dedo podre” para fazer escolhas. Dizem isso sem saber que cada repetição é uma chance para elaborar nossos sintomas, mas demoramos a entender, às vezes, nunca...
A autora derruba concepções errôneas e discorre sobre alguns casos clínicos de Freud e Lacan, além dos seus próprios, dialogando também com a filosofia e a ciência, e constrói muito bem o caminho para enfatizar que, para a psicanálise, as repetições são um arranjo do passado esquecido.
Há uma descontinuidade entre dois tempos. O lapso temporal entre o acontecimento de corpo e sua elaboração, hiância essa que promove uma dissimetria temporal. Ou seja, um trauma, no momento em que ocorre, não é elaborado. Só depois, quando o sujeito, em uma narrativa e por associação livre, fala disso é que há uma elaboração ou uma realização desse passado, causa das repetições.
O passado não acontece se o afeto não é tocado, não encontra a palavra e fica como que um resto girando em torno do sujeito, provocando a repetição do sintoma e o sofrimento. A causa do sintoma, portanto, só pode ser descoberta depois, quando as associações e lembranças encobridoras levam o sujeito a entender um passado que só se realiza no futuro, pela repetição.
Freud compara esse processo ao de escavação, por exemplo, Roma, com diversas temporalidades preservadas, passado e presente, lado a lado. Assim também o inconsciente guarda o passado sendo atualizado na repetição, escavado pela palavra.
O inconsciente não está no passado e, por isso, Freud desistiu da hipnose, da regressão e igualmente não se pode recorrer à previsibilidade, prevenção, nem determinar um acontecimento.
Loren propõe a investigação da temporalidade do inconsciente, que é invertida: primeiro, temos os sinais, os sintomas, repetições, sonhos, atos falhos e, depois, chegamos ao início, de onde tudo procede, ao trauma do passado, que só se realiza no futuro. Sua causa, sempre camuflada e inconsciente, como uma sacola à espera de ser aberta.
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Isso e muito mais encontraremos nesse belo livro, que compõe a Coleção Sala de Espera da Editora Scriptum, de Welbert Belfort. Orelha escrita pelo editor Pedro Castilho, prefácio de Guilherme Massara e linda capa concebida pela autora com recursos da IA, redesenhada por Júlio Abreu. Revisão de Luisana Gontijo e produção editorial de Ana Clara Bastos. Muito bom!!!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.