Livro sobre um século de psicoterapia tem simplificações e omissões
"Arquitetos da alma" enfatiza particularidades de nomes como Freud e Jung e praticamente ignora figuras decisivas para a história da psicanálise como Lacan
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Por Ana Cecília de Carvalho — Especial para o Estado de Minas
Há cerca de uns dez anos, fui convidada para assistir a uma palestra em um instituto de psicanálise nos Estados Unidos, evento que daria ao conferencista o título de psicanalista depois de cumpridos todos os requisitos para sua formação. Com um misto de curiosidade e grande interesse, eu me dirigi ao auditório lotado onde, por sorte, consegui um assento quase em frente ao palco. O título da palestra, projetado no telão, era mais ou menos este: "O Pequeno Hans em Freud". Pouparei o leitor da maior parte das minhas impressões.
Durante cerca de uma hora, ouvi uma série de afirmações – em tom de galhofa, seguidas de risadinhas do público – sobre o Complexo de Édipo, basicamente descrito pelo conferencista como "os desejos sexuais não reprimidos de Freud sobre sua mãe", desejos estes que ele projetaria na forma de uma "teoria" sobre a neurose (na palestra, as aspas apareciam nos gestos com os quais algumas pessoas costumam fazer citações ou alusões enquanto falam). A teoria do Complexo de Édipo, assim como toda a estrutura teórica da psicanálise, incluindo e, sobretudo, a Teoria do Inconsciente e do Aparelho Psíquico, nada mais eram do que as tentativas de Freud de explicar e curar a própria neurose.
Para minha surpresa, na conclusão, ele afirmaria ainda que, embora "considerada uma técnica da psiquiatria", a psicanálise precisava de validação científica, caso sobrevivesse ao escrutínio rigoroso que costuma ser utilizado nas ciências biológicas e exatas. Enquanto isso não acontecesse, todo cuidado seria pouco para evitar a generalização de arremedos teóricos e técnicos que, na chamada psicanálise, não possuem a menor consistência. Era para isso que, segundo ele, existiam os institutos de psicanálise, os quais, tal como aquele específico no qual a palestra acontecia, dedicavam-se a criar a solidez da psicanálise, retirando dela qualquer traço de charlatanismo por trás da falsa aparência de ciência.
O que se seguiu foi uma salva de palmas muito entusiasmadas. Por um momento, pensei que eu tinha me dirigido à conferência errada, em um endereço diferente da sede daquele instituto de psicanálise. Mas não, infelizmente.
Algum tempo depois, em conversa com dois membros da associação, percebi que nada havia mudado. Pelo contrário. Um deles, inclusive, relatou ter feito uma pesquisa com pacientes que haviam experimentado tipos diferentes de terapia, para ver em que medida eles julgavam a psicanálise "melhor ou pior" do que outros tipos de tratamento. Um critério importante para medir a efetividade do tratamento, disse ele, era o das "recaídas" e ou o surgimento de outros sintomas diferentes daqueles que os tinham levado ao tratamento. Nesse quesito, me garantiu consternado, a psicanálise continuava perdendo, pois tinha sido descrita 70% das vezes como uma mera técnica de sugestão ao sabor das peculiaridades do profissional.
Eu me vi tentada a dizer que não devia ser sem razão que os psicólogos e psicanalistas são representados de um modo, digamos, peculiar, no cinema norte-americano, quando aparecem como caricaturas cheias de tiques e outros problemas emocionais piores do que os dos pacientes, tal como no filme "Vestida para matar" (1980), de Brian de Palma.
Tudo isso me veio à memória enquanto lia "Arquitetos da alma: um século de psicoterapia", do psicólogo e jornalista científico alemão Steve Ayan, reconhecido como especialista em neuropsicologia e pesquisa da consciência. A obra é organizada em torno de eixos temáticos apresentados nesta ordem: o inconsciente; o sexo; o medo; o eu; os outros; o sentido.
Em um estilo romanceado e leve, Ayan começa o livro evocando, pelo olhar de Alfred Adler, então um jovem médico, a primeira reunião para a qual fora convidado, no número 19 da rua Berggasse, em Viena. Esse era o endereço onde Freud residia e continuaria a atender seus pacientes até 1938, quando, com a perseguição aos judeus pelos nazistas, ele teve de partir para o exílio em Londres, onde morreria no ano seguinte.
O próprio Freud fizera o convite a Adler para aquela noite, assim como o fez aos outros médicos presentes (Wilhelm Stekel, Max Kahane e Rudolf Reitler). Durante algum tempo esses encontros, quando casos clínicos eram relatados, seriam conhecidos como a "Sociedade das Quartas-feiras", berço do que se tornaria, anos depois, a International Psychoanalytic Association. No final das apresentações, seguia-se sempre uma discussão feita por Freud, sob a luz das ideias e métodos que ele tinha começado a elaborar teoricamente e que viriam a formar o corpo teórico da psicanálise, tais como as noções de inconsciente e aparelho psíquico, as pulsões, e os mecanismos de defesa, assim como o método do tratamento (a associação livre, a transferência e a interpretação). Ao longo dos anos, a composição dos encontros das quartas-feiras mudaria, com acréscimos, debandadas e dissidências, as mais conhecidas sendo a do próprio Adler (1911) - que fundaria a Psicologia Individual - e a de Carl Jung (entre 1912 e 1913), com a criação da Psicologia Analítica.
Nos capítulos seguintes, Ayan prossegue na retomada da história das psicoterapias e da psicanálise, enquanto busca se apoiar nas biografias e contribuições teóricas e clínicas de alguns nomes famosos como, por exemplo, Sigmund Freud, Alfred Adler, Carl Jung, Karl Abraham, Viktor Frankl, Otto Rank, Fritz Perls, Carl Rogers e Abraham Maslow e John Watson.
Se nesse livro, que talvez interesse ao curioso por conhecer a história da psicanálise e dos diversos sistemas em psicoterapia, destaque é explicitamente dado a uns, outros nomes e teorias aparecem como coadjuvantes, deixando o leitor concluir de forma equivocada que tiveram pouca ou nenhuma importância. Entre esses, aparecem na sombra as contribuições de Anna Freud, Melanie Klein e Sándor Ferenczi. Donald Winnicott, contemporâneo de Freud e de importância fundamental para a psicanálise com crianças, sequer é mencionado. Jacques Lacan, por exemplo, tem seu nome citado uma única vez, sem nenhuma contextualização ou qualquer outro dado que sequer aluda à importância que ele teve e continua a ter no campo da renovação da psicanálise.
Tão importante quanto possa ter sido o esforço de Ayan para destacar a contribuição de cada um dos nomes por ele escolhidos e também dos que ele denomina de "os outros" (p. 235), dentro e fora do campo da psicanálise, no que se refere ao alívio do sofrimento emocional, o problema é que, na apresentação da contribuição dos autores por ele destacados, ele enfatiza as suas particularidades pessoais e traços de personalidade. Não resta ao leitor, portanto, concluir que cada uma das relevantes contribuições que eles deixaram nada mais é do que o resultado dos seus problemas emocionais.
Não custa perguntar que relevância teria para o campo das teorias e técnicas em psicologia e psicanálise se Melanie Klein e sua filha Melitta competiam entre si por exercerem a mesma profissão, ou se Anna Freud viveu um relacionamento homoafetivo com Dorothy Burlingham. Se Alfred Adler não era exatamente feliz com a sua altura e Jung apaixonou-se por uma paciente, numa época em que ele acreditava que isso fazia parte do tratamento, que diferença faz? Qual a importância de Carl Rogers ser descrito por Ayan como "o bom homem de Oak Park" (p. 247) ou que algo da sua experiência como pastor se mostra na Terapia Centrada na Pessoa? Qual a pertinência da informação sobre Fritz Perls e Albert Ellis serem irascíveis, cada um a seu modo, e John Watson ter sido um homem solitário, temperamental, reservado e arrogante?
Ironicamente, no raciocínio de Ayan, a relevância das particularidades biográficas dos teóricos em psicologia e em psicanálise de que resultam os sistemas por ele criados, nada será diante da aferição da validade que deve ser feita nesses campos por "critérios científicos", seja lá o que isso quer dizer. Parece justo, dirá o leitor. Contudo, lembro um detalhe importante. Nem a psicanálise nem a psicologia são ciências exatas. Os sujeitos que elas descrevem e tratam têm uma história singular e são seres de linguagem. A psicologia e a psicanálise continuam iluminando não apenas a clínica, mas também a arte, a literatura, o fenômeno político e o social, e encontram seu vigor e efetividade em campos nos quais a própria noção de ciência é questionada. Isso posto, como a canhestra conferência no instituto de psicanálise me fez pensar, qual o sentido de continuar insistindo na afirmação de que essas teorias e técnicas seriam projeções das mentes doentias daqueles que as esboçaram?
ANA CECÍLIA CARVALHO é escritora, psicanalista e membro da Academia Mineira de Letras.
Trecho
“Quando a fé cura dessa maneira, há todos os motivos para se confiar e deixar de lado os questionamentos. É provavelmente por isso que alguns profissionais aparecem com uma autoridade irritante e muitos clientes confiam em cada palavra deles. À medida que o grau de convicção aumenta, também aumenta o desejo de se imunizar contra a dúvida. Mostrar esse dilema foi um dos princípios que nortearam a seleção das pessoas retratadas aqui. Elas criaram grandes ideias e doutrinas poderosas de cura e, ao mesmo tempo, eram prisioneiras de suas teorias e de seus egos.” (p. 315).
"Arquitetos da alma: um século de psicoterapia"
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De Steve Ayan
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Tradução de Rafael Rocca
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Planeta do Brasil
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448 páginas
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