Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
Em dia com a psicanálise

Feminicídio

O feminicídio é causado quando os impossíveis e os contingentes retiram todas as garantias e promovem uma ofensa ao falo, atingindo as bases do patriarcado

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Nunca esqueci as lembranças de uma amiga sobre sua avó, idosa e viúva, varrendo o passeio de sua casa enquanto falava: “Mulher sem homem não vale nada”. Isso há uns 50 anos. Acredito que, ainda hoje, muitas mulheres concordam com o pensamento de que ficar sem um homem para chamar de seu é muito difícil.

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Talvez isso justifique as muitas concessões das mulheres que mantêm relacionamentos insatisfatórios, às vezes, com homens rudes, desatenciosos, episódios de traições que são perdoados, recaindo todo o ódio contra a “outra”, essa, sim, a traidora, enquanto o parceiro é poupado.

Como entender que, apesar das muitas queixas e sofrimento, de já não existir o carinho e a atração iniciais, ainda assim, permanecem na acomodação de ter alguém e não estarem sós. Acompanhadas, elas estão sob a proteção de um homem.

O homem é portador do falo, significante da masculinidade, e, na nossa sociedade, ainda retém um valor significativo, como se isso lhe conferisse um valor social maior que o da mulher, restos de toda uma história onde a primazia do masculino conferiu ao homem privilégios que negou à mulher.

Ela não tinha voz nem liberdade. Desprovida disso, precisava da proteção do homem, que detinha o poder. Não vamos reduzir esse poder fálico ao órgão sexual, é mais do que isso, a mulher era considerada sexo frágil, um ser de falta e, por muito tempo, foi submetida num mundo masculino.

O poder dominador dos homens gradativamente foi sendo diminuído com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, proporcionando sua independência, inclusive, sexual, a partir do advento dos anticoncepcionais.

Hoje, as mulheres podem viver independentes e sem medo de falar não àquilo que não lhes agrada. O desejo é permitido sem sanções ou castigos. Mas nem todos os homens apreciam esse fato, que os retira do poder. Ainda em muitas famílias são educados com privilégios e o incentivo à virilidade promovido pelas próprias mães, como proteção contra a homossexualidade.

No contemporâneo, caminhamos em direção ao feminino e masculino como estruturas psíquicas, porém, não há gênero psíquico, há corpo. Um corpo pulsional sustentado por desejo singular, que não obedece à vontade. O desejo se impõe ao sujeito, que sofre as consequências de suportá-lo, mesmo à revelia da vontade.

Desejar tem consequências avassaladoras, como mostra a escalada vertiginosa e trágica da violência. Assassinatos tão frequentes receberam nome próprio, o neologismo feminicídio. O feminicídio é causado quando os impossíveis e os contingentes retiram todas as garantias e promovem uma ofensa ao falo, atingindo as bases do patriarcado, como deslealdade e insubmissão.

É lamentável a agressividade dos homens dirigida ao feminino. Muitos não acompanharam as conquistas das mulheres e a luta pelos direitos de igualdade civil, e ainda insistem em valores machistas.

Não desejam perder seus podres poderes, aliás risíveis, como sustentar uma potência viril, e têm pavor à impotência. Ora, o falo também detumesce!

Esse falo “infalível”, quando perde seu poder, enlouquece. Por quê?

Por ser sustentado por pilares femininos, que amparam o falo masculino. O feminino é, portanto, a sustentação desse falo que, ao não ser mais desejado, ou ser traído, provoca uma ofensa inaceitável no ego do machista, de forma a retirar dele todo o sentido de valor, restando apenas o ódio àquela que o reduziu à impotência, raiz do impossível de suportar.

A fúria provém da falta de sustentação da potência viril, da perda do poder do falo, levando ao ato de matar a culpada pelo sinal de sua impotência, antes sustentada pelo desejo, que arrefece. O amor é contingência, pode acontecer ou não… pode acabar, é sem garantia!

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A mulher faz o homem, ela crê. Quando desacredita, retira a sustentação fálica, os pilares que fazem o significante masculino. É o ódio que surge desse descrédito, da devastação causada nos homens. Eles estão em crise sobre seu valor e, traídos ou abandonados, pela perda da potência viril que os ancorava, se vingam com nosso sangue.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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