Édipo e a esfinge
A esfinge grega, embora herdeira da influência egípcia, tinha um caráter bem diferente, conforme atesta a tragédia de Sófocles "Édipo rei"
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Semana passada falei das esfinges. A egípcia e a grega. Esfinge: um ser mitológico presente em diversas culturas da Antiguidade. O Egito exerceu grande influência sobre a Grécia. E essa foi uma delas.
A esfinge no Egito e na Grécia apresenta uma fusão de corpo de leão e cabeça humana, mas com papéis e aparências distintas. A egípcia é um guardião masculino benevolente (androsfinge), enquanto a grega é uma criatura feminina alada e monstro mortal. A egípcia guarda templos; a grega impede a entrada em Tebas e ficou famosa pela exigência da resolução do enigma que propunha para liberar a passagem.
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A história de Édipo, imortalizada por Sófocles em “Édipo rei”, é uma tragédia grega sobre um homem destinado pelo oráculo a matar o pai e casar-se com a mãe. Após tentar fugir do destino, ele cumpre a profecia, ignorando parte de seu destino.
Seus pais eram Laio e Jocasta, reis de Tebas. Temendo que a profecia se cumprisse, Laio perfurou os pés do filho, marcando-o, e o entregou a um servo para que o abandonasse no Monte Citeron. Mas, quis o destino que fosse salvo por um pastor e entregue ao rei de Corinto, Pólibo, por quem foi adotado e nomeado Édipo, por causa dos pés inchados.
Cresceu ignorando não ser filho biológico do rei Pólibo e, quando soube da profecia, temendo que se cumprisse, fugiu para longe dos pais. Foi andando em direção a Tebas. Numa encruzilhada, quase foi atropelado por uma carruagem a toda velocidade. Brigou com o homem e seus servos e os matou, sem saber ser Laio, seu verdadeiro pai.
Seguiu para Tebas e se deparou com a esfinge, nesse caso, a grega, diferente da protetora esfinge egípcia, que aterrorizava Tebas, devorando quem falhasse em responder ao enigma: “Que criatura anda com quatro patas de manhã, duas à tarde e três à noite?”
Édipo foi o primeiro que respondeu e entrou em Tebas, bem-visto como libertador da cidade. Tornou-se o rei de Tebas e casou-se com a viúva, Jocasta. Ignorava, porém, ser ela sua verdadeira mãe. Cumpriu a profecia.
Freud, nas suas observações sobre a sexualidade infantil, tomou essa tragédia grega como metáfora para apontar o amor da criança pela mãe e a rivalidade ao pai, no caso do menino. No caso da menina, também o primeiro amor é a mãe, porém, desapontada por constatar a castração na mãe e, em si própria, migra esse amor para o pai e rivaliza com a mãe.
Nos casos de homossexualidade se dá o mesmo, no primeiro tempo, mas, no segundo, a virada é diferente. Essa passagem é esquecida pela criança e suas marcas permanecem no inconsciente. A gente esquece, ele nunca.
A sexualidade infantil chocou até mesmo a comunidade médica, pois maculava a concepção de inocência das crianças. Freud insistiu para ser escutado e respeitado pela sua descoberta do inconsciente e abriu caminho para combater muitos preconceitos da época vitoriana.
Mas nem todos, alguns permaneceram, como no caso de sua paciente Dora. Ele não percebeu o interesse homossexual da paciente, dirigido à amante de seu pai, com quem convivia, e sim pelo marido dela. Depois, reconheceu seu erro.
Voltando às esfinges, vê-se que a grega, embora herdeira da influência egípcia, tinha um caráter bem diferente. Quanto à solução do enigma: “Decifra-me ou te devoro: Que criatura anda com quatro patas de manhã, duas à tarde e três à noite?”, a resposta que salvou Édipo naquele momento foi: o homem. Quando criança, engatinha; adulto, anda ereto, e velho, usa bengala. Com suas palavras, livrou Tebas de seu assombrado monstro. Assim como as palavras numa análise também o fazem.
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Só que, depois, a coisa não correu tão bem... Quando a devastadora verdade foi revelada pelo cego profeta Tirésias, resultando no exílio de Édipo, após arrancar os próprios olhos, e a morte de Jocasta por autoenforcamento, é que Tebas foi salva de um sofrimento de setes anos de fome, pois nada brotava daquela terra amaldiçoada pelo incestuoso casamento.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
