Regina Teixeira da Costa
Regina Teixeira Da Costa
em dia com a psicanálise

As paredes têm ouvidos

No Egito essa máxima tem outro siginficado, já que as ruínas das tumbas, templos e oráculos cravados nas paredes transmitem as histórias do passado

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Essa máxima se refere ao cuidado necessário quando falamos em voz alta o que não devemos, mas se materializa de outra forma no Egito. Ali, de fato, nas ruinas das tumbas, templos, oráculos e palácios estão cravados nas paredes, em hieróglifos magníficos, a transmissão dos costumes, histórias das dinastias, deuses e reinados, amores e guerras.

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Também: calendários, sistema de números organizado, instruções sobre a medicina e seus instrumentos, a mumificação. Na linguagem hieroglífica associados a Anúbis, médico e embalsamador que preparava os corpos para a outra vida é simbolizado pela figura de um cachorro. As lindas inscrições nas paredes nos revelam verdades que os antigos egípcios desejavam transmitir. Uma maravilhosa herança para a posteridade da humanidade. São mensagens recebidas e escutadas das paredes. É lindo de se ver e ouvir.


Nós, psicanalistas, interessados na linguagem, nossa principal forma de laço e identificação, desde que a ressonância da voz materna marcou e humanizou nosso corpo. Somos herdeiros de Freud, que deu voz à subjetividade feminina, reprimidas que éramos no período vitoriano, o que culminava em crises convulsivas, contorções, paralisias terríveis, porém, expressivas desse sofrimento vivido no corpo.


E, a partir dessa escuta das mulheres, Freud descobriu o inconsciente, inaugurando a ética do bem-dizer, base de toda a cura, que a cada dia nos encanta e livra dos nossos sofrimentos gozosos.


Nem todos sabem, entretanto, que grande parte da biblioteca de Freud era recheada de livros sobre a Antiguidade, e, parte significativa, dedicada ao Egito. Em sua obra, usa as escavações arqueológicas como metáfora de uma análise: as palavras revelam verdades esquecidas, soterradas na esteira do tempo. Elas dizem mais do que supomos ao falar, tornando consciente um sujeito desconhecido em cada um de nós.

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Além da biblioteca, Freud era colecionador de grande número de estatuetas. Certamente, foi inspirado por elas. Dois mil objetos de arte antiga e muitas estatuetas egípcias, as favoritas. Sua relação com o Egito Antigo era profunda, marcando sua vida não apenas como colecionador, mas influenciando a teoria que construiu e é, hoje, um grande legado para a humanidade. Diversas vezes referiu-se ao Egito, o berço da civilização, como é reconhecido.


Em Moisés e o monoteísmo: três ensaios (1939), reescreveu a história desse grande homem bíblico, considerado um judeu e líder de seu povo no exílio, levantando a hipótese de que era um nobre egípcio. Como todo herói rejeitado pelo pai, se reergueu contra ele e sua religião, inaugurando o monoteísmo e recusando a vida no submundo, ou o retorno a ela, como acreditavam os egípcios.


Em seu estudo sobre Leonardo da Vinci, escreveu sobre a faraó andrógina Hatshepsut – ficou viúva e assumiu a regência por 22 anos em lugar do filho ainda criança –, relacionando-a ao tema da bissexualidade infantil e da relação mãe-filho. Vestia-se de homem e usava barba postiça nas aparições públicas para ser respeitada. O filho, depois de sua morte, tentou apagar todos os traços de sua passagem pelo mundo, inutilmente, danificando paredes históricas.

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Também falou sobre a Esfinge, na história de Édipo, que só permitiu sua entrada em Tebas, na Grécia, depois de desvendar seu enigma: “Decifra-me ou te devoro”. Mas, não se enganem, leitores! Aqui se referia à Esfinge grega, e não à grandiosa Esfinge egípcia. Novidade também para mim! Semana que vem falo do enigma. Até lá!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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