Tem uma guerra no caminho dos cortes nas taxas de juros
A desestabilização de cadeias de produção de insumos básicos começará a afetar indústrias de todo o mundo em um período curto, provocando uma onda inflacionária
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SIGA NOEm mais uma super quarta-feira, os bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil mostraram cautela com o cenário global conturbado pela guerra dos Estados Unidos e Israel, contra o Irã, que elevou a cotação do petróleo de um patamar próximo a US$ 70 o barril do tipo brent para algo próximo a US$ 110. O ajuste representa uma alta de quase 64% em três semanas e provocou aumento dos valores dos combustíveis nas bombas de abastecimento em todo o mundo. Com o Estreito de Ormuz permanecendo fechado e o conflito escalando, com instalações de energia se tornando alvo nos dois lados, não há hoje expectativa de que a guerra de agressão seja encerrada no curtíssimo prazo.
E o prolongamento vai agravar problemas de abastecimento não apenas de petróleo, mas também de alimentos, gás natural, fertilizantes e itens fundamentais para o processamento de terras raras, com o gás hélio, subproduto do gás natural. A desestabilização de cadeias de produção de insumos básicos começará a afetar indústrias de todo o mundo em um período curto, provocando uma onda inflacionária, como a que ocorreu nas primeiras semanas da guerra entre Rússia e Ucrânia. Com esse quadro, o Federal Reserve (Fed – Banco Central dos EUA) decidiu manter os juros do país na faixa de 3,50% a 3,75%.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central também mostrou cautela. Em lugar da redução de 0,50 ponto percentual, prometida na primeira reunião do ano, manteve o corte anunciado, mas de apenas 0,25 ponto percentual, trazendo a taxa básica de juros (Selic), de 15% ao ano para 14,75%. O corte, que pode marcar o início de um afrouxamento da política monetária, é visto pelo mercado financeiro como confirmação da tendência de corte gradual nos juros. Para o setor produtivo, que pede há muito tempo um alívio nos custos financeiros, o corte é muito tímido.
A redução de 0,25 ponto percentual da taxa Selic, agora em 14,75% ao ano, ainda é considerada insuficiente para melhorar a competitividade da indústria, conforme avaliação da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). “O anúncio do Comitê de Política Monetária (Copom) não atendeu às expectativas do setor produtivo, que esperava um corte mais expressivo após quase dois anos sem reduções”, diz a Fiemg em nota.
Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, a cautela do Banco Central é excessiva e continua penalizando a economia. “A inflação está em franca desaceleração e as expectativas de mercado para a alta dos preços seguem dentro do intervalo de tolerância da meta. Isso, por si só, já justificaria queda mais acentuada da taxa básica de juros”, afirmou. Já para o comércio a queda sinaliza para um alívio. “Essa queda é um passo importante para retomarmos o fôlego do setor de comércio e serviços, fortalecendo a geração de emprego, renda e o consumo”, avalia o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Marcelo de Souza e Silva.
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No mercado financeiro, a avaliação é que a cautela de agora não vai impedir a continuidade do ciclo de cortes. “Em síntese, o Banco Central parece encarar esse choque como algo de difícil previsão, mas que, neste momento, não gera uma preocupação adicional relevante para o ciclo de juros. Ainda assim, a expectativa é de continuidade do ciclo, e, caso haja maior tranquilidade em relação ao cenário geopolítico, a probabilidade de aceleração do ritmo de cortes segue bastante realista”, afirmou o analista macroeconômico da AF Invest, Marcos Freitas. Para o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri, o Banco Central deixou explícito que vai monitorar as variáveis-chave, mas “deixando a porta aberta para cortes de 0,25 pontos percentuais”.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
