Previdência e envelhecimento: tema que a eleição não pode evitar
Com expectativa de vida em alta e menos jovens na base contributiva, a sustentabilidade do sistema entra no centro da disputa eleitoral
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O Brasil vive hoje uma transição demográfica profunda. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou nas últimas décadas, passando de 8,7 % em 2000 para 15,6 % em 2023, segundo o IBGE. As projeções indicam que, até 2070, esse grupo poderá representar cerca de 37,8 % da população — algo próximo de 75 milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida alcançou 76,4 anos em 2023 e deve continuar subindo nos próximos anos. O resultado é claro: mais pessoas vivendo por mais tempo e menos jovens ingressando na base da população economicamente ativa.
Essa mudança altera diretamente a lógica da previdência social. Em um sistema majoritariamente baseado na repartição — no qual os trabalhadores ativos financiam os aposentados — a redução proporcional de contribuintes e o aumento do número de beneficiários pressionam as contas públicas. Mesmo após a reforma de 2019, especialistas alertam que o desafio estrutural permanece. A discussão já não é se haverá pressão, mas como administrá-la com equilíbrio fiscal e justiça entre gerações.
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É justamente nesse ponto que o tema deixa de ser técnico e passa a ser político. Temos eleições neste ano. O que os candidatos dizem sobre a sustentabilidade da previdência? Há propostas claras? Falam em novas reformas, ajustes paramétricos, estímulos à formalização do trabalho ou revisão de privilégios? Ou o tema permanece diluído em promessas genéricas? Envelhecer não é pauta de nicho; é eixo central do futuroeconômico do país.
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Ao mesmo tempo, o debate sobre previdência não pode ignorar a dimensão ética. Escândalos envolvendo o INSS e aplicações temerárias ou fraudulentas em fundos ligados a gestões públicas de diferentes espectros políticos corroeram a confiança e ampliaram a percepção de má gestão. Quando recursos destinados à proteção social são mal administrados, a discussão deixa de ser apenas contábil e passa a ser também moral. Sustentabilidade não é apenas questão de cálculo atuarial; é questão de governança, transparência e responsabilidade.
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Talvez a pergunta que deva acompanhar o eleitor neste ano seja simples e direta: que modelo de previdência queremos sustentar em um país que envelhece rapidamente? Porque o envelhecimento não é ideológico. Ele édemográfico. E as escolhas feitas agora definirão se viver mais será sinônimo de segurança ou de incerteza.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
