Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor.
FILOSOFIA EXPLICADINHA

Carnaval pedagógico é um saco!

Um carnaval pedagogizado cita relatórios da UNESCO entre um bloco e outro e produz indicadores de impacto social por metro quadrado de confete

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A pedagogia não inventou a educação. Ela tenta sistematizá-la, condicioná-la e torná-la mais eficiente – para quem? O fato de atingirmos alguns resultados, por si só, não garante um sujeito educado. Em um regime ditatorial, por exemplo, a melhor saída é a ineficiência. Porém, a visão distorcida de algumas pessoas sobre a pedagogia acabou reduzindo-a à pedagogização. É por isso que a ideia de “resultados”, por si só, não salva ninguém. O mais importante talvez seja se perguntar: benefícios para quem? É aí que diferenciamos a crítica da alienação. O alienado é um ótimo cumpridor de ordens, um bom exemplo de sujeito pedagogizado. O indivíduo consciente, por sua vez, é um grande perguntador.

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Nem sempre uma organização pedagógica é educativa. Em algumas vezes, ela organiza para não educar, pois o sujeito educado é reflexivo. Ao contrário, o pedagogizado é esvaziado de sua importância. Quando os gregos inventaram essa palavra, o pedagogo era o escravo que conduzia a criança até o seu mestre. Na essência do termo, a noção de vigilância. É por isso que a pedagogia moderna se especializou em ser uma espécie de inspetora, pronta para corrigir desvios daqueles que desejam trilhar um caminho próprio.

A contemporaneidade distorce o sentido da pedagogia ao tentar pedagogizar todas as coisas. E isso é um saco. Não há espaço para a crítica e para a reflexão, pois todas as ações pretendem ser milimetricamente acompanhadas por aplicativos, algoritmos e o próprio Estado como expressão tecnológica da vigilância.

Como exemplo prático, pensemos em um carnaval pedagogizado – poucas coisas são tão chatas. E para não ser confundido, é preciso explicar que isso não tem a ver com pactos civilizatórios que devem ser garantidos não apenas no carnaval, mas durante toda a vida social, como o respeito ao corpo do outro, a erradicação de qualquer tipo de discriminação ou violência, por exemplo.

Um carnaval pedagogizado é aquele que reduz a espontaneidade da alegria aos objetivos da Organização das Nações Unidas, cita relatórios da UNESCO entre um bloco e outro, produz indicadores de impacto social por metro quadrado de confete e, se possível, elabora um plano estratégico com metas SMART para a felicidade coletiva a partir da fantasia mais consciente até a Quarta-Feira de Cinzas.

No meio da avenida, o carnaval pedagógico é um ótimo exemplo para a nossa sociedade. Ele alimenta fiscais que cobram justificativas teóricas para o riso, desconsiderando a vontade de potência desse gesto que não necessita de validação institucional. Os agentes da pedagogização são aqueles que lutam para que o samba, antes de ser tocado, apresente seu referencial metodológico. Que saco!

A obsessão por transformar tudo em dispositivo formativo revela menos amor à educação e mais medo da liberdade. Educar, no sentido mais radical, é lidar com o imprevisível: é abrir espaço para que algo novo surja — e o novo é sempre uma ameaça à ordem previamente desenhada. Por isso a pedagogização do mundo funciona como uma grande contenção de danos: ela transforma experiências em competências e reduz os conflitos em oportunidades de melhoria contínua. Nada pode simplesmente acontecer; tudo precisa servir. O problema é que, quando tudo serve, nada significa.

Nesse cenário, a educação já não é o encontro arriscado entre sujeitos, mas um protocolo de adequação. Forma-se não o cidadão, mas o perfil; não o pensamento, mas o desempenho.

Por isso a ineficiência, em certos contextos, seja profundamente ética. Não cumprir expectativas injustas pode ser a única forma de preservar a dignidade do pensamento. A pedagogia, quando esquece que deveria servir à liberdade e não à domesticação, torna-se apenas o braço didático da conformidade.

E então voltamos, ironicamente, ao escravo da Grécia Antiga: aquele que conduzia a criança ao mestre. A pergunta incômoda é se, hoje, não ampliamos a função — conduzimos todos a todos os lugares, o tempo inteiro, sob a promessa de desenvolvimento permanente. Nunca estivemos tão acompanhados. Nunca estivemos tão conduzidos.

Educar, no sentido mais profundo, é justamente aprender a se perder sem o aplicativo dos bloquinhos, a dispensar a autorização científica para o uso de fantasias, a dançar sem a rubrica rítmica dos chatos.

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A educação começa quando o pedagogo — interno e externo — se distrai por um instante e nos deixa atravessar a cidade sozinhos. Sem vigilância. Sem relatório. Sem compromisso político com qualquer ideologia. Apenas com a responsabilidade, vertiginosa e intransferível, de escolher o próprio caminho.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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