Mary Del Priore, você cansa a beleza de qualquer negona inteligente
Uma coisa é dizer que a mestiçagem brasileira não pode ser explicada exclusivamente pelo estupro de mulheres negras escravizadas. Outra é transformar a violência sexual em uma espécie de exagero narrativo
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Quando li a entrevista da historiadora Mary Del Priore à Veja, me lembrei do meu pai me dizendo: “Minha filha, tem gente que passa de verde para podre e não amadurece nunca.” Pois é, foi exatamente essa a conclusão a que cheguei ao me deparar com uma historiadora afirmando que a ideia de que a mestiçagem brasileira nasceu do estupro de mulheres escravizadas por seus senhores é um mito.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Talvez seja necessário lembrar algumas coisas básicas à “dotora”. O Brasil tem pouco mais de 500 anos. E durante quase quatro séculos desse período, mulheres negras viveram submetidas a um regime escravocrata que não apenas lhes negava liberdade: transformava pessoas em propriedade. Mulheres negras podiam ser compradas, vendidas, castigadas, separadas dos filhos, exploradas e violentadas. Não eram donas de seus corpos, não eram donas de suas vidas, tinham um senhor, um dono, entende?
Então façamos um exercício simples, quase pedagógico. Hoje, mulheres livres, protegidas, ao menos em tese, por Constituição, Código Penal, Lei Maria da Penha, delegacias especializadas, redes de proteção e uma parafernália institucional inteira criada porque o estupro e a violência sexual continuam sendo uma realidade, ainda são cotidianamente assediadas, violentadas e estupradas. Agora imagine o que significava ser mulher negra em uma sociedade na qual, oficialmente, outra pessoa tinha poder sobre o seu corpo, seu trabalho, seus deslocamentos e sua própria existência. Imaginou?
É justamente aí que a tese da Priore começa a escorregar. Porque uma coisa é dizer que a mestiçagem brasileira não pode ser explicada exclusivamente pelo estupro de mulheres negras escravizadas. Isso é óbvio. Outra, completamente diferente, é transformar a violência sexual praticada contra mulheres escravizadas em uma espécie de exagero narrativo, como se estivéssemos diante de uma invenção de novelas e séries.
Não precisamos escolher entre a simplificação de que “toda mestiçagem nasceu de estupro” e a fantasia de que a mestiçagem brasileira foi fundamentalmente resultado de encontros afetivos entre europeus e mulheres negras. A história é mais incômoda do que isso, e talvez seja justamente por isso que ela seja história, e não um romance muito mal escrito.
A escravidão brasileira durou 388 anos, trezentos e oitenta e oito. Não foram quatro décadas, não foram duas gerações, muito menos um mero episódio desagradável que passou e deixou algumas marcas. Foram quase quatro séculos de uma sociedade branca organizada explorando a população negra. Por isso, quando alguém fala sobre a formação das relações raciais brasileiras, eu gostaria de saber em que momento exatamente imagina que a história começa. Em 14 de maio 1888? Depois da Lei Áurea? Porque, se for assim, alguém, por obséquio, avisa à “dotora” que a história das relações raciais no Brasil começou muito antes de a princesa Isabel aparecer com uma caneta na mão e uma lei ridícula no colo. A Lei Áurea não inaugurou a liberdade, ela encerrou juridicamente a escravidão. E sabemos muito bem que há uma diferença gigantesca entre essas duas coisas. As relações sexuais entre homens brancos e mulheres negras não começaram depois da abolição. A violência sexual contra mulheres negras escravizadas não é um mito, é uma verdade cruel e que os efeitos reverberam até os dias atuais.
Leia Mais
Essa ideia de que as relações sexuais e consequentemente a mestiçagem começou somente após as mulheres negras terem autonomia para dizer não é o verdadeiro mito desse blábláblá todo. O desejo branco pelo corpo negro, e a simultânea recusa desse corpo como sujeito de direitos, afeto, respeitabilidade e cidadania, também não nasceu em 1888. Portanto o senhor branco escravocrata não chamava a negra escravizada e a perguntava; “minha preta, você quer fazer sexo comigo?”. E se ela supostamente dissesse que não, você acredita mesmo que um “camarada” que a tinha como posse iria respeitar seu não?
Então, essa é uma das grandes ironias da história brasileira: o corpo da mulher negra foi considerado disponível sexualmente muito antes de ser considerado plenamente humano. E talvez seja por isso que a discussão sobre mestiçagem precise ser feita com muito mais cuidado. Porque filho mestiço não é certificado de uma relação consentida por quem não tinha direito de ser considerada gente.
Quero acrescentar aqui que uma sociedade mestiça não é necessariamente uma sociedade racialmente democrática. E relações sexuais entre pessoas de cores diferentes não são, por si mesmas, evidência de ausência de racismo. Como diria a grandiosa poeta Elisa Lucinda “porque comer uma mulata, não te faz menos racista”
O estupro é o exemplo mais concreto que pessoas podem desejar quem não respeitam, fazem sexo com quem não consideram dignos de casamento, fetichizam um corpo que jamais aceitariam socialmente como igual.
Produziram filhos dentro de relações atravessadas por desigualdade e violência brutal. Vou repetir, sexo não é prova de consentimento e muito menos de igualdade racial. Se fosse, o Brasil teria resolvido o racismo na cama há séculos, e não resolveu.
Talvez seja justamente esse o problema de certas interpretações da mestiçagem brasileira: elas olham para a existência de mistura e enxergam harmonia onde existiram coerção, violência e poder. É como se o nascimento de uma criança mestiça tivesse o poder mágico de apagar as circunstâncias históricas em que seus pais se relacionaram e não tem. É essa complexidade que a história precisa suportar.
Porque as mulheres negras não precisam que ninguém invente que todas as nossas ancestrais foram estupradas para explicar a mestiçagem brasileira, porém todas absolutamente todas estavam completamente vulneráveis e esse fato é inegável. Mas também não precisamos que ninguém invente que o estupro foi um “mito” para tornar a história da mestiçagem mais palatável.
Nós não precisamos de uma história bonita e que retire o rotulo do estuprador histórico de mulheres escravizadas, precisamos de uma história honesta. E aqui talvez esteja a pergunta que realmente importa: por que é tão difícil admitir que a mestiçagem brasileira iniciou dentro de uma sociedade na qual mulheres negras eram violentadas sexualmente por homens brancos que tinham poder legal sobre elas? Por que reconhecer isso parece ameaçar a narrativa nacional? Por que a violência precisa ser retirada da fotografia para que a mestiçagem possa aparecer sorrindo? A resposta talvez esteja justamente no desconforto que essa fotografia provoca.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Porque durante muito tempo o Brasil contou a própria história como quem arruma a sala antes da visita chegar, escondeu o que estava feio, varreu os vestígios da violência para debaixo do tapete e depois chamou a sala de racismo cordial ou democracia racial. Só que nós, mulheres negras, conhecemos o que existe debaixo desse tapete. E não temos mais nenhuma obrigação de deixá-lo ali.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.