A dupla cura de Dalton Paula
Conheci o trabalho de Dalton em 2017, por meio de uma pintura que ele fez de Lima Barreto para ilustrar a capa da biografia do autor carioca
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Inhotim está completando duas décadas de história nesse seleto reduto artístico mundial. Um espaço incontornável quando o assunto é a arte brasileira. Afinal, é o maior museu a céu aberto não apenas do nosso país, mas de todo o continente, além de ser um dos maiores do mundo. Quem sai de Belo Horizonte em direção a esse requisitado destino turístico desfruta, pelo caminho, do espetáculo natural que é a paisagem da Serra do Rola-Moça.
Com uma beleza que impressiona até os olhares mais exigentes, Inhotim recebe anualmente cerca de 300 mil visitantes. É um museu brasileiro jovem, cuja curadoria se propôs a construir diversas galerias permanentes para abrigar obras de artistas nacionais, internacionais e muitos deles vivos. Artistas que têm a possibilidade de experimentar a sensação de ver seus trabalhos contemplados por amantes da arte vindos de inúmeras cidades do Brasil e do mundo. Já o público, por mais que tente desbravar em um único dia os 140 hectares de área de visitação aberta e apreciar todas as obras disponíveis dentro e fora das galerias, não consegue. E acaba encontrando um ótimo motivo para voltar.
É justamente quando voltamos que se torna possível observar com mais atenção os detalhes desse museu que se encontra no auge da sua juventude. Eu voltei outro dia, motivada pela oportunidade de acompanhar a inauguração da exposição do artista plástico Dalton Paula. Conheci o trabalho de Dalton em 2017, por meio de uma pintura que ele fez de Lima Barreto para ilustrar a capa da biografia do autor carioca intitulada Lima Barreto – Triste Visionário. Essa capa me marcou profundamente porque a vi pela primeira vez na Festa Literária Internacional de Paraty, em uma edição que, pela primeira vez, homenageava um escritor negro.
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Tempos depois, deparei-me com outra obra sua, retratando uma mulher. Fiquei curiosa para saber quem era aquele artista de traços tão singulares, que representava a negritude de uma forma que eu jamais havia tido a oportunidade de ver. Até que cheguei ao seu nome, embora ainda sem ter visto uma única pintura sua ao vivo. Agora, quase dez anos depois, eu não poderia perder essa oportunidade.
Mas vou me ater à cronologia da apresentação das obras nesse momento jubilar, até porque a inauguração da galeria de Dalton foi a última do dia em que eu lá estive.
A primeira foi Contraplano, obra permanente da artista mineira Laís Myrrha. Um trabalho grandioso, embora eu reconheça que, do meu lugar de fala, não possuo repertório suficiente para desenvolver uma análise mais aprofundada sobre ele.
Já a segunda exposição foi uma surpresa. Foi a oportunidade de conhecer Davi de Jesus Nascimento, um mineirinho lá de Pirapora, que ocupou a Galeria Nascente com a instalação Tororama.
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Quem nos recepciona na entrada da galeria são duas carrancas. Toda pessoa criada em uma família de religião de matriz africana, vulgo macumbeira, assim como eu, acaba desenvolvendo certa intimidade com elas, acostumando-se a vê-las afastando energias negativas, influências malignas e contribuindo para a proteção e o equilíbrio espiritual dos ambientes. Mas, mesmo carregando essa memória tão afetiva, olhando a instalação por fora eu não imaginava a profundidade da experiência que viveria ao entrar e sentir o som da água, o cheiro da terra, retirada especialmente do Quilombo dos Marinhos para compor a galeria. Foi grandioso adentrar as cavernas da cidade de Januária, cenário onde foram gravados os vídeos das performances exibidas na instalação. Uma experiência sensorial capaz de deslocar o visitante para outros tempos e territórios.
Mal pude me recuperar daquela imersão surpreendente quando cheguei ao meu objetivo inicial: a Galeria da Mata, onde está sediada a exposição Dupla Cura, de Dalton Paula.
Logo na entrada, uma tela monumental impressiona pelos detalhes e pela exuberância com que retrata o povo negro: sua beleza, sua memória, sua musicalidade, sua ginga, sua intelectualidade e a ternura da infância. Dalton consegue colocar nosso imaginário para trabalhar. Promove uma desordem absoluta nesse espaço tão colonizado e nos oferece condições para imaginar uma mudança estrutural, um futuro para a arte muito diferente daquele tradicionalmente ensinado como História da Arte nos espaços acadêmicos.
Tentando, e não conseguindo, colocar em palavras o que senti, ouso dizer que é como se Dalton pegasse carinhosamente em minhas mãos e me conduzisse por um passeio. Um percurso no qual eu pudesse enxergar o mundo e o nosso povo preto exatamente como somos, sem a interferência do olhar colonial.
Apenas a beleza, a alegria e a ancestralidade. É uma experiência contagiante. De uma forma que não consegui processar rapidamente aqueles traços e aquelas cores. Passado um mês e meio daquela visita, ainda não consigo organizar verbalmente tudo o que senti. Mas gostaria que você, que me lê agora, pudesse sentir também.
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A curadora Beatriz Lemos acertou na escolha do artista e na seleção de mais de 100 obras, entre trabalhos inéditos e produções realizadas ao longo da trajetória do Dalton pena que não é uma exposição permanente, mas é de longa duração e até 2027 o público pode contemplar a versão negra pintada por esse artista fenomenal.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
