O capitão do mato aplaudiria Beatriz Bueno, de pé
"O que está em jogo não é um drama privado, mas a repetição de um padrão histórico de dependência e abandono racializado"
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É muito difícil entender o que está acontecendo quando chegamos ao meio de qualquer história, sobretudo quando elementos importantes já ocorreram. Geralmente ficamos sem parâmetros e corremos um sério risco de sermos tendenciosas ao nos posicionarmos. Verdade é que ficamos reféns de uma versão parcial dos fatos, muitas vezes induzidas por nossa simpatia por uma das partes ou por aquela perspectiva desonesta vendida por quem tem mais poder de persuasão.
Quem pega esse bonde andando na história do Brasil, como nós que aqui estamos pegamos, e não quiser ser facilmente enganada não pode ter preguiça de elaborar uma reflexão crítica. Para isso, é necessário estar atenta e cética, para não cair em qualquer conversa fiada que contam por aí. Pensar exige tempo, esforço, estudo — e cansa. Cansa muito. Diferentemente de reproduzir um discurso pronto, que é só repetir sem avaliar se faz sentido ou quais prejuízos ou lucros esse discurso pode ocasionar.
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Digo isso porque, no dia a dia, vejo inúmeras pessoas que não pararam um segundo do seu tempo para pensar sobre um fenômeno social e ficam reproduzindo falas prontas de outras, mesmo sabendo que não sabem absolutamente nada sobre aquele assunto. Repetem que Trump está certo ou errado sem nunca terem feito sequer uma leitura sobre a história da Venezuela. Saem por aí afirmando que a Rede Globo é de esquerda sem saber sequer o nome do maior acionista da empresa, nem em quem ele votou ou vota.
É uma desonestidade intelectual, em nome do ego de parecer que se sabe de tudo, que chega a me dar dor de cabeça. Quando esse tipo de gente fala de um assunto que eu não conheço, não pesquisei, não estudei, tudo bem: eu paro, escuto, reflito e, quando me parece importante, reservo um tempo para buscar mais informações sobre aquele tema. Não coloco o discurso da pessoa nem na prateleira das “notícias verdadeiras”, nem na das “fake news”. Deixo ali, em stand-by, aguardando o momento de checar se é fato ou fake. Certo?
Mas esse é o meu jeito. O jeito como enxergo o mundo, os fatos, as pessoas, as histórias e, principalmente, as relações raciais no Brasil. Eu sentei a minha bunda na cadeira e fui estudar a história do movimento negro. Essa história me apresentou figuras que me impactaram profundamente, como Hamilton Cardoso, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Luiza Bairros, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Yedo Ferreira, Miltão, Marcos Cardoso, Sueli Carneiro, Diva Moreira e tantos outros, difíceis até de citar. Pessoas que dedicaram a vida a mudar a realidade em que viviam e a proporcionar à minha geração acessos que foram negados à geração deles.
Foram essas pessoas que fizeram tudo o que puderam para implementar políticas de promoção da igualdade racial, negociando a criação de um ministério na estrutura do governo federal para tratar desse tema. Até que Matilde Ribeiro tomou posse como a primeira ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Implementaram a lei do ensino da história da África, dos negros e dos indígenas na educação básica, exigiram reserva de vagas nas universidades — primeiro na graduação, depois na pós-graduação — e nos concursos públicos. Isso possibilitou que a parcela negra da população, que não tinha nenhum acesso a esses direitos básicos, tivesse ao menos o pouco que temos agora. Certo?
Desde a nomeação da primeira ministra, se passaram 23 anos. Mais vinte e três anos em que o povo negro vem lutando por direitos numa sociedade em que a maioria negra sempre pagou impostos para que a maioria das vagas nas universidades fosse ocupada por pessoas brancas. Não foi — e ainda não é — fácil implementar políticas que ofertem à população negra o mínimo de dignidade. Construiu-se um discurso falacioso de que proporcionar acesso à população negra às universidades, à política institucional e aos cargos públicos seria racismo contra os brancos.
Quem pega essa história pela metade e tem preguiça de pensar cai fácil nessa esparrela mentirosa, porque não problematiza que o país tem “oficialmente” pouco mais de 500 anos e que, nesses 500 anos, o branco aqui foi livre — e em quase 400 deles o negro foi escravizado. Escravizado, torturado, vendido, estuprado, castrado, anulado…
Como bem sabemos, a interrupção da escravidão não interrompeu as desigualdades entre negros e brancos. O branco que era fazendeiro, dono de minas de ouro ou de comércios deixou como herança para seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos esses patrimônios. Tanto é assim que são esses herdeiros que ainda hoje são donos dos meios de produção. São eles que nomeiam ruas, praças, escolas e hospitais de nossas cidades. Já os negros escravizados deixaram como herança as dificuldades financeiras, a falta de acesso à educação formal e os ofícios que lhes eram permitidos exercer — sobretudo aqueles que comprometem a saúde física e mental, por serem insalubres e desvalorizados financeiramente.
Os espaços de poder foram passados de pais para filhos e mantidos por eles com a mesma hierarquia racial de antes: senhor e escravo, agora patrão e serviçal. Quem se parece fisicamente com o patrão ocupa cargos que pagam mais; quem não se parece ocupa os que pagam menos. Isso se dá na Câmara dos Deputados, nas universidades, nos bancos, nos comércios, nos quartéis — simplesmente em todos os espaços. Isso só muda quando estrategicamente conseguimos uma brecha e conquistamos nossos direitos de acesso numa sociedade que se diz democrática e onde negros e brancos seriam iguais.
É nesse cenário que vejo a branquitude em êxtase aplaudir uma figura que se beneficiou das políticas de promoção da igualdade racial construídas pelo movimento negro para pessoas negras. Uma figura que criou um conceito chamado “parditude” e defende que as vagas destinadas aos negros não devem ser negadas aos pardos que não são negros. Que se associa a advogados que defendem pessoas não consideradas negras nas bancas de heteroidentificação e que, por isso, foram eliminadas de processos seletivos por tentarem fraudar o sistema de reserva de vagas para pessoas negras. Quando olho para essa situação e busco referências no passado, tentando entender de onde descende esse tipo de comportamento, me vem imediatamente à mente aquela imagem pintada por Rugendas, em 1823: “Capitão do Mato”.
Um homem negro a cavalo traz outro negro escravizado com as mãos amarradas e um colar de punição. Lembra? Fico imaginando os senhores escravocratas também em êxtase porque um negro capturou o outro e o trouxe de volta. Não por acaso. A escravidão no Brasil não se sustentou apenas pelo açoite branco, mas também pela mão negra cooptada. O capitão do mato era peça estratégica de um sistema que terceirizava sua violência, fragmentava solidariedades e naturalizava a dominação.
Ao refletir sobre essa figura histórica, me pergunto: qual seria a função do capitão do mato moderno? Pensando essa figura hoje de forma simbólica, e não literal, entendo que sua função seria vigiar, conter e deslegitimar os movimentos de emancipação negra — não mais pela captura física de corpos, mas pela captura política, discursiva e ideológica. Hoje, o “capitão do mato” atuaria contra políticas de ação afirmativa em nome de uma igualdade abstrata que ignora desigualdades históricas. Produziria discursos que negociam com o racismo enquanto operam racialmente o mundo. Desmobilizaria consciências coletivas negras ao transformar opressão em “vitimismo” e reparação em “privilégio”.
Legitimaria a ordem racial vigente com a autoridade de quem também é racializado, tornando a violência mais palatável e socialmente aceitável. Se antes sua função era devolver corpos negros ao cativeiro, agora seria enfraquecer o que foi construído pela população negra — não mais pela força do açoite, mas pelo uso da lei e da retórica que nega a hierarquia racial ao afirmar a mestiçagem, sabotando a negritude através do mito da democracia racial. É a mesma engrenagem, com outra linguagem.
É nesse registro que leio a mobilização da chamada “parditude” por Beatriz Bueno: não como equivalência moral direta, mas como analogia estrutural. Quem a acompanha nas redes provavelmente se deparou com um post que ela fez no dia 24 de dezembro, em que pedia contribuições para uma vaquinha, relatando que seu pai, um homem branco, havia jogado sua mãe na rua. A mãe, uma mulher negra que já sofreu um AVC, tem sequelas físicas e é também paciente psiquiátrica.
A cena é devastadora: uma mulher negra adoecida, descartada, lançada à rua e transformada em objeto de comoção pública, enquanto o homem branco responsável pela violência desaparece da narrativa como sujeito político. O que está em jogo não é um drama privado, mas a repetição de um padrão histórico de dependência e abandono racializado. Nesse episódio, o enquadramento importa tanto quanto o fato: ele permanece protegido; ela aparece como corpo em ruína, dependente de caridade pública. O poder se reorganiza ali de forma silenciosa.
E, mesmo vivenciando toda essa situação, Beatriz se sente envaidecida em fortalecer um discurso que deslegitima as cotas para pessoas negras e tenta inserir, por meio da “parditude”, sujeitos socialmente lidos e tratados como brancos nas vagas destinadas à população negra. Ela se tornou popular nas redes sociais e, concomitantemente a essa popularidade, ingressou em um programa de pós-graduação para escrever uma dissertação sobre o tema. Teve seu projeto aprovado, recebeu orientação e foi contemplada com uma bolsa para estudar e concluir o mestrado. Há alguns meses, porém, foi jubilada do programa por não ter cumprido os regimentos internos, como a frequência às aulas e a aprovação nas disciplinas.
E o que ela faz? Diz que o jubilamento é perseguição do programa em razão do tema de sua pesquisa. Eu acho estranho. Até porque, quando ela entrou, o programa sabia qual era o tema do projeto dela — assim como o programa do qual faço parte sabia qual era o tema da minha pesquisa e, ainda assim, me aprovou. Agora, imagina eu não frequentar as aulas, ser reprovada em disciplinas e alegar que estou sofrendo racismo? Ao meu ver, essa conta não fecha. Denunciar racismo é um gesto político sério demais para ser instrumentalizado como álibi quando o que está em jogo é o descumprimento de regras que valem para todas — sobretudo num sistema que historicamente nunca esteve a nosso favor.
Pois é, estamos aqui tentando entender e assimilar essa história na qual fomos inseridas pela metade — uma inserção hierárquica em que a racialização ainda opera como mecanismo de poder. Leio essa história e tenho para mim que meu pensamento dialoga com o de Luiza Mahin, Luiza Bairros, Lélia Gonzalez e tantas outras e outros. E, ao meu ver, o capitão do mato se sentiria muito orgulhoso de Beatriz Bueno.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
