Etiene Martins
Etiene Martins
Jornalista, pesquisadora das relações étnico-raciais e doutoranda em Comunicação e Cultura na UFRJ
ARTIGO

Quando uma mulher trans assume, todos lembram que a comissão existe

Por que brancas sempre puderam representar as mulheres negras, mas uma mulher trans não pode representar todas nós?

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Em quase uma década de existência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, nunca tinha escutado tantas pessoas falarem sobre ela quanto nos últimos dias. Em tese, isso poderia representar um avanço significativo na construção de políticas públicas e no aprimoramento da legislação voltada às mulheres. Isso, caso esse interesse estivesse orientado por um genuíno compromisso político com progresso e justiça social. Mas não é o que estamos vendo. O que se evidencia, infelizmente, é um interesse atravessado pela hipocrisia e alimentado pelo ressentimento e pelo ódio.

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A maioria das pessoas que hoje se dizem subitamente preocupadas com a Comissão sequer se deu ao trabalho de compreender qual é sua função institucional ou de conhecer a trajetória das mulheres que a presidiram antes de Erika Hilton assumir o cargo. Não é mesmo? A primeira presidente da comissão foi Gorete Pereira. Depois dela vieram Shéridan, Ana Perugini, Luísa Canziani, Professora Dorinha Seabra Rezende, Elcione Barbalho, Policial Katia Sastre, Lêda Borges, Ana Pimentel e, agora, Erika Hilton.

O que me intriga é que vivemos em um país onde a maioria da população é composta por mulheres autodeclaradas negras. Ainda assim, até o mandato atual, nunca vi mobilizações indignadas em torno da questão da representatividade nessa comissão. Como explicar que, sendo nós negras a maioria, todas as presidentes anteriores tenham sido mulheres brancas, e que isso nunca tenha provocado a mesma indignação pública?

Diante disso, compartilho algumas perguntas inevitáveis.

Por que mulheres brancas podem representar mulheres negras, mas uma mulher trans não poderia representar mulheres cisgênero? Por que mulheres brancas de classe média são consideradas legítimas representantes de mulheres negras e pobres? Por que nós, mulheres de todas as cores, constituímos a maior parcela do eleitorado brasileiro e continuamos elegendo majoritariamente homens para nos representar nos poderes Executivo e Legislativo? Por que conquistamos, com tanta luta, o direito ao voto e ainda assim delegamos nossa representação política, em grande medida, aos homens?

Admito: eu gostaria de ver uma mulher negra cisgênero, como eu e como a maioria das mulheres deste país, ocupando esses espaços de poder e representação política. No entanto, entre todas as mulheres que passaram pela presidência da comissão antes de Erika Hilton, nenhuma me representou mais do que ela.

A filósofa Judith Butler nos lembra que, quando uma pessoa reivindica para si um gênero ou um sexo diferente daquele que lhe foi atribuído ao nascer, ela exerce uma das mais fundamentais capacidades humanas: a autodefinição. Esse gesto desloca a ideia de um sexo supostamente natural e imutável, e é justamente isso que incomoda aqueles que desejam controlar a vida alheia.

Esse súbito interesse por uma comissão que, até ontem, era praticamente desconhecida pela maioria, não nasce de um compromisso com os direitos das mulheres. Ele nasce do desconforto diante da liberdade de alguém existir fora das normas impostas, e, neste caso específico, de uma pessoa negra que reivindica o direito de viver e experienciar seu próprio corpo como bem entender.

Muito antes dessa polêmica, eu e tantas outras mulheres já reivindicávamos representação em todos os espaços de poder. Queremos mulheres negras como ministras do Supremo Tribunal Federal, como governadoras, prefeitas, presidentes da República, ministras da Educação, da Saúde, da Economia, presidentes do Banco Central, reitoras de universidades públicas.

Mas não movidas pelo ódio.

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Movidas pela constatação obvia de que somos a maioria absoluta da população brasileira e, ainda assim, permanecemos historicamente excluídas desses espaços de decisão. Nossa reivindicação é de justiça democrática. E pra quem queria um posicionamento de uma feminista negra está aqui o meu. Tenho algumas críticas a fazer sobre a atuação da deputada Érika Hilton? Sim, tenho. Mas nenhuma delas, pelo menos até o dia de hoje, perpassam por ela estar presidente na comissão das mulheres.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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