Se a Bahia tem o molho, BH tem o tempero?
Acarajé me alimenta também de resistência, ancestralidade africana e memória coletiva
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Foi carnaval no Brasil. Mas em Belo Horizonte, particularmente, o carnaval ferveu.
Sábado, cinco da manhã, saí para ver o bloco “Então, brilha”. Há algo de comovente naquele bloco que nasce com o dia e me faz, há anos, segui-lo nas primeiras horas que abrem as comemorações nessa cidade. Os primeiros raios de sol encontram gente já acordada, fantasiada, decidida a celebrar. Parece um grande reduto de obstinados pela alegria. Gente que troca horas de sono por brilho no rosto.
Carnaval, para começo de conversa, não é improviso contemporâneo; é festa longeva no calendário humano. Lilia Schwarcz lembrava, dia desses, como rituais de inversão e excesso atravessam séculos, reorganizando temporariamente hierarquias e corpos. O termo vem do latim carnis levale, no sentido de “retirar a carne” ou de “adeus à carne”, marcando a última festa antes da restrição alimentar da Quaresma no cristianismo.
Em diversas culturas, como na Itália, o calendário festivo determina sabores próprios do tempo de carnaval. Entre eles, destacam-se as chiacchiere di carnevale, tiras de massa frita, delicadas e crocantes, polvilhadas com açúcar, semelhantes à nossa “cueca virada”. Registros históricos sugerem vínculos com preparações da Roma antiga, cuja lógica culinária valorizava frituras ricas em gordura antes dos períodos de restrição alimentar.
Na Europa cristã, o intervalo entre o carnaval e a Páscoa configura a Quaresma, tempo de jejum e contenção. A quinta-feira anterior às celebrações, conhecida como “quinta-feira gorda”, marcava, no passado, a última oportunidade para o excesso, mesa farta, óleo abundante, açúcar generoso. As chiacchiere se tornaram, assim, símbolo comestível desse limiar entre abundância e privação.
Mas é verdade que, no Brasil, apesar da significativa expressão do carnaval, não é comum vincularmos a festa a preparos específicos. Talvez por isso eu me pergunte, todos os anos: afinal, o que comem os foliões de hoje?
Caí na folia, adoro, não perco um dia sequer. Mas é também verdade que, enquanto danço, observo. Tento entender o gosto alimentar do carnaval de 2026 em Belo Horizonte. As notícias já vinham anunciando um crescimento exponencial das bebidas mistas enlatadas, as chamadas RTDs (ready to drink). De fato, estavam por toda parte. Latas com diversas bebidas, sabores, cores, geladas, práticas. Muitas delas, feitas aqui em Belo Horizonte. A lógica da portabilidade reina quando o corpo precisa de uma mão livre para cantar, dançar ou bater um leque.
Além das bebidas, vi muito espetinho, pastel, batata frita chips, pipoca, macarrão na chapa, tropeiro, torresmo, picolé, chup-chup. Preparos que se adequam à pressa, ao deslocamento constante ou refrescam no calor. Comer em pé e negociar espaço no meio da multidão.
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Agora, o que eu gosto de comer nos blocos? Acarajé. Quando encontro, é deleite. Acarajé me alimenta também de resistência, ancestralidade africana e memória coletiva. E os acarajés que eu já provei depois de blocos na Lagoinha e no Concórdia não me saem da cabeça. Talvez as férias na Bahia ainda reverberem em mim.
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Bahia e Minas Gerais podem se juntar em cultura alimentar. Uma tem o molho. A outra, o tempero. Aliás, esse foi o refrão que eu ouvi em uma música no fim do cortejo do “Então, brilha”, numa participação especial do Bloco Swing Safado. E devo reconhecer que ficou ecoando em mim. Bahia e Minas não competem; conversam. E o carnaval, felizmente, tem fome.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
