Carlos Starling
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SAÚDE EM EVIDÊNCIA

Sobre o que escreverei amanhã?!

O cronista, esse condenado à cadeira e à página em branco, precisa encontrar sentido onde não há. Precisa tecer narrativa com os fios do caos

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Pior, o amanhã é hoje. Não sei o que parir até daqui a pouco. Esse é o drama do cronista semanal. Ainda bem que o mundo nos invade com uma avalanche de imagens que não nos deixa sem motivo para escrever. O mundo e sua estranha realidade nos fornecem pauta para o minuto seguinte e memória para não nos deixar esquecer. 

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Um menino de 5 anos foi preso pela Gestapo trampista nos EUA. Crianças são seres terrivelmente perigosos. São repletas de futuro. Podem evoluir e se transformar em secretários de Estado, ressentidos e traumatizados. A idade não importa. O que importa mesmo é a possibilidade desses seres de poucos anos, algum dia, invadirem a casa branca e a pintarem de vermelho.

Não sei como contar para os meus filhos a história do absurdo diante das lentes que captam imagens de gente sendo arrancada de suas casas e levada para não sei onde e depois deportada para lugar nenhum.

A paranoia é uma doença que se alastra com o nazifascismo, disfarçado de minoria reprimida. Nunca foi. Aliás, por isso ainda encontra ressonância em nosso dia a dia parlamentar. Apesar de negarem sua origem, estão lá. Não basta um choque de realidade produzido pela força mágica de Thor para remover a psicose das entranhas do radicalismo e fanatismo teocrático-político que contamina o Planalto Central.

Mas o cronista, esse condenado à cadeira e à página em branco, precisa encontrar sentido onde não há. Precisa tecer narrativa com os fios do caos. O que temos são sombras projetadas em telas, fantasmas digitais que desaparecem com um deslizar de dedo, espectros que habitam o limbo entre o acontecido e o esquecido.

Dizem que escrever é escolher. Tem base (como se diz lá em Ibiá)? Escrever é ser escolhido pelo acaso, pela urgência, pelo absurdo que bate à porta como vendedor insistente de enciclopédias. O cronista não escolhe seus temas; é escolhido por eles, como refém voluntário da atualidade, como testemunha ocular de um acidente interminável. E que atualidade, meu Deus. Uma em que meninos são algemados e tiranos se vestem de imperadores donos do mundo, onde a verdade virou questão de gosto pessoal e a mentira, artigo de fé, commodity negociada em bolsas de valores morais.

Um velho cronista mineiro, com elegância de quem fala sério sorrindo, escreveu: "O mundo não precisa de cronistas. Precisa de tradutores do intraduzível". E aqui estou, infectologista, tentando diagnosticar a febre do tempo, receitar algum sentido para a vertigem coletiva, para essa tontura civilizacional que nos faz cambalear entre o pavor, o riso nervoso e o choro contido.

Ser cronista é isso: viver na fronteira entre o riso e o pranto, entre a piada e o réquiem. É olhar para o mundo e perguntar-se se estamos vivendo uma tragédia grega ou um episódio mal-escrito de novela das seis. A resposta, claro, é que estamos vivendo ambos simultaneamente, numa sobreposição quântica de gêneros literários que faria Schrödinger arrancar os cabelos.

Toda semana a mesma angústia: sobre o que escrever? Como transformar o caos em coluna, a barbárie em parágrafo, o apocalipse em crônica? Como fazer caber numa meia página de jornal a imensidão do desconcerto? É como tentar enfiar o oceano numa garrafa, ou explicar Guimarães Rosa para quem só lê as manchetes dos jornais.

No entanto, escrevemos. Escrevemos porque alguém precisa manter a sanidade, mesmo que seja apenas a sanidade de reconhecer a insanidade geral e a nossa própria. Escrevemos porque a palavra ainda é o último refúgio da razão, mesmo quando a razão anda perdida por aí. Escrevemos porque, como dizia Drummond, "lutar com palavras é a luta mais vã, mas é a única que vale a pena".

O cronista semanal é um bicho estranho. Não é jornalista o bastante para os jornalistas, que o acham frívolo, subjetivo, pouco sério. Não é literato o suficiente para os literatos, que o consideram menor, circunstancial, datado. Vive nesse limbo, nessa terra de ninguém entre o factual e o ficcional, entre o efêmero e o eterno. É como ser médico sem hospital, padre sem igreja, profeta sem credenciais.

Mas talvez seja exatamente essa condição marginal que nos permite ver o que outros não veem. Como médico, aprendi que as doenças revelam verdades sobre o corpo que a saúde esconde. Como cronista, descobri que o absurdo cotidiano revela verdades sobre a sociedade que a normalidade camufla. Somos especialistas em sintomas, decifradores de febres culturais, diagnosticadores de mal-estares civilizacionais, decifradores de símbolos.

E que sintomas, prezados leitoras e leitores. Que febre. Que mal-estar. Vivemos tempos em que a realidade ultrapassou a ficção e depois voltou para pedir desculpas à ficção por tê-la ofendido com comparação tão injusta. Vivemos tempos em que o surreal virou noticiário e o noticiário virou surrealismo compulsório.

Amanhã, se Deus quiser (e ele quererá), escreverei sobre flores. Ou sobre o silêncio. Ou sobre a memória de quando as coisas ainda faziam algum sentido, quando crianças brincavam em vez de serem algemadas, quando o ódio ainda tinha vergonha de si mesmo, quando deportação era palavra de dicionário e não rotina de telejornal.

Por enquanto, resta-me esta angústia produtiva, este não saber que é, afinal, o único saber honesto que nos resta. Resta-me a página em branco e o prazo implacável, o cursor piscando como um coração eletrônico, a pergunta eterna: sobre o que escrever?

A resposta, descobri, é sempre a mesma: sobre tudo e sobre nada. Sobre a criança apartada dos pais e sobre a flor que teima em nascer na fresta do muro. Sobre a deportação e sobre a esperança. Sobre o horror e sobre a graça que ainda resiste, milagrosamente, apesar de tudo.

O cronista semanal vive assim: entre o espanto e o prazo, entre a perplexidade e a vírgula, entre o absurdo do mundo e a tentativa desesperada de ordená-lo em frases que façam sentido. Não sei sobre o que escreverei amanhã. Mas escreverei. Porque alguém precisa testemunhar o absurdo, nem que seja para dizer: "Eu estava lá. Eu vi. E não entendi nada, mas registrei tudo".

* O titulo foi fruto de um breve encontro com o João Magro, meu professor e amigo antigo, no balcão do Parrilha do Mercado.









As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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