O brasileiro vai às urnas neste domingo ao encontro de um cardápio que talvez não lhe desperte esperança. Apesar disso, o direito ao voto, o direito à escolha, segue ato de profundo significado principalmente para países como o Brasil, onde esse direito foi suprimido, em recente momento de sua história. Para mulheres, alvo no mundo de uma campanha e guerra cultural promovida por influenciadores de financiamento ainda obscuro, que tenta subtrair-lhe autonomia e direitos, como o do voto, há razões de sobra para pesquisar e fugir de candidaturas associadas às vozes misóginas.
Em Minas, o debate da sucessão mineira foi sufocado pela disputa nacional. Foi para Brasília que as cabeças se voltaram nesta campanha, que engolfou a Alta Corte. André Mendonça levantou a pauta em momento estratégico: deslocou a discussão do caso Master, que passeava pelo colo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), para o coração do Supremo Tribunal Federal (STF). O timing é sugestivo. Chama particular atenção a notícia de que os Estados Unidos destinaram US$ 1 milhão ao projeto “Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil”, que financia grupos da sociedade brasileira que se opõem às medidas do STF, informou o jornal britânico The Guardian. Diante desse cenário internacional adverso, caberia cautela aos ministros do STF. Mas, eles brincam com o fogo, como se viu no caso Master.
Em que pese o próximo presidente vá indicar quatro ministros, não é o STF que está em disputa. Sempre é bom lembrar. Alexandre de Moraes foi indicado por Michel Temer. Luiz Fux, por Dilma Rousseff. Kássio Nunes Marques está na conta de Jair Bolsonaro. O próprio Mendonça, é o nome “terrivelmente evangélico” de Bolsonaro. Dias Toffoli, foi indicado por Lula. Garantia alguma há que sendo Lula (PT) ou sendo Flávio Bolsonaro (PL) serão boas as futuras escolhas. São as instituições que precisam operar com mecanismos de controle interno. Uma desejada Reforma do Judiciário passa pelo Congresso Nacional. Não deve ser tema central da campanha presidencial.
Para a Presidência da República sobram pautas urgentes, de grande interesse estratégico, que não mereceram atenção do debate nacional, contaminado pelo Caso Master. A soberania digital e a soberania tecnológica na era da Inteligência Artificial (IA) são derivações, num país em que tem a metade dos seus dados processados em data centers estrangeiros. As terras raras e os minerais críticos estão igualmente associados à soberania nacional. O Brasil detém cerca de 20% a 23% das reservas mundiais de terras raras e concentra grande parte da produção global de nióbio. Ambos tornaram-se trunfo geopolítico nas negociações comerciais e diplomáticas com o governo de Donald Trump, que mira esses insumos para a indústria de alta tecnologia, transição energética (carros elétricos) e equipamentos de defesa militar.
Há outras questões em foco que não foram debatidas claramente, mas que emergiram em tensões colaterais que não são novas, como o caso de Nossa Senhora da Aparecida. O Brasil é um país laico, o que significa dizer, neutro, imparcial e pluralista, que garante proteção às pessoas que convivem e professam dezenas de crenças diferentes, além de pessoas agnósticas e ateias. A religião tem sido instrumentalizada por grupos políticos, que exploram fragilidades humanas na cooptação para um projeto político de poder, que nada tem a ver com a fé. O futuro presidente da República vai pacificar tensões ou irá reforçá-las, levando a guerra cultural e religiosa para o Ministério da Educação como fez Jair Bolsonaro? Quais são as perspectivas de relacionamento dos candidatos colocados com as universidades, a imprensa, professores, ambientalistas? Será um relacionamento negacionista ou será uma ponte para a construção de respostas aos desafios contemporâneos?
Mas isso não é tudo. Os atos de 8 de Janeiro representam o ápice de uma articulação para impedir a posse de um presidente eleito que, como se viu em julgamento no STF, nada tem a ver com o Caso Master. Quais são os compromissos dos candidatos com a democracia brasileira? Que consequências há, para as instituições democráticas, eventual indulto anunciado por Flávio Bolsonaro ao pai, na hipótese de ser eleito? O combate às organizações criminosas é outro tema central, até aqui contaminado por ideologias e pela mão grande do irmão do Norte. Que o promotor de Justiça de São Paulo Lincoln Gakiya venha ao púlpito esclarecer quais podem ser estratégias eficientes para o combate ao PCC, CV, entre outras derivações criminosas. Seguir o dinheiro, mesmo que ele leve à Faria Lima, é função primeira e inescapável do futuro governo. Libertar territórios do crime é outra urgência. Não são tarefas a serem feitas seletivamente, para arrancar aplausos sobre a barbárie.
O eleitor brasileiro não está empolgado com as escolhas que tem diante de si. Mas, ainda que precise fazer considerações para apontar aquele de quem “desgosta menos”, são candidaturas diferentes, que terão impacto muito distinto internamente e do ponto de vista internacional.
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Ao refletir sobre o automatismo da vida cotidiana e a brusca irrupção da consciência crítica, Albert Camus, em o “Mito de Sísifo”, descreveu o que entendeu ser a engrenagem de uma existência comum, em que a rotina e o hábito aniquilam o sentido dos atos: "Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou de fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo (...) Só que um dia surge o 'porquê' e tudo começa nessa fadiga com ar de tédio. 'Começa' – isto é importante. A fadiga está no fim dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência." Começar a pensar é desafio doloroso. Sair das narrativas de quem lucra com as suas bolhas de desinformação não é fácil. Nas palavras do autor, pensar é também começar a ser atormentado. A esperança da participação política eleitoral, neste 2026, se vê encurralada entre a apatia da continuidade morna e a ameaça de rupturas institucionais. É o momento em que o voto deixa de ser uma celebração e se torna um cálculo de sobrevivência cívica.
