A navegação tarida da eleição mineira
Os dados sugerem um segundo turno entre Cleitinho e Patrus, numa disputa que, de certa forma reflete, de certa forma, um transbordamento tardio do plano federal para o estadual
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Contam os livros de história que em 1492, quando a frota do Almirante Cristóvão Colombo navegou para Oeste do Oceano Atlântico, as ágeis caravelas Nina e Pinta iam à frente, impacientes por cruzar a linha do horizonte. Projetada para transportar grandes volumes de mercadoria, a nau Santa Maria, em que estava Colombo, se arrastava ao ritmo médio de apenas 4 nós, o equivalente a cerca de 7,4 km/h. Tanta lentidão irritava profundamente Martín Alonso Pinzón, o capitão da Pinta: com frequência disparava à frente, inclusive desobedecendo às ordens de Colombo.
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Por volta de 10 de outubro, depois de semanas enfrentando a monotonia do oceano e o fantasma da falta de provisões, o clima a bordo da pesada nau Santa Maria azedou. A tripulação, exausta pela lentidão, tensa e insegura com o curso da viagem, ameaçava um motim. Colombo fez um apelo dramático: se em três dias não avistassem terra, mudariam o leme, de volta à Espanha. Eis que na madrugada de 12 de outubro, como não podia deixar de ser, da Pinta, que ia bem à frente, ecoou o berro: “Tierra! Tierra!”
Talvez tal analogia ilustre o lento arrastar da formação da opinião eleitoral da gente de Minas nesta eleição ao governo do estado. Na disputa à Presidência da República, a caravela Pinta rapidamente cruzou o horizonte em que se desenharam dois campos políticos entrincheirados: de um lado a direita bolsonarista e eleitores anti lulistas e, de outro, a esquerda lulista e eleitores anti bolsonaristas. O cabo de guerra será decidido no detalhe, com as candidaturas que se apresentaram como alternativas de terceira via, se esvaziando com a proximidade do pleito.
Diferentemente da sucessão presidencial, é ao ritmo da nau Santa Maria que caminhou a sucessão mineira. Com o quadro da disputa no estado consolidado tardiamente, apenas em agosto, as pesquisas de intenção de voto vão, enfim, a cinco dias das urnas, dando sinais de que a terra pode estar próxima: pelicanos e pequenas aves surgem aqui e acolá; borboletas são sopradas em direção ao navio; galhos de árvores, pedaços de madeira e plantas se acotovelam no casco da nau.
Na mesma direção das tendências apontadas pelas mais recentes pesquisas Datafolha e Real Big Data, a Quaest divulgada nesta terça-feira, 29, sugere um cenário que replica, no plano estadual, o enfrentamento entre os mesmos campos políticos que se confrontam no plano nacional.
O senador Cleitinho (Republicanos) segue na liderança com 37% das intenções de voto. Embora acene também aos eleitores de Lula, Cleitinho declarou voto em Flávio Bolsonaro e tem absorvido apoios de deputados e candidatos ao Senado do PL e do PSD. Vai sendo dragado pela polarização nacional. Pela presença de Cleitinho na disputa, o governador Mateus Simões (PSD) e o empresário Flávio Roscoe (PL), candidato de Flávio Bolsonaro em Minas, estão, até aqui, com o desempenho prejudicado: têm, segundo a Quaest, respectivamente 6% e 5% das preferências.
No campo lulista, o deputado federal Patrus Ananias (PT) continua em linha de lento crescimento: ao final de agosto tinha 11% e agora está com 18% das preferências. Patrus vem puxando na reta final o voto útil de eleitores que, em princípio, canalizaram a sua preferência para as candidaturas independentes do ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT) e para o ex-presidente da Câmara Municipal, Gabriel Azevedo (MDB). Kalil tinha, há quase um mês, 11% das intenções de voto e está agora com 9%. E Gabriel Azevedo, que chegou a 5% ao final de agosto, tem agora 2%. Ambos transitam entre eleitores da esquerda à direita não bolsonarista.
Os dados sugerem, neste momento, um segundo turno entre Cleitinho e Patrus, numa disputa que, de certa forma reflete, guardadas certas características específicas, um transbordamento tardio do plano federal para o estadual. Ao fim da viagem, o que se avista, é a gravidade da polarização nacional cobrando o seu preço.
Mônica Sifuentes
A desembargadora federal Mônica Sifuentes assumiu a coordenação da Comissão de Participação Feminina do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG). Trata-se de uma instância de articulação, diagnóstico, proposição e acompanhamento de ações institucionais voltadas à promoção da igualdade de gênero. Entre seus objetivos estão assegurar, no âmbito da Justiça Eleitoral, a igualdade de oportunidades, valorizar a atuação feminina, prevenir assédio e discriminação, incentivar a presença de mulheres em cargos de chefia e assessoramento e promover ações de educação e conscientização.
Novo alerta
Os senadores democratas Peter Welch, Tim Kaine e Jeanne Shaheen enviaram uma nova carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, na qual afirmam que ações do governo Donald Trump ameaçam a relação estratégica com o Brasil. Os senadores o acusam de promover uma "campanha de interferência e desestabilização" no país às vésperas da eleição presidencial. Tim Kaine e Jeanne Shaheen integram o Comitê de Relações Exteriores. Na quinta-feira (24), o senador independente Bernie Sanders e 30 deputados democratas enviaram uma primeira carta de semelhante teor a Rubio. O Departamento de Estado tem afirmado que o governo americano irá respeitar o resultado do pleito, mas acrescenta a expressão "eleições livres e justas”, frequentemente usada para questionar a legitimidade do voto. "Respeitamos o povo brasileiro e qualquer governo que eles escolham livremente por meio de eleições livres e justas no Brasil", disse um funcionário americano, em agosto.
Tarifas e sanções
Os parlamentares dizem que, ao longo do segundo mandato de Trump, autoridades americanas participaram de uma campanha de "interferência e desestabilização" no Brasil. Como primeiro exemplo, citam a imposição de tarifas e sanções em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. A carta cita a redução das tensões entre os países, com conversas "diretas e cordiais" entre Trump e Lula. Mas, segundo a correspondência, a pressão sobre autoridades brasileiras foi retomada após a nomeação de Darren Beattie como assessor sênior para assuntos relacionados ao Brasil no Departamento de Estado.
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OEA
A Organização dos Estados Americanos (OEA) começou a enviar autoridades de outros países ao Brasil para acompanhar a votação no primeiro turno da eleição geral. A missão é chefiada pelo ex-Secretário-Geral da OEA e ex-chanceler do Chile, José Miguel Insulza. Ao todo, serão mais de 90 observadores, de 23 países, acompanhamento em mais de 20 estados brasileiros, além do Distrito Federal. Os especialistas analisarão a organização logística do processo eleitoral, a implementação de recursos tecnológicos e as atividades da justiça eleitoral. A missão também vai observar as campanhas, os veículos de mídia e índices de violência. Durante a permanência no Brasil, integrantes da delegação da OEA se encontrarão com autoridades eleitorais e governamentais brasileiras, além de lideranças políticas e da sociedade civil.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.