Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
Em Minas

As idades das urnas

Em 2026, entre os cerca de 5,8 milhões de adolescentes de 16 e 17 anos do país 1,6 milhão – aproximadamente 28% – estão cadastrados junto à Justiça Eleitoral

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"Os primeiros quarenta anos de vida dão-nos o texto; os trinta seguintes fornecem o comentário." O filósofo alemão Arthur Schopenhauer utiliza a metáfora para explicar que a primeira metade da trajetória humana é dedicada à vivência direta das experiências e paixões, enquanto a segunda, destina-se a interpretá-las, compreendê-las e dar sentido a tudo o que aconteceu. Em sua obra “Parerga e Paralipomena”, uma coletânea de ensaios e reflexões filosóficas, Schopenhauer dedicou capítulo às “Idades da Vida”, detalhando essa transição psicológica, o esvaziamento das ilusões juvenis e a chegada a uma perspectiva realista e resignada.

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Schopenhauer argumenta que a juventude é marcada pelo sofrimento diante de intensa aspiração por felicidade, alimentada pela ilusão de que o mundo guarda algo de positivo a ser buscado incessantemente. Já na velhice, percebe-se que a felicidade plena é uma quimera e que o sofrimento é a verdadeira marca da existência; por causa disso, desiste-se da busca por gozos intensos para priorizar a ausência de perturbações, alcançando uma calmaria onde se valoriza o presente e as pequenas coisas.


Tal dinâmica existencial encontra alguma correspondência no comportamento político eleitoral. Não necessariamente na mesma segmentação etária imaginada por Schopenhauer. Mas teóricos do Ciclo de Vida (Life-Cycle Theory) analisam como o comportamento político, as atitudes e os níveis de participação dos indivíduos se transformam previsivelmente à medida que envelhecem e avançam pelas diferentes fases da existência. No Brasil, jovens de 16 e 17 anos que tiraram voluntariamente o título de eleitor registraram nas eleições municipais de 2024, os maiores índices de comparecimento às urnas em relação a todas as demais faixas etárias: 91,4% e 88,15%, respectivamente.


Em 2026, entre os cerca de 5,8 milhões de adolescentes de 16 e 17 anos do país 1,6 milhão – aproximadamente 28% – estão cadastrados junto à Justiça Eleitoral e em 4 de outubro, tendem a registrar igual alto comparecimento. Assim tem sido ao longo das últimas eleições. Em 2022, os mais baixos indicadores de abstenção ocorrem entre eleitores cadastrados de 16 anos e 17 anos, respectivamente 16,22% e 17,66% contra a média de 20,93% registrada no conjunto do eleitorado. Naquele pleito, entre eleitores de 18 anos, a abstenção atingiu o menor patamar entre todas as demais faixas: 13,62%.


No Brasil o voto é obrigatório para maiores de 18 anos e facultativo para os analfabetos, jovens de 16 e 17 anos e maiores de 70 anos. Nas eleições municipais de 2024, o comparecimento médio foi de 78,32%, uma participação declinante ao longo do tempo. Em 1989, primeira eleição direta após o inverno autoritário militar que se estendeu a partir do golpe de 1964, 88,07% dos eleitores brasileiros foram votar.


Da traumatizante experiência do impeachment de Fernando Collor de Mello ao pleito de 1994, registrou-se queda na participação para 75,16%. Entretanto, nas três eleições gerais que se seguiram em 1998, 2002 e 2006 a participação política eleitoral apresentou crescimento, nessa ordem com 78,51%, 82,26% e 83,25% de eleitores comparecendo para a votação. Com 81,88% do eleitorado registrando o voto no pleito de 2010, o comparecimento dos eleitores foi declinante nas eleições gerais que se seguiram: em 2014, 80,61%; em 2018, 79,67% e em 2022, 79,07%.


Para além do desalento e o cansaço do eleitor com a brutalização da política contemporânea, desdobramento da dinâmica dos algoritmos que regem a comunicação pública e a polarização nacional, uma outra variável também explica o provável aumento da abstenção nas eleições de 4 de outubro: o envelhecimento do eleitorado brasileiro ou, posto de forma mais poética, “as idades da vida”.


Nas eleições de 2022 e de 2024, o comparecimento às urnas apresentou um comportamento similar: foi alto entre 16 e 18 anos e, nas faixas de 19, 20 e de 21 a 23 anos foi decrescente. Mas a partir do grupo de eleitores de 25 a 29 anos até 60 a 64 anos a participação política eleitoral acompanhou o crescimento das faixas etárias, saindo de 77,55% até alcançar 87,33%. Entretanto, no grupo de eleitores de 65 a 69 anos o comparecimento declinou para 83,71%, caindo drasticamente para 61,02% entre eleitores de 70 a 74 anos e para 26,98% entre eleitores de 80 a 84 anos.


A população brasileira, em geral, envelhece como resultado da redução da natalidade e aumento da longevidade. O perfil do eleitorado acompanha e, com tal característica, também cresce a abstenção: entre 2010 e 2026, houve, proporcionalmente, redução de 22% dos eleitores de 16 a 24 anos e também em números absolutos de 24,7 milhões para 19,5 milhões. São hoje, no Brasil, 158,8 milhões de eleitores, 17% a mais do que em 2010. A queda do número de eleitores jovens foi acompanhada pelo aumento dos eleitores de 70 anos ou mais, que representam hoje mais de 17 milhões, cerca de 11% do eleitorado.

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É assim que o entusiasmo juvenil daqueles que aos 16, 17 e 18 sonham e acreditam que com o voto mudarão o país em seu favor, segue-se o arrefecimento que acompanha o ingresso na fase adulta e se prolonga até os 19 anos. Mas, a partir dos 30 aos 65 anos, em que os eleitores avançam para a maturidade, as raízes na comunidade se fixam e os eleitores passam a perceber o maior custo-benefício institucional, ou seja, o interesse direto pelas políticas públicas (como impostos, infraestrutura urbana, saúde e educação). Contudo, na velhice, ao voto facultativo e à fragilidade física soma-se a quietude da alma.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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