A Sombra de 1976 e a verdade sobre JK
No Brasil, três lideranças, que em outubro de 1966, exiladas, tentaram articular uma Frente Ampla pela reabertura democrática, morreram em intervalo de menos de dez meses
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Uma semana antes da morte de Juscelino Kubitschek, que ocorreu em 22 de agosto de 1976, Anna Christina Kubitschek estava no Rio de Janeiro, ao lado de sua mãe, Márcia Kubitschek (1943-2000), filha de JK, quando recebeu uma estranha notícia: o falecimento do ex-presidente em um acidente de carro. Naquele momento, a falsa informação pareceu à família um trote. Dias depois, foi publicada notícia assinalando que o ex-presidente poderia morrer em um acidente na via Dutra. A tragédia anunciada se concretizou. Por volta das 18h, o Opala em que estava JK, conduzido por seu motorista e amigo Geraldo Ribeiro, trafegava na altura do km 165 da via Dutra, em direção ao Rio de Janeiro. Subitamente desgovernado, o veículo atravessou o canteiro central, invadiu a pista oposta e se chocou de frente com uma carreta. JK e Ribeiro tiveram morte instantânea.
Leia Mais
O inquérito oficial conduzido à época, concluiu que se tratou de um acidente. Mas, pouco antes de se completar 50 anos da morte, demonstra-se que provas foram adulteradas e testemunhas manipuladas. Relatório aprovado em 29 de maio deste ano, pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), após reabrir as investigações sobre o caso em 2025, assinala: foram 37 fraudes na apuração, facilitadas pela chegada de militares ao local cerca de 20 minutos após o acidente. O documento foi relatado pela professora e historiadora Maria Cecília Adão. Os peritos do Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro que atuaram no caso também estiveram envolvidos em fraudes em outras investigações de mortes durante o período da ditadura. O documento contesta, com base em nova análise pericial, a versão oficial de que JK morreu em um acidente automobilístico. In dubio pro victima (na dúvida, a favor da vítima) – interpretação principiológica adotada no âmbito dos Direitos Humanos para reparação histórica – foi sustentado pela CEMDP para embasar a conclusão de que JK foi assassinado pela ditadura militar em um atentado em 1976, e não vítima de um acidente de carro.
Por décadas o caso JK assombra o imaginário brasileiro. O contexto explica. A partir do golpe de 1964, estrutura-se no país uma ditadura sobre um aparelho estatal que emprega a tortura como método de interrogatório e mata sem hesitação adversários do regime. A ditadura militar no Brasil não está isolada no continente. Entrelaça-se com outras de países-irmãos como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia que, com o apoio norte-americano, firmaram diversas parcerias, como para serviços de inteligência destinados a monitorar, sequestrar e por vezes eliminar adversários políticos em ações clandestinas. Tal cooperação ficou conhecida como a Operação Condor: aniquilou centenas de opositores a essas ditaduras, entre os quais Carlos Prats, general e ex-comandante-em-chefe do Exército Chileno durante o governo de Salvador Allende, vítima de um atentado a bomba em setembro de 1974, perpetrado em Buenos Aires pela DINA, polícia secreta chilena. Também Orlando Letelier, ex-ministro das Relações Exteriores e de Defesa do Chile no governo de Salvador Allende foi assassinado em 1976 em Washington. É uma longa lista.
No Brasil, três lideranças, que em outubro de 1966, exiladas, tentaram articular uma Frente Ampla pela reabertura democrática, morreram em intervalo de menos de dez meses. Primeiro foi JK, em agosto de 1976, aos 74 anos. Em 6 de dezembro, aos 57 anos, faleceu o ex-presidente da República João Belchior Marques Goulart (1918-1976), o Jango, em sua fazenda La Villa, no município argentino de Mercedes. A causa oficial registrada foi a de um infarto fulminante. Mas o caso, como o de JK, nunca foi pacificado. Em 2013, os restos mortais de Jango foram exumados a pedido da Comissão Nacional da Verdade, para apurar a suspeita de envenenamento. O laudo apresentado pela Polícia Federal teve resultado inconclusivo. Já em 21 de maio de 1977, foi a vez de Carlos Lacerda ter um ataque cardíaco. Ele foi um dos articuladores do golpe de 64. Depois arrependeu-se.
Em que circunstâncias morreu JK, prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), promotor da utopia modernista, deputado federal constituinte (1945-1946), governador de Minas Gerais (1951-1955), presidente do Brasil (1956-1961), construtor de Brasília, cultuado pelo otimismo daqueles “Anos Dourados”? JK também foi senador por Goiás (1962-1964), antes de ser cassado. Nas últimas décadas, diversas investigações buscaram elucidar por que o motorista perdeu o controle do Opala. Aquelas conduzidas pela ditadura concluíram que o Opala teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa ao tentar ultrapassá-lo. Tal veredito foi acompanhado pela comissão externa da Câmara dos Deputados em 2001 e pela Comissão da Verdade em 2014. Mas três outras comissões demonstraram que JK foi vítima de um atentado político. Foi o caso da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, da Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais e da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo. Esses trabalhos de pesquisa reuniram indícios de que o carro se desgovernou por alguma ação externa – sabotagem mecânica ou mesmo um tiro ou envenenamento do motorista.
A partir de novos elementos extraídos de um inquérito conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019, o caso JK foi reaberto em 2025 pela CEMDP, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). A peça chave dessa investigação foi a perícia conduzida pelo engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes, convidado pelo MPF para examinar laudos feitos em 1976 e 1996 pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), do Rio, que deram sustentação à tese oficial de colisão do ônibus com o Opala. Ejzenberg descartou tecnicamente os laudos anteriores e rejeitou a hipótese de que tenha havido uma colisão com o ônibus antes de o Opala se desgovernar. Neste cinquentenário da efeméride, Maria Cecília Adão assinala que um encontro com emissários do então presidente Ernesto Geisel em um hotel, teria sido o motivo para que JK decidisse fazer a viagem entre São Paulo e Rio de carro, e não de avião. A reunião teria sido usada para atrair o ex-presidente ao local, e o motorista de JK pode ter sido sedado e o veículo alterado mecanicamente.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“Tem uma discussão que é técnica, pericial, isso não envolve os historiadores”, afirma o historiador e professor da UFMG, Rodrigo Patto Sá Motta. “Ainda não há provas cabais, mas é boa hipótese de que JK tenha sido assassinado”, aponta, considerando que o popular ex-presidente teria sido uma personagem chave no processo de redemocratização, ao final protagonizado por Tancredo Neves. “Poderiam tê-lo matado? Sim, discretamente, como era o costume da ditadura brasileira. Fizeram vários episódios assim, de matança discreta, para não deixar provas. Não acho impossível que tenham feito isso”, avalia, considerando que compreender todo esse processo tem profundo impacto na elucidação do que foi a própria ditadura.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
