Busca da verdade sobre morte de JK deve pesar contexto político, diz neta
Neta de JK celebra reabertura da apuração sobre desastre que o matou. Família considera fundamental que o país enfrente passado com coragem e transparência
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Independentemente de relatórios e conclusões sobre a morte do mineiro Juscelino Kubitschek (1902-1976), a memória do ex-presidente, ex-governador e ex-prefeito deve ser enaltecida como a de um grande brasileiro, um homem que amou seu país e plantou as sementes de uma nação moderna. A certeza é de Serafim Jardim, de 90 anos, diamantinense conterrâneo de JK e admirador incondicional do fundador de Brasília. “Dos amigos mais antigos do presidente Juscelino, apenas eu estou vivo. Da família, mantenho contato com a filha Maria Estela Kubitschek e a neta Anna Cristina Kubitschek Barbará, filha de Márcia Kubitschek (1943-2000) e atual presidente do Memorial JK, em Brasília”, diz o diretor da Casa de JK, em Diamantina.
Cheio de histórias e saudade, Serafim mantém na biblioteca do espaço um retrato de JK, a óleo, pintado por Di Cavalcanti (1897-1976), que apresenta uma curiosidade. “A obra foi feita em 1952, quando ele ainda era governador de Minas. Mas já traz, no peito, a faixa de presidente da República, o que soa como premonição.” O quadro foi doado à instituição em 2001 pelos irmãos Walduck Wanderley e Saulo Wanderley e por Sinval de Moraes.
Serafim se recorda, com carinho, de dona Julia Kubitschek de Oliveira (1873-1971), mãe de JK, e dona Sarah (1908-1996), com quem o ex-presidente foi casado durante 45 anos. Logo após tomar conhecimento do parecer em análise pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que aponta um atentado como causa da morte de JK, ele conversou, por telefone, com Anna Cristina.
Em viagem ao exterior, a neta de Juscelino afirma que a reabertura do debate sobre a morte de Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil. “Os elementos reunidos ao longo dos anos indicam que o fato não pode ser analisado isoladamente do contexto político da época. Juscelino era uma das maiores lideranças civis do país, cassado pelo regime militar, perseguido politicamente e figura central da Frente Ampla em defesa da redemocratização. Em meio à repressão sistemática promovida na América do Sul, não é possível ignorar a hipótese de que ele tenha sido alvo de uma ação de Estado”, afirma Anna Cristina.
A família, que recebeu um ofício da CEMDP, considera fundamental que o Brasil enfrente sua história com coragem e transparência. “Caso a comissão conclua oficialmente que JK foi vítima de um atentado político, será um reconhecimento histórico necessário – não apenas para sua memória, mas para todas as vítimas da violência do Estado.”
INVESTIGAÇÃO
A Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos divulgou nota pública esclarecendo cinco pontos após a ampla repercussão sobre o caso. Em primeiro lugar, o pedido de reabertura da investigação do caso JK foi protocolado, logo após a reinstalação da CEMDP, por solicitação encaminhada pelo ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, Gilberto Natalini, e Ivo Patarra. Informa também que o pedido foi pautado na 2ª Reunião Ordinária em novembro de 2024, sendo, na ocasião, distribuído à relatora Maria Cecília Adão.
“Desde então, a relatora tem trabalhado de forma articulada com pesquisadores do tema a fim de oferecer um relatório, tendo comunicado aos familiares que o caso estava em análise. O relatório foi apresentado na 7ª Reunião Ordinária da CEMDP, em 1º de abril de 2026, para conhecimento e apreciação do colegiado. Diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações, deliberou-se que a votação ocorreria depois do contato com as famílias.”
A nota da comissão, datada de 8 de maio, reitera que o relatório se baseia em elementos que já eram públicos, como os coletados no âmbito de inquérito. “Os demais elementos, elaborados durante o trabalho da CEMDP, serão divulgados quando da conclusão da deliberação. A comissão reforça seu compromisso com o diálogo permanente com as famílias de vítimas de violência de Estado, que têm sido e serão sempre protagonistas na busca por memória, verdade e justiça.”
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O que é CEMDP
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi instituída por meio da Lei nº 9.140/1995, com o objetivo de proceder o reconhecimento de mortos e desaparecidos políticos e fazer esforços para a localização de corpos. É composta por sete membros designados pelo presidente da República, oriundos dos seguintes órgãos e entidades: Ministério da Defesa, Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Ministério Público Federal, pessoas com vínculo com familiares de mortos e desaparecidos políticos e representantes da sociedade civil. Cabe ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania dar suporte ao funcionamento da comissão. As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são votadas em reuniões e aprovadas por maioria simples, conforme previsto no regimento.