Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
Em Minas

A abstração do Estado e o despertador da eleição mineira

O alheamento do grosso do eleitorado mineiro em relação à sucessão mineira é um fenômeno evidente. As pré-campanhas se agitaram na definição e decapitação de candidaturas

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Diferentemente das campanhas à Presidência da República, que pela cristalização de opiniões junto a grupos expressivos de eleitores polarizados seguem em permanente mobilização, inclusive no período entre mandatos, a realidade das campanhas estaduais é muito diferente. No plano nacional, para cerca de 70% do eleitorado polarizado as opiniões pouco se mexem na avaliação positiva ou repúdio ao governo federal. Contudo, no plano estadual, a atenção do eleitorado aos governos é bem mais pulverizada e não necessariamente se alinha aos polos no plano nacional.

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No plano municipal, a proximidade com governos para a solução de problemas que estão do lado de fora da porta das casas produz eleitores também mais atentos às gestões municipais em relação às estaduais. O estado se apresenta, assim, como esse ente federado mais abstrato em relação ao governo federal, que concentra as definições de políticas econômicas e sociais abrangentes, e aos governos municipais.


O alheamento do grosso do eleitorado mineiro em relação à sucessão mineira é um fenômeno evidente. As pré-campanhas se agitaram na definição e decapitação de candidaturas. Passaram-se as convenções. As campanhas se iniciaram em 16 de agosto. E apesar do calendário que marca a distância de 45 dias do dia da votação, o grande público ainda não está prestando atenção na sucessão estadual. Para o meio político engalfinhado na disputa pelos nacos do poder, talvez isso não faça sentido. Já para o cidadão comum que precisa enfrentar a rotina de sobrevivência e resolver problemas às pencas com recursos limitados ...


Há um alarme que soa e canaliza a atenção do eleitorado para os nomes que se apresentam na disputa por cargos majoritários. No Brasil, ele se chama Horário Eleitoral Gratuito e se inicia em 28 de agosto. Para o eleitor mediano, ali se abre o “tempo da política”. Até por isso, o melhor marcador inicial das tendências de uma campanha tão pulverizada como a sucessão mineira será a primeira semana da propaganda política. É o pacote exibido em seus 9 minutos às segundas, quartas e sextas; e as inserções diárias de 14 minutos. A partir da primeira semana a evolução das intenções de voto e taxas de desconhecimento e de rejeição das candidaturas poderão apontar pistas em relação ao desenho do segundo turno com maior probabilidade de ocorrência.


A propaganda política opera como um detonador do ambiente informacional. Ainda que o eleitorado não assista na televisão e no rádio, tais peças circulam nas redes e são comentadas nas interações da rotina de vida. Ter mais tempo da propaganda é um ativo eleitoral. Mateus Simões (PSD) sai com 30,8% do tempo de antena; Patrus Ananias (PT) com 21,3%; Flávio Roscoe (PL) com 19%; Cleitinho (Republicanos) com 12,4%; Gabriel Azevedo (MDB) com 8,9%; e Alexandre Kalil (PDT) com 7,7%.


Os outros cinco candidatos terão participação periférica, de 5 segundos no Horário Eleitoral Gratuito e 8 segundos nas inserções diárias. Embora seja importante como canal de visibilidade, contudo, um maior quinhão da propaganda eleitoral nunca foi nem será uma garantia de vitória. Há, no meio do caminho, o carisma, a imagem, a trajetória dos candidatos e dos partidos políticos a que estão vinculados.


Amazônia profunda

O jornalista, líder sindical, aviador e escritor mineiro José Altino Machado lança nessa quinta-feira, 20, às 19h, na Livraria Leitura do BH Shopping, o livro “Os bundas doidas – Amazônia”. Publicada pela Baobá Edições, a obra reúne crônicas sobre disputas territoriais e conflitos entre garimpeiros, mineradoras e o Estado, e ainda o avanço do narcotráfico na região. O título do livro remete a um apelido dado por indígenas aos homens brancos. Aos 84 anos, o autor transforma décadas de convivência com garimpeiros, indígenas e caboclos em relato documental sobre a Amazônia profunda. José Altino foi fundador e dirigente da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal (Usagal).

Bonde

Sob o slogan “aprender e mudar as coisas”, nasce uma nova plataforma destinada ao conhecimento, à formação política e à promoção da ação coletiva em defesa de políticas públicas focadas em causas sociais e ambientais, capazes de promover mudanças. Tal é o propósito do site Bonde (antigo Nossas), uma comunidade online, baseada em cursos e ação política, conforme explica o diretor executivo Roberto Andrés, que é professor da Escola de Arquitetura da UFMG, com trajetória rica em mobilizações para intervenções urbanas, que miram a produção de cidades melhores para viver. A campanha da “Tarifa Zero” foi uma delas.

Krenak

O Bonde nasceu no Rio de Janeiro há 15 anos e hoje está presente em todo o território nacional, com estratégias e projetos de mobilização social para pautar a opinião pública e incidir sobre governos e tomadores de decisão, formando redes de ativismo por diversas causas. A plataforma funciona por assinatura e receberá cursos mensalmente. Estreou em julho com a aula inaugural ministrada pelo líder indígena e membro da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, no curso “Encarar o fim de mundos com coragem e rebeldia”. O evento reuniu mais de 4 mil pessoas ao vivo e inaugurou um leque de cursos que reunirá pesquisadores, ativistas, artistas e lideranças para debater temas como democracia, mudanças climáticas, comunicação, cidades e direitos humanos.

Saturação

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Roberto Andrés aponta para a saturação da internet e o cansaço das pessoas, ao final do dia, depois de horas no feed em busca de informações que se perdem em meio a outros temas distribuídos por algoritmos. “Iniciativas como o Bonde nascem ao redor do mundo para construção de comunidades em que as pessoas possam ter aprofundamento, trocas e criar vínculos”, explica ele. Entre os nomes já confirmados para os próximos cursos estão Alessandra Orofino, Marcos Nobre, Rita Von Hunty, Ynaê Lopes dos Santos, Angela Mendes, Sidarta Ribeiro, Txai Suruí, Schuma Schumaher, Dani Silva, Raul Santiago e Ed René Kivitz.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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