Com dificuldade de ampliar o campo de alianças ao Centrão e partidos de centro – Federação União Progressista, Republicanos e MDB se posicionaram pela neutralidade na sucessão presidencial – Flávio Bolsonaro (PL) não parece mais preocupado em fazer o jogo da moderação. Suspeições lançadas sobre as urnas eletrônicas à parte, velho hábito do ex-presidente Jair Bolsonaro, um dia chamado de “Trump dos trópicos”, Flávio abraça, em sua convenção, Javier Milei, esse presidente da Argentina que atravessa a fronteira, abandona a diplomacia, para se meter numa campanha política com um de seus principais parceiros comerciais. O Brasil absorve de 15% a 20% das exportações argentinas que, por seu turno, fica com 5% das exportações brasileiras.

Milei chamou o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca” e disparou contra o presidente Lula, em particular ataque às políticas sociais. Fala não como presidente da República. Rebaixa-se ao papel de militante. Votos no Brasil não tem. Na Argentina, ainda a conferir. Milei enfrenta a mais alta taxa de impopularidade de seu mandato, atingindo a marca de 60% de desaprovação. Apesar disso, se crê em condições de vir ao Brasil, para cuspir declarações grosseiras que soam como interferência na campanha eleitoral brasileira. No contexto em que o peso político do tarifaço de Donald Trump se inclina ao colo da família Bolsonaro, Flávio segue dando elementos para o discurso da defesa da soberania de Lula.

Milei em palanque da convenção do filho 01 agrada ao bolsonarismo raiz. Mas não seduz o eleitor não polarizado, que busca racionalidade na política. Não lhe agrada ver um presidente de fraldas, histriônico, exibindo-se num palco, mas antes, preferiria um presidente que lhe permita esquecer que há um governante no comando do país. Em contraste aos governantes exibicionistas, que demandam permanente atenção, e se respaldam em discursos ofensivos e tensionamentos com a sociedade, o governante ideal é aquele discreto. Aquele eleito que trabalha para que a máquina pública funcione sem que a população, já sobrecarregada com as próprias frustrações, problemas e dificuldades de sobrevivência, tenha de se preocupar com os humores e embates do poder. Diria o clássico pensamento chinês, expresso no Tao Te Ching, com frequência traduzido como “O livro do caminho e da virtude”, escrito entre 350 e 250 a.C., uma das mais conhecidas e importantes obras da literatura da China: “Dos melhores governantes, o povo mal sabe que eles existem (...) Quando a obra do bom governante é concluída e o trabalho está feito, o povo diz: 'Nós mesmos o fizemos'.”

A vida não anda boa para governantes de países democráticos, confrontados que estão pela tecnopolítica e a permanente mobilização, pelas mídias digitais, de grupos políticos que ressignificam e desconstroem políticas públicas, sejam do bem ou do mal. No caso brasileiro, as sucessivas pesquisas de intenção de voto apontam para o voto da exclusão: segundo o Datafolha, 46% rejeitam Lula e 48%, Flávio Bolsonaro. Portanto, são contingentes significativos de eleitores cansados de Lula, Jair Bolsonaro e de sua família. Ao mesmo tempo, são os dois polos que têm tração para alcançar o segundo turno. E ali, será pequena diferença. Contra Flávio Bolsonaro Lula tem estreita margem de vantagem que não lhe permite errar.

Os três candidatos de maior visibilidade que tentam se consolidar como terceira via enfrentam uma delicada operação estratégica: precisam bater em Flávio Bolsonaro para tentar cativar o eleitor independente e o eleitor da direita, sonhando em alcançar o segundo turno. Mas, ao mesmo tempo, a crítica não deve ter a contundência que impeça uma eventual reaproximação no segundo turno. Ronaldo Caiado (PSD), que orbitou o bolsonarismo nos primeiros anos do governo Lula 3, parece ter compreendido isso: vem marcando posição a uma distância segura de Flávio Bolsonaro e sua família, com apontamentos cirúrgicos que demarcam o seu posicionamento, sobretudo em defesa da soberania nacional. Ao se referir a Flávio, Caiado procura levantar dúvidas sobre a sua autonomia. Neste domingo, em que sua candidatura à Presidência foi ratificada em convenção do PSD, Caiado comparou Flávio Bolsonaro a um frango de granja: “Vocês já viram aqueles candidatos que na vida não conseguem se explicar e qualquer coisa chamam o papai. Vou ler uma carta dele”.


Nova rota

Com a clara sinalização do desembarque de Marcelo Aro (PP) do governo Mateus Simões (PSD) são esperadas exonerações da gestão municipal, nos próximos dias, dos quadros ligados ao ex-secretário de Estado de Governo. São cerca de 500 cargos comissionados.


O bilhão

Dos 853 municípios mineiros, 825 foram atendidos pelo ex-secretário Marcelo Aro (PP) com emendas que variam de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão, chegando a R$ 2 milhões, dependendo do número de eleitores. Nesse sentido, Aro comandou a execução de aproximadamente R$ 1 bilhão em recursos orçamentários. A cada canetada liberando as escolhas de prefeitos de um “cardápio” de opções, o pedido de apoio, senão para o primeiro voto ao segundo na corrida ao Senado. Entre apoiadores do governador Mateus Simões (PSD), uma das críticas à atuação de Aro é que, embora selasse compromisso dos prefeitos para apoiá-lo, não pedia o mesmo engajamento à candidatura de Mateus Simões.


Rapadura

Com as emendas parlamentares transformando deputados federais em unidades “orçamentárias” que irrigam as respectivas bases eleitorais, a Câmara dos Deputados deverá registrar o recorde de parlamentares na disputa pela reeleição em 2026: 448 dos 513 – 87,32% – deverão disputar novo mandato, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Em 2022, 86,93% dos deputados concorreram à reeleição. Nas disputas anteriores, os percentuais foram inferiores: 75,43% em 2018, 79,33% em 2014 e 86,16% em 2010.

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Convenção virtual

Em convenção virtual do diretório estadual do PT nesta segunda-feira, Patrus Ananias foi homologado candidato ao governo de Minas e Marília Campos ao Senado. O nome do vice na chapa de Patrus ainda não foi definido. Há conversas com o PSB, Rede e Psol, mas a coligação ainda não está fechada. O PT terá 39 candidaturas à Câmara dos Deputados e 56 para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. A convenção da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) será nesta sexta-feira.

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