Primeiro a elevar uma pirâmide em Gizé, por volta de 2.550 a.C., o faraó Quéops alçou a engenharia de seu tempo a um nível sem precedentes: tornou-se a estrutura mais alta do mundo por quase 4.000 anos. Legou à humanidade a certeza de que a vontade humana alinhada ao sagrado desafiaria o tempo. Concluída a obra, Quéops marcou a sua transição de rei terreno à divindade solar, fundindo-se a Rá. Gestão e política, em ato conjunto, deram ao faraó a imortalidade.

Quando Júlio César venceu a Batalha de Zela em 47 a.C.. derrotando Farnaces II, rei do Ponto e filho de um dos maiores inimigos de Roma, o lendário Mitrídates VI, mandou avisar ao Senado: “Veni, vidi, vici” (“Vim, vi e venci”). Ali, César marcava a sua superioridade intelectual e eficiência logística. Recuperou o controle dos territórios romanos no Oriente, depois de marchar do Egito através da Síria, numa breve campanha de cinco dias, em batalha que durou poucas horas. César introduziu na estratégia militar romana a perspectiva da celeritas (velocidade), que pelos séculos seguintes influenciaria generais de diferentes civilizações. Para além de territórios, a vitória de Zela consolidou o mito de um César de ações fulminantes, rápidas como o pensamento. Tornou-se imortal.

 

Homens públicos que miram a posteridade buscam fixar grandes feitos. Juscelino Kubitschek marcou um tempo no Brasil: “50 anos em 5”. Tornou-se o político brasileiro mais admirado da esquerda à direita, não obstante tenha sido cassado e exilado pela ditadura militar em 1964. De JK aos “novos” políticos que se construíram sob a era da tecnopolítica, a perspectiva de “feitos” se alterou dramaticamente. Não se trata mais de obras fundantes como a Cemig que propiciou a siderurgia em Minas, ou de edificar Brasília no coração do “nada”, para espalhar o desenvolvimento ao Centro-Oeste do país. Na era dos algoritmos, grandes narrativas e levas de seguidores talvez bastem. Não enchem barriga, mas têm boas chances de entorpecer juízos políticos. 

O governador Romeu Zema encerra neste domingo, 22 de março, sete anos e três meses de poder no estado. Não deixa grandes obras para chamar de suas. É um governo que supre as poucas entregas e obras estruturantes com estratégia comunicacional. O governador reeleito termina o segundo mandato, ao seu modo, buscando a imortalidade pela narrativa que se transformou em sua grande marca registrada: “Você preferiria que fosse Fernando Pimentel?” Ter colocado “salários em dia” e regularizado os repasses constitucionais às prefeituras seguem sendo o seu principal feito.

Sem o desastroso governo de Fernando Pimentel (PT), Zema não existiria. Por todos os motivos. Tendo feito uma bem-sucedida gestão à frente da Prefeitura de Belo Horizonte, Pimentel foi o “fel” que num contexto político e econômico adverso – para manter os pagamentos das parcelas da dívida de Minas com a União – deixou o estado mergulhado em inadimplências com os servidores, com os fornecedores e com as prefeituras.


Dívida bilionária

Ao mesmo tempo em que entregou o caos, Fernando Pimentel também deixou a saída: foi o seu governo que propôs a ação junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender o pagamento das parcelas da dívida de Minas com a União. Tal oportunidade beneficiou Zema desde o primeiro mês de governo, em janeiro de 2019. Mas, ao parar de pagar a União, houve a explosão da dívida pública mineira de R$ 114,69 bilhões para R$ 204,85 bilhões, em fevereiro de 2026. Desse montante, a dívida com a União, que em janeiro de 2019 era de R$ 88,8 bilhões, saltou para R$ 183,13 bilhões em fevereiro de 2026, um aumento de 106%. Com o ônus lançado sobre o colo do Tesouro Nacional – e sob a proteção do STF, que Zema costuma criticar – a liminar que suspendeu os pagamentos de Minas com a União foi renovada até agosto de 2025.

Romeu Zema não é dado a reconhecimentos. Mas também a solução para a saída da dívida estrutural de Minas Gerais com a União foi construída sobretudo por seus adversários políticos, que ele considera “inimigos”. O Programa de Pleno Pagamento da Dívida de Estados (Propag) nasceu no âmbito da Assembleia Legislativa, com grande respaldo político da bancada de oposição do PT e do PV, foi levado pelo presidente da Assembleia, Tadeu Leite (MDB) ao senador Rodrigo Pacheco (PSD), então presidente do Congresso Nacional. Ambos, em articulação com o presidente Lula (PT), viabilizaram a aprovação do Propag, matéria desenhada para beneficiar Minas Gerais, único estado com amplo volume de ativos para ofertar ao governo federal no ato da amortização. Se Minas Gerais continuasse sob a égide do Regime de Recuperação Fiscal (RRF), ao qual aderiu em 2024 pela intervenção do governo de Minas ao STF, em 30 anos teria pago à União R$ 200 bilhões a mais do que fará pela adesão ao programa.

Não foi fácil “convencer” o governo Zema de que o Propag de Rodrigo Pacheco sancionado por Lula era de longe a melhor alternativa disponível para o futuro do estado. Na carona do movimento político que o pressionou a aceitá-lo, Zema tentou privatizar a Cemig e a Copasa, duas velhas bandeiras de campanha. Conseguiu levar a primeira, não sem antes retirar do povo mineiro o direito constitucional do referendo, inserido por Itamar Franco em 2001 na Constituição do estado, como forma de proteger estatais que ele considerava estratégicas para o desenvolvimento mineiro. Atropelou não só a população, mas também municípios, não consultados previamente.

Além de problemas de infraestrutura – estradas destruídas e falta de um planejamento alternativo de mobilidade ferroviária para o futuro – Zema deixa em aberto situações graves com o funcionalismo, em particular as forças de segurança do estado, para as quais fez promessas de recomposição salarial nunca cumpridas. No contexto de um estado que já alcançou o limite prudencial de gastos com pessoal, se são certas as dificuldades para oferecer aumentos reais ao funcionalismo, o governo peca pelo motivo de sempre: faz política negando a política, desconsidera o outro lado, impõe, não constrói consensos. Por tudo isso, ao mesmo tempo em que fechou a porta para recompor perdas desse segmento, até hoje é mencionada a sanção, em 2023, da lei que aumentou o seu próprio salário, o do vice e de seus secretários em quase 300%, elevando vencimentos para R$ 41.845,49 mensais até 2025.

Para um estado com tantas problemas financeiros, segue igualmente inexplicável a falta de transparência defendida como “política de estado” para os benefícios fiscais concedidos a empresas, que quadruplicaram de R$ 6,1 bilhões em 2019 para a previsão R$ 25,2 bilhões em 2026. Em favor a cerca de sete mil empresas, no acumulado de dois mandatos, o governo Zema terá concedido mais de R$ 120 bilhões em renúncias fiscais mantidas sob sigilo, o equivalente a 58,6% da dívida pública mineira. Neste momento o Tribunal de Contas do Estado (TCE) monitora essas renúncias depois de identificar em auditorias diversas irregularidades, inclusive que o governo não tem indicadores de desempenho e sistema de monitoramento que subsidie as políticas de benefícios fiscais.

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Diz a história que, em 356 a.C. um ególatra em busca da fama incendiou o Tempo de Ártemis, em Éfeso, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Chamava-se Heróstrato. Longe de furtar-se à responsabilidade de seu ato, anunciou-o certo de que assim escreveria o seu nome na história. As autoridades não só mandaram executar Heróstrato como proibiram que jamais fosse mencionado. Pretendiam condená-lo à obscuridade. O historiador Teopompo divergiu: perpetuou o incendiário nos anais da história. Há muitas formas de gravar a posteridade. Mas há certas escolhas que apontam para a direção dos registros. Zema, que agora concorre à Presidência da República, deixa o governo de Minas com muitos problemas, pouca habilidade política, nenhuma ação de impacto e verve alguma de estadista. Quase oito anos depois, segue sendo o seu adversário político Fernando Pimentel também o seu melhor aliado.

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