Hoje o nosso pescoço, amanhã o vosso
Algoritmos projetam uma direita que gosta de brincar de revolucionária, sem entender que revoluções são como guerras: sabemos como começam mas não como terminam
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A Paz de Vestfália (1648) inaugurou a era moderna, pondo fim a duas grandes guerras que devastaram o continente europeu: a religiosa dos Trinta anos e a dos Oitenta anos (ou da Independência da Holanda). Além dos contornos do mapa da Europa, tal tratado definiu o princípio da liberdade religiosa, a ideia dos estados nacionais, da soberania e da diplomacia multilateral. Foi o ocaso do Sacro Império Romano Germânico e das ascensões da França e Suécia a potências. O que separa a velha ordem, que se desfaz, da nova ordem, que se constrói, são os conflitos brutais e toda sorte de bestialidades. Assim, acompanhamos hoje, pelo planeta, a evaporação da ordem inaugurada com fim da Segunda Guerra Mundial. O mundo bipolar que se seguiu durou menos de 50 anos. Partiu, faz tempo. O tecnofeudalismo de um lado; e as economias híbridas de prevalência pública, de outro, são os novos competidores da cena global.
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Como capitão da era tecnofeudal, Donald Trump luta internamente para levar os Estados Unidos à condição de superestado, – ou império – pela via da autocracia tecnológica. Tenta impor as regras da nova América ao se expandir pela América do Norte, Central, do Sul e Groenlândia. Do outro lado do mundo, duas civilizações que forjaram impérios trabalham para elevar o Oriente de periferia ao polo mais importante. Uma é potência nuclear; a outra, potência econômica. Jogam atraindo novos parceiros graças às trapalhadas de seu rival Ocidental.
2026 se abriu frenético. A ONU, pela boca de seu secretário-geral António Guterres, alertou para o colapso financeiro iminente. A morte geopolítica ocorreu há tempos, pela inércia diante de Gaza e do Sudão. Nada pode fazer e está de saída. Trump montou o seu próprio órgão Executivo para aquela faixa de terra mediterrânea, destinada a se transformar num resort de alto luxo.
Antes, capturou Nicolás Maduro e ameaça fazer algo similar no Irã. No plano interno, a sua atuação e das aliadas Sete Fantásticas atiçam o seu povo à distopia de “Guerra Civil” (2024). Se a queda do último rei nos EUA começou com a chamada festa do chá em Boston, em 1773, na onda atual coube a Minneapolis o pontapé com o protagonismo do movimento “no kings”. Quem vencerá a luta, não sabemos. Mas, os oposicionistas ganham terreno, a julgar pelas últimas eleições para prefeito e as manifestações de rua. De quebra, Black Panthers e alianças multirraciais ressurgem à cena, com a polarização daí decorrente.
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No plano externo, os velhos aliados Canadá e Reino Unido, depois França, se voltaram esta semana ao maior rival de Trump. Voaram a Pequim em busca de um novo tempo para as relações euroasiáticas. A Alemanha promete fazer o mesmo. Trump tenta revidar atraindo Putin, entregando-lhe a Ucrânia ou parte dela. Mas, o russo já tem o que queria e não vê a hora de encerrar a querela.
Em cenário tão incerto, o ouro dispara como reserva. O dólar declina. Dispara também a irritação dos cidadãos com a inflação e a insegurança sobre o futuro. Os norte-americanos assistem assustados à estagnação de suas apostas em moedas digitais do bitcoin, na casa de 80 a 90 mil dólares. Mas, nem tudo são flores para Putin e Xi. A Europa resiste a um acordo de paz na Ucrânia sem ganhar seu quinhão do bolo. Na China, Xi tem os seus problemas com o seu generalato. A incerteza é a nova normalidade na economia global; e na tecnopolítica, os algoritmos projetam uma direita que gosta de brincar de revolucionária, sem entender que revoluções são como guerras: sabemos como começam mas nunca como terminam.
O cidadão comum é a primeira vítima do ódio que ganha corpo. Os empresários brasileiros sabem bem disso e lutam para emplacar um candidato de centro moderado, distante de Jaires e Flávios. Mas, o predileto segue sob as asas do líder. A história tem sido cruel com quem acende as primeiras tochas da rebelião. O mito de Cronos devorando seus filhos parece implacável. Danton, um dos carismáticos líderes da Revolução Francesa, foi um deles e preveniu o seu algoz, Robespierre. Hoje será meu pescoço, amanhã... Os estados nacionais e suas soberanias que começaram com a Paz de Vestfália estão morrendo; e com ela, a vida estável. Hoje é o pescoço do povo, como em Gaza. Amanhã...
Faxina
Pré-candidato do MDB ao governo de Minas, Gabriel Azevedo parodiou Jânio Quadros quando, em Uberlândia, sentou-se para entrevista na cadeira da qual acabara de se levantar Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro. Gabriel Azevedo agarrou um pano e limpou o assento anunciando: "Nádegas indevidas se sentaram aqui. O povo mineiro está sendo enganado. Eduardo Cunha tentou ser deputado pelo Rio e por São Paulo. Agora quer usar
Minas". A entrevista foi dada ao
portal Regionalzão.
Desinfetante
Em 1986, depois de se eleger prefeito de São Paulo, Jânio Quadros desinfetou a cadeira do gabinete.
O gesto foi de desdém a Fernando Henrique Cardoso (FHC), com quem concorrera, que posou como candidato sentado à poltrona antes
da eleição.
Imagem
Eduardo Cunha mudou seu domicílio eleitoral para Belo Horizonte. Tentou se filiar ao PP, mas sofreu resistência do deputado federal Dimas Fabiano. No PL, também houve problemas: os parlamentares entenderam que ele traria desgaste à legenda. Eduardo Cunha foi uma das badaladas figuras da Lava-Jato. Está em liberdade, após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) revogar sua última ordem de prisão preventiva em abril de 2021.
Trampolim
A escolha de Eduardo Cunha por Minas é estratégica: quer reconstruir sua base política fora do Rio de Janeiro, onde sua filha, Daniele Cunha, já é deputada federal. Naquele estado, não há base para eleger dois da mesma família.
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Copasa
A Copasa convocou para 23 de fevereiro assembleia de acionistas para debater alterações no estatuto e avanço da privatização. A mudança estatutária cria "golden share" para o Governo de Minas, aprovada pelo conselho da empresa.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
