Bebel Soares
PADECENDO
A anatomia do abuso nas redes e o dever de proteger
O ambiente virtual atua como um catalisador dessas vulnerabilidades; plataformas de jogos e aplicativos de mensagens servem de "pontes de confiança"
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06/06/2026 02:00
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A internet, que prometia ser a ferramenta para a democratização do conhecimento, transformou-se, para milhões de jovens brasileiros, em um território de vulnerabilidade. Durante a celebração do Maio Laranja, campanha nacional brasileira de conscientização, prevenção e combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, foi divulgada a terceira fase do estudo "Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet", realizado pelo ChildFund, em parceria com o Instituto Tecnologia e Dignidade Humana.
Pela primeira vez, o levantamento longitudinal cruzou as perspectivas de vítimas e de perpetradores a fim de decifrar as dinâmicas do abuso sexual no ambiente digital brasileiro. O estudo aprofunda a compreensão sobre os mecanismos de ocorrência dessas violências no ambiente digital. Os dados quantitativos acumulados pelo estudo revelam a magnitude do problema: 54% dos adolescentes entrevistados no país (cerca de 9,2 milhões) relatam já terem sofrido violência sexual na internet, com as meninas apresentando um risco 8% maior.
O dado mais crítico, contudo, reside no desamparo institucional e educativo, visto que 94% dos jovens ignoram como denunciar ou proceder diante de tais ameaças. O ambiente virtual atua como um catalisador dessas vulnerabilidades; plataformas de jogos e aplicativos de mensagens (como WhatsApp e Telegram, que concentram 55% das interações com estranhos suspeitos) servem de "pontes de confiança".
Os agressores utilizam táticas de manipulação emocional e isolamento, explorando especialmente a madrugada, período de menor vigilância parental, para preencher vazios afetivos e silenciar as vítimas por meio da culpa e do medo.
As entrevistas com três perpetradores anônimos, com idades entre 25 e 56 anos, que atualmente estão cumprindo pena em regime fechado, realizadas com apoio do sistema de justiça e conduzidas em ambiente prisional, trouxeram padrões nas trajetórias dos agressores.
Entre os principais fatores identificados estão a exposição precoce à pornografia, muitas vezes antes dos dez anos, a ausência de diálogo familiar sobre sexualidade, históricos de violência doméstica e negligência emocional, além do uso intensivo de tecnologias digitais sem supervisão.
Segundo Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund, “a pesquisa quebra o mito de que alguém se torna abusador porque foi abusado na infância. Com essa frase, esse debate abre outros caminhos. Estamos diante de evidências de que o acesso precoce à pornografia pode gerar o abusador”.
A análise evidencia que o acesso infanto-juvenil desregulado a conteúdos adultos funciona como um vetor para a escalada de comportamentos abusivos na maturidade. Uma vez consumado o crime, o silêncio se consolida como um "produto social", alimentado pela rigidez familiar e pela ausência de canais de escuta acolhedores, empurrando as vítimas para o isolamento e estendendo sequelas psicológicas, como ansiedade e depressão, até a vida adulta.
Diante dessa realidade, o enfrentamento à violência sexual digital exige respostas coordenadas e urgentes. Embora o cenário legislativo tenha avançado significativamente com a recente entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que impõe severas obrigações de controle e moderação às empresas de tecnologia, as soluções puramente punitivas ou regulatórias são insuficientes.
O estudo do ChildFund deixa claro que a proteção infantojuvenil no século XXI depende de uma articulação entre o Estado, a sociedade civil, as escolas e as famílias. É imperativo substituir o tabu pelo diálogo preventivo, promover a educação digital e estruturar sistemas nacionais de dados unificados, assegurando que a internet deixe de ser um território de livre exploração para se tornar um espaço seguro de desenvolvimento. Para conferir o estudo na íntegra, acesse childfundbrasil.org.br/pesquisa-adolescentes/
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
