Coração de mãe de adolescente
"Estou em casa". O coração que já estava quase saindo pela boca voltou para o peito aliviado
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Era quinta-feira, meu filho deveria ter saído do colégio às 16h20 e chegado em casa minutos depois. Ele tem 16 anos, vai e volta a pé da escola. Nós usamos um aplicativo chamado Life 360 para saber a localização: ele sabe onde eu estou, eu sei onde ele está. É questão de segurança e é inegociável. O app tem que ficar ativo no celular o tempo todo. Naquele dia, ele não chegou em casa no horário de sempre, nem mandou mensagem para falar que ia se atrasar. Ele sumiu.
Já eram 19h30; o app mostrava a última localização, que era na escola, porém, constava que havia sido por volta das 18h. Depois disso, ele não atualizou mais. Isso acontece quando o celular está desligado. Estranhando a demora e a falta de comunicação, já tendo anoitecido, liguei para colégio. Foram ver se o localizavam e disseram que retornariam em seguida. Nada.
Começa a bater aquela ansiedade. Ligo novamente para o colégio: ninguém o viu. Tento me manter calma; ele deve ter ficado na escola conversando, ou no laboratório fazendo algum projeto e se esqueceu de avisar.
A ansiedade é uma reação natural. Ela nos permite antecipar riscos, nos prepara para desafios. A minha estava controlada, mas depois de mandar mensagem, ligar e não ter retorno de nada, foi me dando taquicardia. Já eram quase 20h e nenhum sinal de fumaça. Às 20h15 eu e meu marido fomos ao colégio, rodamos tudo. Perguntamos. Ninguém viu.
Tinha gente nas quadras jogando vôlei, me perguntaram se ele não poderia estar lá e eu disse: "Não, ele não é da turma dos atletas". Mas fui até as quadras verificar se ele não estaria assistindo a algum dos jogos, nunca se sabe. Não estava.
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Já comecei a pensar em quais providências deveria tomar. Primeiramente, iria mandar mensagem no grupo dos pais do 2º ano para saber se ele estava com algum colega, ou se alguém tinha alguma notícia dele.
Resolvemos voltar para casa. Antes de chegarmos no carro que estava estacionado na rua, chega uma mensagem no whatsapp: "Estou em casa". O coração que já estava quase saindo pela boca voltou para o peito aliviado. Enquanto nos dirigimos de casa para o colégio, ele saía do colégio e ia para casa.
A bateria do celular havia acabado e ele não conseguiu avisar que ia ficar na escola jogando vôlei. E eu jurando que não tinha a menor chance de ele praticar um esporte. Ele jogando despreocupado, sem pensar que os pais ficariam preocupados. E a mãe tendo um colapso, deixando o povo da escola doido!
Voltando para casa, no carro, eu pensando se ia brigar, dar sermão, ou simplesmente respirar aliviada por não ter sido nada demais. Subindo no elevador, já comecei a ouvir uma música; abro a porta de casa e lá está, som ligado alto, e ele dançando. Não teve briga, nem sermão - apenas me rendi e fui dançar com ele, que pediu desculpas pelo esquecimento.
Ele estava tão animado por ter feito amizades e ter sido convidado para jogar, que não tinha porque eu cortar a onda: melhor ficar feliz por ter sido só um susto e por ele estar feliz. A gente precisa escolher as brigas que quer comprar.
Faço palestras para pais de adolescentes e costumo dizer que adolescentes são como fios elétricos desencapados, prontos para entrar em curto circuito a qualquer momento. Um dia, eles estão ótimos; no outro estão odiando o mundo. Um dia eles estão cheios de assunto; no outro estão em um universo paralelo e não fazem nenhum contato com os adultos da casa.
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E nós, que somos os adultos da relação, temos que entender que o cérebro deles ainda está em formação e quem tem que saber se autorregular somos nós. O coração da mãe de adolescente que lute para sobreviver a essa fase.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
