André Murad
André Murad
Diretor-executivo da Clínica Personal Oncologia de Precisão de BH. Oncologista e oncogeneticista da OncoLavras.
ONCOSAÚDE

Entendendo a fadiga induzida por quimioterapia

Dor, má qualidade do sono, ansiedade, depressão, nutrição inadequada e redução da atividade física podem tornar a fadiga mais difícil de controlar

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A fadiga é um dos sintomas mais comuns durante o tratamento do câncer. Ela pode afetar muito mais do que apenas a energia física, dificultando a concentração, a manutenção de um estilo de vida ativo, o trabalho ou a realização das atividades cotidianas.

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Durante a quimioterapia, a fadiga pode se manifestar de formas diferentes em cada pessoa. Alguns pacientes notam uma leve queda na energia, enquanto outros sentem um esgotamento tão intenso que atividades normais se tornam difíceis. A fadiga também pode variar ao longo de um ciclo de quimioterapia, tornando-se mais acentuada em determinados momentos do tratamento.

É importante reconhecer a fadiga, pois os pacientes não devem sentir que precisam simplesmente ignorá-la ou forçar-se a superá-la. Vale a pena conversar com a equipe de tratamento sobre as alterações nos níveis de energia, especialmente quando a fadiga começa a interferir na vida cotidiana.

O que é a fadiga induzida pela quimioterapia?

A fadiga induzida pela quimioterapia é uma sensação persistente de esgotamento físico, emocional ou mental que pode ocorrer durante ou após o tratamento. Diferentemente do cansaço comum, ela pode ser muito mais intensa do que o esperado para o nível de atividade realizado e, frequentemente, não melhora totalmente com o descanso ou uma boa noite de sono. 

Os pacientes podem relatar sensação de fraqueza, esgotamento, peso no corpo ou simplesmente a incapacidade de realizar tantas atividades quanto de costume. A fadiga também pode dificultar a concentração, a manutenção da motivação ou a realização de tarefas diárias, como caminhar, preparar refeições, trabalhar ou cuidar de si mesmo. A fadiga pode melhorar após o término da quimioterapia, mas isso nem sempre acontece imediatamente. Para alguns pacientes, a energia retorna gradualmente nas semanas seguintes, enquanto outros podem continuar sentindo fadiga por mais tempo. 

Quais medicamentos quimioterápicos têm maior probabilidade de causar fadiga?

A fadiga pode ocorrer com muitos medicamentos quimioterápicos. A probabilidade e a intensidade dependem dos medicamentos utilizados, da dose e do esquema de tratamento, da administração combinada de vários fármacos e da resposta individual do paciente ao tratamento.  A quimioterapia à base de platina — incluindo cisplatina, carboplatina e oxaliplatina — tem sido associada à fadiga. Pesquisas também investigaram se a platina que permanece no organismo após o tratamento pode contribuir para a inflamação e a fadiga, embora seja improvável que essa seja a única explicação. 

A fadiga também é frequentemente relatada com o uso de taxanos, como paclitaxel e docetaxel; antraciclinas, como doxorrubicina e epirrubicina; e antimetabólitos, incluindo fluorouracila, capecitabina e gencitabina.

Quem corre maior risco de fadiga durante a quimioterapia?

Alguns pacientes têm maior probabilidade do que outros de apresentar fadiga significativa durante a quimioterapia. A anemia e a inflamação estão entre os fatores mais estudados. Em um estudo prospectivo com 608 pacientes submetidos à quimioterapia em regime ambulatorial, níveis mais baixos de hemoglobina e níveis mais elevados de proteína C-reativa (PCR) foram associados a uma fadiga mais intensa. 

A saúde física e emocional geral da pessoa também pode influenciar a fadiga. Dor, má qualidade do sono, ansiedade, depressão, nutrição inadequada e redução da atividade física podem tornar a fadiga mais difícil de controlar. Pacientes com pior estado funcional físico geral ou com uma carga de sintomas mais elevada também podem apresentar maior fadiga.

Como a fadiga induzida pela quimioterapia pode ser manejada?

O manejo da fadiga induzida pela quimioterapia geralmente começa pela investigação de problemas que possam estar agravando o quadro. Esses problemas podem incluir anemia, infecção, dor, distúrbios do sono, depressão ou ansiedade, problemas na tireoide, desidratação, má nutrição ou o uso de medicamentos que causam sonolência. Tratar um problema subjacente pode ajudar a melhorar os níveis de energia. 

A atividade física é uma das estratégias com maior comprovação científica para reduzir a fadiga relacionada ao câncer. Os exercícios devem ser adaptados às condições de saúde e às capacidades de cada paciente, não sendo necessária uma intensidade elevada. Caminhadas, atividades aeróbicas e exercícios de resistência podem ser benéficos, desde que realizados de forma segura e adequada. As diretrizes da ASCO e da SIO recomendam a prática de exercícios durante o tratamento do câncer para ajudar a reduzir a fadiga. 

Abordagens psicológicas e comportamentais também podem auxiliar. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) e programas baseados em mindfulness (atenção plena) demonstraram benefícios no manejo da fadiga relacionada ao câncer. Também é importante abordar problemas de sono, especialmente quando a má qualidade do sono ou a insônia contribuem para a exaustão diurna. 

Pequenas alterações na rotina diária podem facilitar o manejo da fadiga. Os pacientes podem planejar atividades mais exigentes para os períodos do dia em que geralmente dispõem de mais energia, fazer pausas quando necessário e equilibrar períodos de descanso com atividades. Manter uma ingestão adequada de alimentos e líquidos também é fundamental, sobretudo quando náuseas, vômitos ou falta de apetite dificultam a alimentação e a hidratação. 

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Medicamentos não são recomendados rotineiramente de forma específica para a fadiga relacionada ao câncer. As diretrizes atuais não recomendam o uso habitual de psicoestimulantes, como o metilfenidato, ou de medicamentos que promovem o estado de alerta, como o modafinil, para essa finalidade. Em pacientes selecionados com câncer avançado, os corticosteroides podem, por vezes, proporcionar benefícios a curto prazo. Quando a anemia contribui para a fadiga, o tratamento depende da causa, da gravidade e dos objetivos do tratamento oncológico.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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