André Murad
André Murad
Diretor-executivo da Clínica Personal Oncologia de Precisão de BH. Oncologista e oncogeneticista da OncoLavras.
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Pesticidas e os danos no microbioma intestinal - parte 2

Ao alterar o que as bactérias intestinais produzem, os pesticidas também podem influenciar a sinalização cerebral e as respostas imunológicas

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Os pesticidas parecem provocar não apenas alterações na população de micróbios, mas também mudanças em sua atividade. Em um amplo estudo publicado em 2025, por exemplo, pesquisadores expuseram 17 espécies bacterianas representativas do intestino humano a 18 pesticidas diferentes e detectaram alterações na produção microbiana de centenas de pequenas moléculas. Entre elas, ácidos graxos de cadeia curta, ácidos biliares e moléculas relacionadas ao triptofano — compostos que ajudam a manter a mucosa intestinal saudável, a regular a inflamação e a direcionar as respostas imunológicas.

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A maioria dos estudos se concentra no efeito dos pesticidas na composição da microbiota intestinal, mas este estudo mostra que os efeitos são muito maiores. A equipe também descobriu que algumas bactérias acumulam pesticidas em suas células, o que pode prolongar sua presença no corpo humano e aumentar o risco de efeitos na saúde a longo prazo.

Ao alterar o que as bactérias intestinais produzem, os pesticidas também podem influenciar a sinalização cerebral e as respostas imunológicas. Em estudos com animais, por exemplo, a exposição ao clorpirifós foi associada a comportamentos semelhantes à depressão, juntamente com alterações na microbiota intestinal. Não se trata de um único mecanismo. É uma rede de efeitos biológicos que pode, em última análise, interromper a comunicação ao longo do eixo intestino-cérebro. 

Os pesquisadores  alertam  que comprovar a causalidade é um dos maiores desafios da área. Mesmo estudos controlados com animais muitas vezes não conseguem determinar se as mudanças comportamentais são impulsionadas pela disrupção do microbioma ou pelos efeitos diretos dos pesticidas no cérebro, por exemplo. Alguns experimentos recentes estão começando a abordar essa lacuna. Em estudos com animais, a alteração do microbioma por si só, por exemplo, por meio do transplante de microbiota fecal, foi suficiente para mudar o comportamento, sugerindo que os micróbios intestinais desempenham um papel causal.

Ainda não está claro se os pesticidas podem ter um efeito semelhante em humanos. E, diferentemente dos animais em estudos de laboratório, os humanos são frequentemente expostos por anos a uma mistura de vários produtos químicos. Mesnage e seus colegas, por exemplo, analisaram a presença de resíduos de 186 pesticidas comuns na urina de 130 pessoas no Reino Unido.

Os resultados o surpreenderam: a equipe encontrou resíduos de inseticidas piretroides ou organofosforados em amostras de todos os participantes, com níveis mais altos em pessoas que relataram consumir mais frutas e verduras. (Pesticidas usados dentro de casa ou em animais de estimação também contribuem para a exposição, afirma Mesnage). Os pesquisadores também analisaram amostras de fezes e descobriram que níveis mais altos de resíduos de pesticidas na urina dos participantes estavam associados a alterações na composição e no metabolismo da microbiota intestinal.

No entanto, estudos de intervenção exigirão uma ligação conclusiva entre essas alterações na microbiota e os pesticidas. Por exemplo, as pessoas poderiam ser orientadas a consumir apenas produtos orgânicos, o que reduziria sua exposição, para verificar se e como isso altera sua microbiota intestinal.

Ainda não se sabe se a disrupção da microbiota intestinal induzida por pesticidas pode ser revertida. No momento, não temos uma solução simples ou universal, segundo os pesquisadores. Existe uma tendência a pensar que tomar um probiótico - uma mistura de bactérias intestinais benéficas — pode ajudar, mas o microbioma é moldado por muitos fatores e restaurar o equilíbrio raramente é simples.

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Por enquanto, a melhor abordagem é reduzir a exposição a pesticidas, como o uso de vestimentas adequadas e equipamentos de proteção durante a pulverização  das plantações.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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