André Murad
André Murad
Diretor-executivo da Clínica Personal Oncologia de Precisão de BH. Oncologista e oncogeneticista da OncoLavras.
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A nova era de vacinas para a prevenção do câncer

Pesquisadores enfrentam o difícil desafio de mensurar o sucesso sem esperar décadas para que pessoas saudáveis desenvolvam câncer

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Vacinas para prevenir câncer é um sonho antigo. Na realidade, já existem vacinas para prevenir certos tipos de câncer. Elas têm como alvo o vírus da hepatite B, que pode causar câncer de fígado; e o papilomavírus humano (HPV), que causa câncer cervical e alguns outros tipos de câncer.

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Mas a maioria dos cânceres não é causada por vírus. A ideia é introduzir no corpo fragmentos de proteínas ou antígenos de células cancerígenas para estimular o sistema imunológico a atacar quaisquer tumores incipientes. O conceito não é novo e tem enfrentado ceticismo. Há uma década, um editorial da revista Nature descartou a meta de um importante grupo de defesa do câncer de mama de desenvolver uma vacina preventiva até 2020 como "equivocada", em parte devido à complexidade genética dos tumores.

O editorial classificou a meta como um "objetivo que a ciência ainda não pode alcançar". Mas agora, algumas equipes — incluindo uma financiada pelo mesmo grupo de defesa, a National Breast Cancer Coalition (NBCC) — estão preparadas para testar vacinas preventivas, em alguns casos em pessoas saudáveis com alto risco genético para câncer de mama e outros tipos de câncer.

Esses esforços foram impulsionados por novas descobertas sobre as alterações genéticas em cânceres em estágio inicial, juntamente com o reconhecimento de que, como até mesmo tumores nascentes podem suprimir o sistema imunológico, as vacinas devem funcionar melhor em pessoas saudáveis que nunca tiveram câncer.

Pesquisadores estão testando diversas estratégias de vacinação. Algumas utilizam os chamados antígenos tumorais, marcadores moleculares escassos em células saudáveis, mas abundantes em células cancerígenas. A vacina para portadores da síndrome hereditária de predisposição a câncer denominada de síndrome de Lynch (a qual predispõe principalmente a cânceres de intestino e endométrio), por sua vez, tem como alvo os “neoantígenos”, um tipo potente de antígeno encontrado apenas em células tumorais.

Algumas utilizam apenas um único antígeno, enquanto outras usam um grande número, na tentativa de oferecer ampla proteção contra o câncer. A melhor abordagem ainda não está clara, e os desenvolvedores e pesquisadores também enfrentam o difícil desafio de mensurar o sucesso sem esperar décadas para que pessoas saudáveis desenvolvam câncer.

Os primeiros testes estão revelando indícios promissores. Se a ideia funcionar para prevenir um ou alguns tipos de câncer, ela poderá ser expandida para atingir uma meta ambiciosa sugerida pelo presidente Joe Biden: desenvolver uma vacina que possa prevenir muitos tipos de câncer, inspirada nas vacinas de RNA mensageiro (mRNA), que ajudaram a combater a pandemia da COVID-19.

Os esforços para utilizar o sistema imunológico no combate ao câncer têm uma longa história. Na década de 1890, o médico William Coley relatou que injeções de toxinas bacterianas — uma espécie de vacina — às vezes reduziam os tumores dos pacientes, aparentemente estimulando o sistema imunológico. Décadas depois, pesquisadores descobriram que células imunológicas (T) podiam reconhecer antígenos tumorais como estranhos e atacar o câncer. Essa descoberta levou a duas classes de terapias aprovadas: medicamentos que removem os freios moleculares das células T, e células T geneticamente modificadas para atacar células cancerígenas. Ambos os tipos de tratamento têm apresentado sucesso notável contra certos tipos de câncer.

Um terceiro tipo de imunoterapia, as vacinas para tratar o câncer, ficou para trás. Os esforços ganharam impulso no início da década de 1990, quando pesquisadores começaram a identificar dezenas de antígenos tumorais que poderiam estimular as defesas imunológicas de um paciente. Frequentemente, esses antígenos são proteínas que as células cancerígenas usam para crescer ou se espalhar, sendo, portanto, bons marcadores de células cancerígenas.

Mas, apesar dos dados promissores de experimentos com animais, a maioria das vacinas para tratamento não conseguiu interromper o crescimento tumoral em humanos. A quimioterapia ou outros tratamentos agressivos também enfraquecem a resposta imunológica dos pacientes, e os tumores são protegidos por seu “microambiente” — células e moléculas circundantes que suprimem as células T citotóxicas e as impedem de entrar nos tumores.

Alguns cientistas acreditavam que as vacinas contra o câncer poderiam ser mais eficazes na prevenção do que no tratamento da doença. Uma defensora dessa ideia foi Olivera Finn, imunologista do câncer da Universidade de Pittsburgh, cuja equipe descobriu, em 1989, o primeiro antígeno associado a tumores: uma variante da MUC1, uma proteína de superfície celular rica em açúcares. Essa variante alterada está presente em diversos tipos de células cancerígenas.

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Finn desenvolveu uma vacina composta por pequenos trechos de MUC1. O sucesso modesto do ensaio clínico levou a um estudo maior, controlado por placebo, para verificar se a vacina prevenia o surgimento de novos pólipos em pessoas que já haviam sido submetidas à remoção dos mesmos. Entre os 11 pacientes que responderam ao tratamento de um total de 53, apenas três apresentaram recorrência de pólipos dentro de um ano após receberem a vacina, em comparação com 31 dos 47 participantes do grupo placebo. A equipe de Finn agora planeja testes clínicos da vacina MUC1 para diversas condições pré-cancerígenas.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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