ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
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A realidade não negocia

Ninguém gosta de se decepcionar. Mas algumas mudanças da nossa vida começam exatamente depois de uma decepção

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Diante da realidade não há negociação. Podemos questionar, resistir, desejar que fosse diferente, procurar explicações e levar algum tempo até conseguir reconhecê-la. Nada disso modifica o fato que se apresenta.

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Pode parecer uma afirmação dura. Nem sempre estamos preparados para aquilo que descobrimos. Uma informação pode mudar o que pensávamos sobre uma pessoa, uma relação, um trabalho, uma escolha ou até sobre uma história que acreditávamos conhecer. Há fatos que chegam sem que tivéssemos qualquer conhecimento anterior sobre eles. Outros confirmam percepções que já estavam presentes, mas que ainda tentávamos compreender.

A realidade pode doer. Mas também liberta.

Ninguém gosta de se decepcionar. Mas algumas mudanças da nossa vida começam exatamente depois de uma decepção. Enquanto você acredita, você fica. Enquanto ainda espera, você tolera. Enquanto consegue justificar, continua insistindo. Até que alguma coisa acontece e uma realidade que você desconhecia se apresenta.

E aí dói. Porque você não perde apenas aquilo que tinha. Você perde também aquilo que imaginou que teria: a relação que projetou, o reconhecimento que esperava, o futuro que começou a construir, a confiança que depositou em alguém ou em alguma escolha.

Nesse momento, a decepção possibilita um movimento: um novo posicionamento diante da realidade que agora se apresenta. A realidade nos posiciona. Ela não determina o que devemos fazer nem escolhe por nós. Podemos permanecer, sair, conversar, esperar, estabelecer um limite ou mudar de direção. A escolha continua sendo nossa. O que muda é que passamos a escolher incluindo uma informação que antes desconhecíamos ou compreendíamos de outra maneira.

Realidade e interpretação, portanto, precisam ocupar lugares diferentes. Os fatos não mudam porque gostaríamos que tivessem sido outros. Mas a maneira como uma experiência ficou registrada em nós não corresponde apenas ao fato. Ela carrega emoções, expectativas, medos, desejos e os recursos que tínhamos naquele momento para compreender o que vivíamos.

Duas pessoas podem participar da mesma situação e construir compreensões diferentes sobre ela. Existe o que aconteceu e existe a maneira como cada uma viveu e interpretou o acontecimento.

Essa distinção permite olhar também para o passado de outra forma. Ressignificar uma experiência não é alterar os fatos nem construir uma versão mais confortável da história. É reconhecer que algo vivido e interpretado de determinada maneira no passado pode ser compreendido de outra forma hoje. Com outros recursos, informações e perspectivas, podemos rever interpretações e compreender as emoções que fizeram parte daquele momento.

Não mudamos o que aconteceu. Mudamos a relação que mantemos com o que aconteceu. O fato permanece, mas o significado que ele assume em nossa história pode mudar. Essa nova compreensão não apaga a realidade. Reconhecer o que aconteceu faz parte do processo de dar novos significados ao vivido.

É nesse reconhecimento daquilo que não podemos mudar que a aceitação da realidade encontra seu lugar.

Marsha Linehan, criadora da Terapia Comportamental Dialética, trabalha essa questão por meio do conceito de aceitação radical. Entre os princípios que apresenta, dois dialogam diretamente com essa reflexão: aceitar é reconhecer aquilo que é; e aceitar alguma coisa não significa julgá-la como boa.

Costumamos associar aceitação a concordância, aprovação ou conformismo. Mas posso reconhecer que uma relação terminou sem desejar que tivesse terminado. Posso admitir que alguém não corresponde ao que eu imaginava sem considerar aceitável a maneira como agiu. Posso reconhecer uma perda, uma injustiça ou uma frustração sem dizer que aquilo foi bom.

Aceitar não retira a dor do acontecimento. Retira a necessidade de continuar exigindo que o fato seja diferente para que possamos seguir.

A realidade também liberta. Enquanto não sabemos ou acreditamos em outra possibilidade, nossas escolhas são feitas a partir das informações, expectativas e interpretações que temos. Quando algo se revela, esse cenário muda. Pode não ser o que gostaríamos de descobrir, mas agora existe algo que sabemos e que passa a fazer parte das nossas escolhas.

Algumas decepções simplesmente machucam. Não precisam ser chamadas de aprendizado, livramento ou oportunidade para que encontremos algum sentido nelas. Outras modificam profundamente o lugar de onde passamos a olhar para uma situação.

Depois que sabemos, podemos até escolher permanecer. Mas já não permanecemos a partir do mesmo lugar.

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A realidade não apaga a dor nem decide o que faremos com ela. Ela encerra uma negociação que acontecia dentro de nós. E, quando já não precisamos sustentar aquilo que imaginávamos diante daquilo que agora sabemos, podemos escolher a partir do que é.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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