O vazio que nos move
O vazio não surge apenas diante das perdas ou das mudanças. Ele também pode aparecer depois de grandes conquistas
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Em algum momento da vida, quase todas as pessoas experimentam uma sensação difícil de explicar. Não necessariamente tristeza, depressão ou sofrimento intenso. É mais como uma inquietação silenciosa, uma sensação de que algo falta, mesmo quando aparentemente está tudo bem. No consultório, ela costuma aparecer em frases como: "Tenho uma vida boa, mas parece que falta alguma coisa", "Não sei exatamente o que estou procurando" ou "Perdi o entusiasmo pelas coisas".
Chamamos essa experiência de vazio existencial.
- Quando a infância vira responsabilidade
- Você sabe muito. E mesmo assim não sai do lugar?
- Como você reage a imprevistos?
Ao ouvir essa expressão, muitas pessoas a associam imediatamente a algo negativo, como se fosse um problema a ser eliminado. No entanto, a psicologia, a filosofia e diversas correntes do desenvolvimento humano sugerem uma compreensão mais ampla. O vazio não é necessariamente um sinal de fracasso ou de que existe algo errado conosco. Em muitos momentos, ele faz parte da própria condição humana.
O psiquiatra Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, observou que uma das necessidades fundamentais do ser humano é encontrar sentido para a própria existência. Segundo ele, quando perdemos a conexão com aquilo que dá sentido à vida, podemos experimentar o chamado vazio existencial. Para Frankl, não somos movidos apenas pela busca de prazer ou poder, mas pela busca de sentido. Quando não conseguimos enxergar propósito no que fazemos, nos relacionamentos que construímos ou na direção que estamos seguindo, surge uma sensação de vazio que nos convida a questionar e reavaliar a vida.
Carl Jung também trouxe importantes contribuições para essa reflexão. Embora não tenha utilizado diretamente o termo vazio existencial, observou que muitos sofrimentos surgem quando nos afastamos de quem realmente somos. Ao longo da vida, construímos identidades, assumimos papéis e atendemos expectativas familiares, profissionais e sociais. Muitas vezes fazemos tudo o que acreditamos que deveríamos fazer. Ainda assim, chega um momento em que surge uma sensação difícil de explicar: “Está tudo bem, mas falta algo”.
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Não por acaso, o vazio aparece com frequência em momentos de transição. A saída dos filhos de casa, uma mudança de carreira, a aposentadoria ou o fim de um relacionamento costumam despertar questionamentos profundos. Muitas vezes, o que sustentava nossa rotina, nossas escolhas e até parte da nossa identidade deixa de ocupar o mesmo lugar. O que antes oferecia direção já não produz o mesmo entusiasmo. O ciclo anterior se encerrou, mas o próximo ainda não está completamente claro.
O vazio, porém, não surge apenas diante das perdas ou das mudanças. Ele também pode aparecer depois de grandes conquistas.
Muitas pessoas passam anos acreditando que determinado objetivo trará uma sensação definitiva de realização: a promoção tão esperada, a estabilidade financeira, a formatura, a casa própria ou qualquer outra meta importante. Quando finalmente alcançam aquilo que desejavam, experimentam satisfação, orgulho e alegria.
Mas, algum tempo depois, uma nova inquietação surge. Não porque a conquista tenha perdido valor. Ela continua sendo importante e merece ser celebrada. O que acontece é que algumas realizações encerram etapas, mas não encerram as perguntas que carregamos dentro de nós: Quem sou eu além dessa conquista? O que realmente me move? O que faz sentido para mim agora?
A psicologia positiva também oferece uma contribuição valiosa para essa compreensão. Martin Seligman, um dos principais pesquisadores do bem-estar humano, identificou que o florescimento humano envolve diferentes dimensões. Entre elas está a percepção de propósito e sentido, considerada um dos pilares fundamentais do bem-estar. Por isso, a busca por significado acompanha a experiência humana em diferentes fases da vida.
Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade que estimula o preenchimento constante dos espaços. Quando surge um silêncio, pegamos o celular. Quando aparece um desconforto, buscamos distrações. Quando sentimos inquietação, tentamos rapidamente encontrar uma resposta. No entanto, nem todo vazio precisa ser preenchido imediatamente.
Algumas perguntas exigem tempo. Algumas respostas amadurecem lentamente. Alguns sentidos são construídos ao longo do caminho.
O filósofo Byung-Chul Han observa que vivemos em uma cultura marcada pelo excesso de estímulos, produtividade e desempenho. Talvez por isso tenhamos nos tornado menos tolerantes aos espaços de pausa e reflexão. Mas é justamente nesses espaços que muitas vezes surgem as respostas para os questionamentos mais importantes da vida.
O vazio se torna um problema quando tentamos ignorá-lo ou preenchê-lo apenas com soluções externas. Porém, quando escutado com atenção, ele pode ser um sinal. Pode revelar necessidades esquecidas, valores negligenciados, sonhos adiados ou caminhos que já não fazem sentido.
Isso não significa romantizar o sofrimento. Quando o vazio vem acompanhado de desesperança persistente, perda de interesse pela vida ou sofrimento emocional intenso, é fundamental buscar ajuda profissional. Existe uma diferença entre o vazio que paralisa e o vazio que desperta.
O vazio existencial não é uma ausência. É o espaço fértil entre o que já não somos e aquilo que ainda estamos nos tornando.
Muitas vezes, é justamente esse vazio que nos move na direção de uma vida com mais autenticidade, sentido e presença.
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Como dizia Carl Jung: "Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta."
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
