Enem 2026: cobrança silenciosa dos pais pode prejudicar desempenho
Psicóloga alerta que comparações, expectativas e até o excesso de cuidado podem aumentar a ansiedade dos estudantes
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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 acontece neste domingo (8). Na reta final, além da revisão dos conteúdos, os estudantes precisam lidar com a ansiedade, o medo de não alcançar a nota desejada e, muitas vezes, com uma pressão que não é expressa em palavras. Dentro de casa, suspiros, olhares de preocupação e perguntas aparentemente inofensivas podem transmitir uma cobrança silenciosa capaz de interferir no desempenho dos candidatos.
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De acordo com a psicóloga Fernanda Fusco, que atua no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, os jovens percebem as expectativas dos pais mesmo quando elas não são verbalizadas. Em alguns casos, essa pressão indireta pode ser mais difícil de administrar do que uma cobrança explícita.
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"O adolescente lê o ambiente com muita precisão. A cobrança chega pelo suspiro diante de um simulado ruim, pela pergunta diária 'estudou hoje?' e pela comparação com o primo que passou", explica.
Segundo a profissional, até o excesso de cuidado pode produzir um efeito indesejado. Quando toda a dinâmica da casa gira em torno do Enem, o adolescente pode interpretar que a família está fazendo sacrifícios por ele e que, por isso, não pode fracassar. "Essa cobrança invisível costuma pesar mais que a explícita, porque não há como respondê-la nem negociá-la", afirma.
Medo de decepcionar pode provocar o temido "branco"
A pressão emocional pode ter consequências justamente quando o estudante precisa demonstrar o conhecimento adquirido. O receio de decepcionar os pais pode comprometer a concentração, a interpretação das questões e a capacidade de recuperar informações.
"A prova deixa de ser uma avaliação e passa a ser vivida como ameaça. O corpo entra em alerta e a mente se ocupa de pensamentos como 'e se eu for mal?'. Sobra menos espaço para interpretar, calcular e lembrar o conteúdo", explica Fernanda.
É nesse contexto que pode surgir o conhecido "branco", quando o candidato tem dificuldade para acessar informações que estudou. Segundo a psicóloga, o jovem pode ficar preso a uma questão, reler o enunciado repetidamente ou responder com pressa, cometendo erros por desatenção.
Embora um nível moderado de tensão possa ajudar a manter o foco, o medo excessivo de frustrar as expectativas familiares tende a prejudicar o rendimento.
Quando o incentivo se transforma em pressão?
Na tentativa de motivar os filhos, muitos pais recorrem a frases que podem aumentar o peso emocional do exame. Expressões como "faça valer a pena" ou "estamos confiando em você" podem ser interpretadas como uma obrigação de apresentar bons resultados.
Para a psicóloga, o incentivo se transforma em pressão quando o foco deixa de ser o adolescente e passa a ser exclusivamente o desempenho.
A orientação é evitar comparações, comentários sobre o investimento financeiro feito na preparação e perguntas repetitivas sobre os estudos. Frases como "isso vai definir sua vida" ou "é só não ficar nervoso" também devem ser evitadas. No lugar dessas cobranças, a profissional sugere uma mensagem capaz de transmitir segurança: "Você não precisa provar nada para nós."
Atenção aos filhos que nunca deram trabalho
Os adolescentes mais vulneráveis à pressão nem sempre são aqueles que demonstram nervosismo. Jovens perfeccionistas, autocríticos ou que associam o próprio valor ao desempenho escolar podem sofrer intensamente diante da possibilidade de um resultado abaixo do esperado.
"Muitas vezes é o filho que nunca deu trabalho", observa Fernanda, ao falar sobre os perfis mais suscetíveis.
Entre os sinais de alerta estão alterações no sono e no apetite, dores frequentes de cabeça ou barriga, irritabilidade, isolamento, choro fácil e culpa ao descansar. Crises de ansiedade e falas de desvalorização pessoal, como "eu sou burro", também merecem atenção. Nessas situações, ela ressalta que o cuidado com a saúde emocional deve ser prioridade, sendo importante buscar ajuda profissional.
Como ajudar sem aumentar a ansiedade?
Com a primeira prova, a recomendação é preservar a rotina familiar. Isso inclui manter horários de sono, refeições habituais e momentos de lazer, sem fazer o adolescente se sentir culpado por descansar.
"Adultos calmos acalmam. Se os pais estão angustiados, devem dividir isso com outro adulto, não com o filho", orienta Fernanda. Ela também recomenda evitar revisões intensas de última hora, conversar sobre assuntos que não envolvam o exame e escutar mais do que aconselhar quando o jovem quiser falar sobre seus receios.
Outra forma de ajudar é cuidar antecipadamente de questões práticas, como documentos, transporte e localização do prédio onde será aplicada a prova. Assim, a família oferece suporte sem transformar a preocupação em mais uma fonte de tensão.
E depois da prova?
O cuidado dos pais também é importante após o exame, especialmente se o estudante voltar frustrado ou chorando. A orientação é acolher, sem cobrar resultados ou conferir o gabarito imediatamente. "Primeiro acolher; a conversa fica para depois. Nada de conferir gabarito ou perguntar quantas questões acertou. Um abraço e a presença já dizem muito."
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A psicóloga recomenda reconhecer o esforço do adolescente, evitando críticas, comparações ou demonstrações de decepção. "O Enem é uma etapa, não uma sentença. A família que sustenta essa visão ensina o filho a atravessar frustrações pela vida inteira."