A adolescência é tempo de transformações. O corpo muda, a imagem de si é reconstruída, os vínculos ganham novos significados e surge, muitas vezes, uma necessidade intensa de pertencer. É também nesse período que podem surgir, ou se intensificar, os transtornos alimentares, condições que não devem ser reduzidas a uma simples preocupação com o peso ou à busca por um determinado padrão de beleza.
Anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno da compulsão alimentar e outros transtornos relacionados à alimentação podem comprometer seriamente a saúde física e emocional. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esses transtornos aparecem com frequência na adolescência e no início da vida adulta e podem coexistir com ansiedade, depressão e outros sofrimentos psíquicos.
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Mas, para além da classificação diagnóstica, é importante perguntar: o que está sendo dito através do corpo e da relação com a comida? “O sintoma não é simplesmente um comportamento a ser eliminado. Ele pode ser compreendido como uma forma de expressão de um conflito que o sujeito ainda não consegue colocar em palavras. Isso não significa afirmar que todo transtorno alimentar tenha uma única causa ou que possa ser explicado exclusivamente pela dinâmica familiar ou pelo mundo interno do adolescente”, afirma a psicanalista Renata Bento, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e Perita ad hoc do TJ/RJ.
Para Renata Bento são condições complexas, atravessadas por fatores biológicos, psicológicos, familiares, sociais e culturais. "A comida, nesse contexto, pode adquirir significados que ultrapassam a necessidade de alimentação. Recusar, controlar, esconder, devorar ou eliminar aquilo que foi ingerido pode se transformar em uma maneira de tentar lidar com angústias, conflitos, sentimentos de inadequação ou com a sensação de perda de controle”, reforça.
A adolescência, por si só, envolve uma experiência delicada: é preciso construir uma identidade ao mesmo tempo em que o corpo se transforma sem pedir licença. O adolescente deixa de ser criança, mas ainda está construindo recursos psíquicos para ocupar esse novo lugar. A pergunta “quem sou eu?” pode aparecer acompanhada de outra, muitas vezes silenciosa: “como devo ser para ser aceito?”.
A pressão estética contemporânea merece atenção. Redes sociais, comentários sobre corpos, comparações entre pares e discursos aparentemente inocentes sobre dietas e “corpos ideais” podem contribuir para uma relação mais rígida e angustiada com a própria imagem. A OMS destaca justamente a influência das mídias e das normas sociais sobre a percepção que os adolescentes constroem de si mesmos.
Renata Bento explica que, entretanto, é fundamental evitar uma explicação simplista: as redes sociais não causam sozinhas um transtorno alimentar. Elas podem funcionar como um elemento de pressão ou vulnerabilidade dentro de uma história subjetiva muito mais ampla. “Também é preciso abandonar a ideia de que transtorno alimentar tem um único rosto. Nem sempre existe uma aparência física que permita identificá-lo”, ressalta.
Adolescentes de diferentes corpos podem apresentar esses transtornos, e meninos também podem ser afetados, embora ainda exista o equívoco de considerá-los predominantemente femininos, o que pode atrasar o reconhecimento e o tratamento.
Por isso, mudanças persistentes na alimentação, isolamento durante as refeições, preocupação excessiva com peso e aparência, exercício compulsivo, episódios de compulsão, comportamentos de compensação ou sofrimento intenso diante da comida merecem atenção.
O diagnóstico, naturalmente, cabe a profissionais capacitados, e o tratamento pode exigir uma equipe multidisciplinar, especialmente quando há risco para a saúde física. Mas talvez exista algo ainda mais importante para pais, educadores e profissionais: escutar antes de julgar.
A psicanalista explica que falar para um adolescente “é só comer”, “você está muito magro”, “você precisa se controlar” ou “isso é apenas uma fase” pode aumentar a vergonha e o isolamento. “O sofrimento não desaparece porque o adulto não o compreende. Muitas vezes, ele apenas se torna mais silencioso”, pontua.
Não se trata de romantizar o sintoma, muito menos de substituir os cuidados médicos e nutricionais necessários. Trata-se de reconhecer que existe um sujeito por trás do comportamento alimentar e que seu sofrimento precisa ser levado a sério.
Nesse caso, a pergunta mais importante não é apenas “o que esse adolescente está comendo?”, mas também: “o que está acontecendo com esse adolescente?”
“Quando conseguimos fazer essa pergunta, deixamos de olhar apenas para o corpo que preocupa e começamos a enxergar a pessoa que pede, ainda que de maneira silenciosa, para ser escutada”, aponta Renata Bento.
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