Descobrir “gordura no fígado” durante um ultrassom é um achado frequente, mas os números dimensionam a seriedade do problema. Uma meta-análise publicada em 2025, que avaliou mais de 11 milhões de pessoas, estimou em 37,5% a prevalência global de doença hepática esteatótica.

Entre pessoas com diabetes tipo 2, o índice sobe para 70,2%, enquanto em indivíduos com sobrepeso ou obesidade, chega a 70,7%. Conhecida como esteatose, a condição pode permanecer silenciosa por anos, mas em parte dos pacientes evolui com inflamação.

O acúmulo de gordura pode progredir para fibrose, cirrose e câncer de fígado. A evolução da fibrose é o que mais preocupa especialistas, pois os estágios avançados comprometem o funcionamento do órgão de forma irreversível.

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“A esteatose hepática não deve ser vista como um achado sem importância, principalmente quando associada à obesidade, diabetes e colesterol elevado”, explica Flávia Feier, cirurgiã especialista em transplante hepático. Segundo ela, é preciso avaliar se já existem sinais de inflamação ou fibrose.

O problema é que o fígado pode adoecer sem avisar

A gordura no fígado pode avançar sem dor ou manifestações específicas, diferente de outras doenças com sintomas precoces. O paciente pode descobrir alterações durante exames de rotina para outros fins.

A preocupação aumenta quando o órgão passa por um processo contínuo de agressão e cicatrização, levando à fibrose. Com o tempo, a condição pode avançar para cirrose, estágio em que a estrutura e a função do fígado ficam danificadas.

Dados de uma meta-análise de 2025 revelaram cirrose em 3,3% dos pacientes com a doença em acompanhamento geral. Entre pacientes de maior risco, como internados ou encaminhados para biópsia, a prevalência atingiu 14,5%.

“O que queremos evitar é chegar ao momento em que a doença já provocou uma lesão irreversível. Nas fases iniciais, mudanças de estilo de vida podem modificar a trajetória da doença”, afirma Flávia.

Quando o transplante entra nessa história?

A cirrose não leva automaticamente à necessidade de um transplante. O procedimento é considerado quando há descompensação da doença, comprometimento severo da função hepática ou em alguns casos de câncer de fígado.

O transplante substitui o fígado doente por um saudável, que pode vir de um doador falecido ou de parte do órgão de um doador vivo. A doença hepática metabólica se tornou uma indicação cada vez mais comum para o procedimento.

Um estudo brasileiro do Hospital das Clínicas da USP destaca a condição como motivo crescente para transplante, refletindo o aumento da obesidade e do diabetes na população.

“A principal mensagem é que existe uma janela enorme de oportunidade antes disso. Identificar quem apresenta maior risco e agir precocemente pode evitar que muitos pacientes cheguem aos estágios finais da doença”, ressalta a especialista.

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