CÉLULAS ADIPOSAS

Musculação faz células de gordura encolherem antes mesmo da perda de peso

Estudo com camundongos feito na Unicamp mostra que sete dias de treinamento de força foram suficientes para ativar os mecanismos de quebra de lipídios

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Fernanda Bassette



Sete dias de musculação foram suficientes para aumentar a queima de gordura visceral de camundongos obesos, mesmo antes de qualquer redução de peso aparecer na balança. Em um experimento realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisadores observaram que o curto período de treinamento de força ativou mecanismos envolvidos na quebra da gordura, reduziu o tamanho das células adiposas e diminuiu a adiposidade ao redor do intestino dos animais.


O estudo, publicado na revista Life Sciences, buscou entender o que acontece com o tecido adiposo logo no início da prática de musculação, antes que o emagrecimento possa interferir nos resultados. O trabalho, apoiado pela FAPESP, integra uma linha de pesquisa que há quase 20 anos investiga como o exercício físico interfere na saúde metabólica. Desde 2007, o grupo estuda os mecanismos envolvidos nos efeitos da atividade física sobre condições como obesidade e diabetes. Com o avanço das técnicas de análise molecular, os pesquisadores passaram a investigar não apenas os efeitos visíveis do exercício, como perda de peso ou ganho de massa muscular, mas também as mudanças que começam a ocorrer dentro das células.







“A gente sempre ouviu falar que fazer exercício físico queima gordura e emagrece. Mas poucas vezes paramos para pensar como isso acontece, quanto tempo de exercício é necessário e o que significa essa queima de gordura”, afirma Leandro Moura, médico e profissional de educação física, professor da Unicamp, autor do estudo e coordenador do Exercise Cell Biology Lab (Ecebil), grupo dedicado ao estudo das adaptações fisiológicas, metabólicas e biomoleculares induzidas pelo exercício físico e pelo esporte.


O treinamento


Os testes foram conduzidos com camundongos machos. Um grupo recebeu alimentação padrão e outro foi submetido a uma dieta rica em gordura para induzir a obesidade. Depois, os animais obesos foram subdivididos em dois grupos: um permaneceu sedentário e o outro iniciou o treinamento de força. A dieta rica em gordura foi mantida durante o período de exercício, justamente para que a única diferença entre os dois grupos fosse a prática de atividade física, de modo a isolar os efeitos da musculação.







Para simular o treino de força, os camundongos tinham de subir uma escada de 70 centímetros carregando uma carga na cauda. As sessões foram realizadas com 70% da capacidade máxima e incluíram 20 subidas, com intervalos de 60 a 90 segundos. Ao todo, foram sete sessões. “A gente calculou quanto de carga cada camundongo conseguia carregar subindo uma escada. Obviamente, não dá para reproduzir os mesmos exercícios de musculação feitos por uma pessoa, mas conseguimos provocar no organismo um esforço semelhante ao da musculação, com uma contração mais intensa, mimetizando bem uma sessão de musculação para humanos”, explica Moura.



Para simular o treino de força, os camundongos tinham de subir uma escada de 70 centímetros carregando uma carga na cauda (foto: Leandro Moura)


O foco das análises foi o tecido adiposo mesentérico, a camada de gordura que fica presa ao redor dos intestinos. Segundo Moura, esse tecido é o principal representante do que chamamos de “gordura visceral” nos seres humanos – aquela que se acumula profundamente no abdômen, entre os órgãos vitais. Esse tecido gorduroso é muito mais prejudicial à saúde do que o subcutâneo (localizado logo abaixo da pele). Quando em excesso, a gordura visceral libera substâncias inflamatórias diretamente na corrente sanguínea, o que altera o metabolismo do corpo inteiro.


O pesquisador explicou que a escolha de acompanhar o impacto da musculação nos animais por apenas sete dias foi proposital. Eles queriam observar o que a musculação fazia no tecido adiposo antes de qualquer perda de peso, já que o próprio emagrecimento desencadeia diversos benefícios no organismo que poderiam confundir os efeitos provocados diretamente pelo exercício.


“Quando conseguimos manter o mesmo peso corporal e observamos o que aconteceu no organismo, podemos isolar diretamente o que o exercício físico favoreceu antes do emagrecimento”, explica Moura. Os dois grupos de animais obesos continuaram com a mesma dieta durante o experimento justamente para evitar a introdução de outra variável.


Embora o peso corporal total dos animais não tenha diminuído no período, os camundongos que fizeram musculação apresentaram menor massa de tecido adiposo mesentérico em comparação com os animais obesos sedentários. Além disso, os adipócitos (células responsáveis por armazenar gordura) também eram menores. E o tamanho dessas células importa muito para a saúde metabólica. Em indivíduos obesos, o adipócito incha tanto que sofre estresse crônico, começando a secretar substâncias inflamatórias na circulação. O fato de o exercício encolher essas células prova que o tecido deixou de estar inflamado, tornando-se metabolicamente saudável antes mesmo de qualquer movimento da balança.


O mecanismo metabólico envolvido


Ao investigar o que estava acontecendo dentro dessas células, os pesquisadores descobriram que a obesidade havia prejudicado a ação de proteínas importantes para a lipólise (processo de quebra da gordura armazenada nas células adiposas para que ela possa ser usada como fonte de energia). Depois das sete sessões de musculação, parte desse mecanismo voltou a funcionar.


Entre as proteínas analisadas estavam PLIN1 (perilipina-1), ABHD5 e ATGL. De forma simplificada, a PLIN1 atua ajudando a controlar a gordura armazenada dentro das células adiposas. Quando há um estímulo do exercício, a PLIN1 sofre uma alteração e libera outra proteína, a ABHD5, que funciona como uma espécie de ativadora da quebra de gordura. Livre, a ABHD5 consegue se ligar à ATGL, enzima que participa do primeiro passo da quebra dos triglicérides armazenados na célula. O estudo também encontrou uma redução na expressão do gene Scd1, envolvido na síntese da molécula de gordura. Na prática, isso sugere que o organismo se tornou menos propenso a estocar as calorias da dieta no tecido adiposo.


Nos camundongos obesos sedentários, a quantidade de ABHD5 estava reduzida, por isso o mecanismo de quebra de gordura não estava ativado de forma significativa. O treinamento de força aumentou a interação do eixo ABHD5-ATGL e ativou outros marcadores envolvidos na lipólise. “A população tem uma ideia de que fez musculação por dois meses, não emagreceu e, portanto, não adiantou nada. Mas o que vimos nesse estudo é que, com apenas sete dias de treinamento de força, mesmo quando ainda não havia perda de peso, vias moleculares que favorecem o acúmulo de gordura estavam menos ativas, enquanto aquelas que estimulam a quebra estavam mais ativas”, comenta Moura.


Para o pesquisador, os resultados ajudam a desfazer a ideia de que apenas o exercício aeróbico atuaria no emagrecimento, enquanto a musculação serviria apenas para aumento de massa muscular. “Os dois tipos de exercício ativam vias semelhantes, em intensidades diferentes, e também vias diferentes. Por isso, a associação dos dois continua sendo a melhor recomendação e a melhor estratégia para quem quer emagrecer”, afirma Moura.


Próximos passos


Importante ressaltar que os achados ainda são experimentais. Ou seja, não se deve imaginar que fazer sete dias de musculação produzirá os mesmos efeitos em humanos. O trabalho foi feito apenas com camundongos machos, avaliou um único depósito de gordura e analisou somente genes, proteínas e sinais moleculares relacionados à quebra de gordura.


O próximo passo da equipe é acompanhar períodos mais longos de treinamento para entender como essas respostas evoluem quando a perda de peso começa a ocorrer. Os pesquisadores também estão investigando os efeitos do exercício sobre outros depósitos de gordura, inclusive aquele localizado ao redor do coração.


Para Moura, o estudo traz uma mensagem para quem começa a se exercitar e espera uma resposta imediata da balança. “Mesmo que a gente não esteja vendo nada ainda a olho nu, metabolicamente, lá dentro do nosso organismo, várias sinalizações benéficas para a saúde, inclusive para o emagrecimento, estão acontecendo. Por isso não devemos nos desencorajar diante da falta de resultados visíveis após um curto período de musculação”, conclui o pesquisador.


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