DIETA MILAGROSA

Emagrecimento rápido afeta músculos, cabelos, unhas e até a saúde íntima

Restrição alimentar severa pode comprometer a composição corporal, provocar deficiências nutricionais e produzir efeitos que só aparecem depois que o peso já caiu

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O que uma dieta promete entregar em semanas pode levar meses para o corpo revelar por inteiro: o número na balança cai rapidamente, mas algumas consequências chegam devagar, como um punhado de fios a mais no ralo, unhas que deixam de crescer fortes, menos disposição para atividades que antes pareciam simples, alterações no ciclo menstrual ou uma mudança na relação com a própria comida. São sinais dispersos, aparentemente sem conexão, mas nascem do mesmo ponto: uma dieta que foi longe demais na restrição alimentar.


As chamadas dietas milagrosas costumam vender velocidade, mas o organismo trabalha em outra lógica: precisa de energia, proteínas, vitaminas, minerais e equilíbrio metabólico para manter tecidos, músculos, hormônios e funções que seguem ativas mesmo quando o objetivo é perder peso.


Para a nutricionista e psicóloga Flávia Lucena, o emagrecimento precisa ser analisado de forma mais ampla do que apenas pela quantidade de calorias consumidas ou pelo número mostrado na balança.


Segundo a especialista, fatores individuais, como genética, composição corporal, estado hormonal, saúde intestinal, qualidade do sono, estresse e presença de doenças, também interferem na resposta do organismo. "A perda de peso e a melhora da saúde não dependem apenas de cortar calorias, excluir grupos alimentares ou prolongar jejuns. Cada organismo responde de forma diferente”, explica.


Fica então a pergunta: o que exatamente está sendo perdido? Uma queda expressiva no peso pode envolver gordura, mas também água e massa muscular. Quando a alimentação sofre uma redução severa e deixa de fornecer nutrientes em quantidade adequada, o organismo precisa se adaptar, e essas adaptações podem aparecer em diferentes partes do corpo.





“É comum que essas estratégias provoquem perda de água corporal e até de massa muscular, além de aumentarem o risco de deficiências nutricionais, fadiga, piora do funcionamento intestinal, queda do desempenho físico e cognitivo e o conhecido efeito rebote. Em alguns casos, a pessoa emagrece, mas às custas da piora da composição corporal e do equilíbrio fisiológico”, completa Flávia.


Essa mudança na composição corporal costuma aparecer primeiro por fora, nas unhas e nos cabelos. Fragilidade, descamação e quebra das unhas podem ter diferentes causas, mas também estar relacionadas à falta de nutrientes. Marina Groke, diretora da Unhas Cariocas, maior rede de esmalterias do mundo, explica: “A ingestão insuficiente de alguns nutrientes, vitaminas e minerais deixa as unhas frágeis, secas e quebradiças. Em dietas muito restritivas, a falta desses elementos pode comprometer a formação da lâmina ungueal, afetando sua resistência, crescimento e aparência”.


A mesma lógica vale para os cabelos, cujas alterações podem aparecer semanas ou meses após uma dieta muito restrita. “O fio de cabelo é formado principalmente por queratina e depende de uma oferta adequada de proteínas, vitaminas e minerais para manter sua estrutura. Em processos de emagrecimento muito restritivos, a deficiência desses nutrientes pode comprometer o ciclo capilar, deixando os fios mais finos, frágeis e suscetíveis à queda”, esclarece Marina Groke, que também dirige a Escova Express, rede de escovarias.


Já a perda de massa muscular compromete diretamente a funcionalidade do corpo. Jéssica Ramalho, fisioterapeuta e CEO da Acuidar, maior rede de cuidadores da América Latina, destaca que a redução de força pode afetar mobilidade, equilíbrio e autonomia. “A perda de massa muscular não representa apenas uma mudança estética. Ela pode reduzir a força necessária para atividades simples, como caminhar, levantar-se e manter o equilíbrio, especialmente quando o emagrecimento ocorre de forma muito rápida”, explica.


A restrição energética também repercute na saúde íntima feminina. Alterações no ciclo menstrual, ressecamento, desconforto e mudanças na libido podem acompanhar desequilíbrios hormonais e precisam ser avaliadas dentro do contexto clínico.


A ginecologista e especialista em cirurgia íntima, Mariana Macedo reforça a importância de investigar essas mudanças: “Em situações de restrição alimentar intensa e baixa disponibilidade energética, o organismo pode reduzir funções que não são prioritárias naquele momento, afetando a produção hormonal e o ciclo menstrual. Por isso, é importante avaliar o histórico da paciente, a velocidade da perda de peso, a alimentação e possíveis mudanças na rotina antes de definir a causa dos sintomas”.


Os efeitos chegam ainda à relação com a comida. Ainda de acordo com Flávia Lucena, dietas muito rígidas dificultam a manutenção dos resultados e podem alimentar um ciclo de culpa e perda de controle. “Resultados rápidos costumam durar pouco”, afirma. Segundo ela, quando a alimentação passa a ser guiada pelo medo, culpa e excesso de controle, o risco de ansiedade relacionada à comida aumenta, assim como episódios de compulsão, piora da autoestima e até desenvolvimento ou agravamento de transtornos alimentares.

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