Formigamento, dormência, sensação de choque e dor nas mãos podem parecer sintomas passageiros, mas, quando são frequentes, principalmente à noite, podem indicar a síndrome do túnel do carpo. Embora seja frequentemente associada a movimentos repetitivos das mãos, a doença tem origem multifatorial e pode estar relacionada às características individuais, alterações metabólicas e outras condições de saúde.

De janeiro a novembro de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 501.450 atendimentos relacionados à síndrome do túnel do carpo. Desse total, 410.919 foram de mulheres e 90.531 de homens.

O impacto da doença também aparece nos números da Previdência Social. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, a síndrome do túnel do carpo foi responsável por 136.153 concessões de benefícios por incapacidade temporária nos últimos quatro anos, sendo 86% destinados a mulheres. Em 2025, foram 44.270 trabalhadores afastados, número 204,3% superior ao registrado em 2021.

Para o ortopedista e cirurgião de mão e punho Maurício Leite, o primeiro passo para compreender a síndrome é entender que ela não está necessariamente relacionada apenas ao excesso de uso das mãos. “A síndrome do túnel do carpo acontece quando o nervo mediano é comprimido ao atravessar o túnel do carpo, uma estrutura estreita localizada na região do punho. Quando a pressão aumenta dentro desse espaço, o nervo pode ter seu funcionamento comprometido, provocando sintomas como formigamento, dormência, choques e dor, principalmente no polegar, indicador, dedo médio e parte do anelar”, explica.

Apesar de atividades que exigem movimentos repetitivos, força manual ou exposição à vibração poderem contribuir para o surgimento ou agravamento dos sintomas em alguns pacientes, a síndrome possui diferentes fatores associados. Entre eles estão sexo feminino, idade, obesidade, diabetes, alterações da tireoide, gravidez e artrite reumatoide, além de condições que podem aumentar o conteúdo ou reduzir o espaço existente dentro do túnel do carpo.

Formigamento à noite é um dos sinais de alerta

O diagnóstico começa pela avaliação dos sintomas e pelo exame físico. Um dos sinais que costuma chamar a atenção é o formigamento ou a dormência durante a noite. Muitos pacientes acordam de madrugada com a mão incomodando e sentem necessidade de movimentá-la ou “sacudi-la” para tentar aliviar os sintomas.

Testes específicos também são realizados com o objetivo de identificar a doença, como os testes de Phalen, Tinel e de compressão do túnel do carpo, além da avaliação da sensibilidade e da força da mão. Também é verificada a existência de atrofia da musculatura localizada na região da base do polegar.

Vale ressaltar que nenhum desses testes, isoladamente, é suficiente para confirmar ou descartar a doença. Por isso, o diagnóstico deve considerar a combinação entre o histórico apresentado pelo paciente e os achados do exame clínico.

Em alguns casos, a eletroneuromiografia (ENMG) é solicitada para confirmar a compressão do nervo, avaliar sua intensidade e verificar se já existe comprometimento motor ou sensitivo. O exame, porém, não deve ser analisado de forma isolada. “Um exame normal não necessariamente exclui a síndrome quando a história e o exame clínico são muito sugestivos”, explica Maurício.

A ultrassonografia do nervo mediano também pode ser utilizada na investigação. Por ser um exame não invasivo, permite observar alterações estruturais do nervo e da anatomia do túnel. De acordo com cada caso, o ultrassom e a eletroneuromiografia podem ser utilizados de forma complementar.

 

Possíveis tratamentos

O tratamento é definido de acordo com a intensidade e o tempo de evolução dos sintomas e, principalmente, com a existência ou não de alterações neurológicas.

Nos casos leves ou moderados, podem ser indicadas medidas conservadoras, como o uso de uma órtese para manter o punho em posição neutra, principalmente durante a noite, além da adequação de determinadas atividades. Fisioterapia e outras estratégias de reabilitação também podem fazer parte da abordagem, dependendo do paciente.

A infiltração com corticoide é outra possibilidade e pode proporcionar alívio dos sintomas no curto prazo. Quando a compressão é mais importante, há perda de sensibilidade ou força, atrofia muscular, alterações significativas nos exames ou ausência de resposta ao tratamento conservador, a cirurgia pode ser indicada.

A cirurgia tem como objetivo liberar o ligamento transverso do carpo e, dessa forma, aumentar o espaço disponível para o nervo mediano. Existem diferentes técnicas para realizar a descompressão, e a escolha depende das características de cada paciente e da experiência do cirurgião.

Segundo o especialista, um dos principais cuidados é não adiar a avaliação quando os sintomas se tornam persistentes. “Quando existe compressão prolongada e o nervo já apresenta perda funcional importante, a recuperação pode ser mais lenta e, em alguns casos, incompleta”, alerta.

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