Uma nova abordagem terapêutica para a incontinência fecal vem apresentando resultados promissores em estudos clínicos. Em uma pesquisa de Fase I/II (estudo DigniFI) com uma terapia celular experimental, mais da metade dos pacientes apresentou redução de pelo menos 50% nos episódios de incontinência fecal após 12 meses, enquanto quase um quarto alcançou continência completa. Os resultados estão entre os sinais mais animadores na busca por tratamentos capazes de atuar diretamente sobre o músculo responsável pelo controle da continência fecal.

O tema será apresentado no Brasil por Margarita Murphy, cirurgiã colorretal do Orlando Health e professora associada clínica da Florida State University (FSU), uma das principais investigadoras do estudo DigniFI, durante o 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, que começa nesta quinta-feira (24/9), em Balneário Camboriú (SC).

A especialista participa da programação científica com a palestra Stem Cell Therapy for Fecal Incontinence: Promise vs. Reality (terapuia celular para incontinência fecal: da promessa à realidade), em que discutirá o que já é realidade e o que ainda é promessa no uso de terapias celulares para pacientes com incontinência fecal.

Embora o tema envolva o potencial das chamadas terapias regenerativas e das células-tronco, a médica faz uma importante ressalva: o tratamento mais avançado atualmente em investigação não utiliza células-tronco tradicionais. O estudo DigniFI avalia células autólogas derivadas de uma pequena amostra do músculo esquelético, conhecidas como AMDCs (autologous muscle-derived cells).

As células são posteriormente expandidas em laboratório especializado e injetadas no esfíncter anal lesionado. Diferentemente das células-tronco, que são menos especializadas e podem apresentar potencial de diferenciação em diferentes tipos de tecido, as AMDCs já são derivadas da linhagem muscular e estão sendo estudadas por seu potencial de ajudar a restaurar a função do músculo lesionado.

Um em cada 12 adultos apresenta algum grau da condição

A incontinência fecal é caracterizada pela perda involuntária de gases ou fezes e pode comprometer profundamente a qualidade de vida, afetando a vida social, profissional e emocional. Apesar de ser relativamente comum, ainda é uma condição pouco relatada por muitos pacientes devido ao constrangimento associado ao problema.

Uma revisão sistemática internacional estima que cerca de 1 em cada 12 adultos no mundo apresente algum grau de incontinência fecal, com prevalência maior entre mulheres e pessoas mais velhas.

Uma nova estratégia para tratar

Pesquisas anteriores com células-tronco, incluindo células-tronco mesenquimais derivadas do tecido adiposo ou da medula óssea, demonstraram que essas abordagens podem, em geral, ser administradas com segurança. No entanto, os resultados em relação a benefícios clínicos significativos têm sido inconsistentes. Já os estudos com células derivadas do músculo esquelético apresentaram resultados particularmente promissores.

No estudo de Fase I/II (estudo DigniFI), uma terapia experimental baseada em AMDCs, o tratamento foi bem tolerado, sem eventos adversos graves relacionados ao tratamento. Os resultados do DigniFI são particularmente relevantes para mulheres cuja incontinência fecal esteja relacionada a uma lesão obstétrica do esfíncter anal, conhecida pela sigla OASI (Obstetric Anal Sphincter Injury), que pode ocorrer durante o parto.

“Estamos mais próximos do que nunca de contar com uma terapia celular regenerativa para a incontinência fecal”, afirma a especialista, ressaltando, no entanto que é preciso cautela. “Não esperamos ter os resultados finais pelos próximos seis a 12 meses, portanto, é importante não tirar conclusões antes que o estudo seja concluído e os dados sejam totalmente analisados”, explica.

Apesar dos resultados iniciais animadores, a especialista ressalta que a terapia ainda é experimental e não está disponível para uso rotineiro. O estudo DigniFI, atualmente em Fase III, foi desenvolvido para avaliar a segurança e a eficácia do tratamento em uma população maior e de forma rigorosa.

Para a especialista, caso os resultados da Fase III confirmem os achados anteriores, a terapia poderá representar uma mudança importante no tratamento da incontinência fecal. “Poderemos estar diante de uma abordagem totalmente nova: uma terapia voltada para tratar o próprio músculo lesionado, em vez de simplesmente controlar os sintomas.”

A presença de Margarita no congresso brasileiro ocorre em um momento de avanço das pesquisas internacionais sobre terapias celulares para doenças do assoalho pélvico. O DigniFI já concluiu o recrutamento de participantes e segue em acompanhamento.

A partir desta quinta-feira (24/9) acontece o 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, que conta com 291 palestrantes e pesquisadores nacionais e internacionais na área de coloproctologia. O evento discute as principais novidades em câncer colorretal, doenças inflamatórias intestinais (doença de Crohn e retocolite ulcerativa), constipação, hemorroidas, incontinência fecal, prolapso retal, fístula, cirurgia robótica, entre outros.

Serviço

74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia

Data: 24 a 26 de setembro

Horário: das 8h às 18h30

Local: Expocentro Balneário Camboriú Júlio Tedesco – Av. Marginal Oeste, s/n – Nova Esperança

Programação completa: www.coloprocto2026.com.br

Palestra Stem Cell Therapy for Fecal Incontinence: Promise vs. Reality

Data: 25/9

Horário: 16h30

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