COVID longa: diabetes prolonga recuperação e agrava sequelas
Estudo mostra que a doença metabólica aumenta o risco de complicações cardiovasculares, fragilidade física e perda de mobilidade sete meses após a alta hospitalar
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Pessoas com diabetes que tiveram COVID-19 apresentam recuperação mais lenta, tendem a ter mais complicações associadas à COVID longa, pior qualidade de vida e, por isso, precisam de acompanhamento médico mais atento e prolongado. Foi o que mostrou um estudo conduzido na Universidade de São Paulo (USP), que envolveu 870 pessoas acompanhadas por até sete meses após a internação.
“O diabetes não é apenas um fator de risco para a fase aguda da COVID-19, mas também um elemento que prolonga o tempo de recuperação e degrada a qualidade de vida no longo prazo”, afirma Maria Elizabeth Rossi da Silva, chefe da Unidade de Diabetes do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP) e uma das autoras do estudo publicado na revista Scientific Reports.
“O estudo deixa evidente a necessidade de uma estrutura de saúde para atender a essa população com diabetes que foi infectada pelo vírus SARS-CoV-2, de modo a evitar que esses sobreviventes fiquem presos em um ciclo de reinternações”, complementa.
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Além de comprovar que pessoas com diabetes demoraram mais tempo para se recuperar da COVID-19, a pesquisa constatou um risco maior de complicações cardiovasculares, como infarto e angina, em comparação aos não diabéticos. Além disso, sete meses após a alta hospitalar, o grupo com diabetes demonstrou níveis elevados de fragilidade, maior incidência de quedas e pior qualidade de vida, com dificuldades de mobilidade, incapacidade para atividades diárias e desempenho inferior nos domínios físico e cognitivo.
Primeira fase da pandemia
O trabalho, que comparou 320 pacientes com diabetes e 550 sem a doença, integra um projeto maior, apoiado pela Fapesp, que recrutou mais de 3 mil indivíduos internados no Hospital das Clínicas, entre março e setembro de 2020, período que corresponde à primeira fase da pandemia no Brasil, quando ainda não havia vacinas disponíveis.
Os participantes passaram por uma avaliação presencial extensa (incluindo exame físico e laboratorial) cerca de sete meses após a alta hospitalar.
Enquanto 94,3% dos pacientes sem diabetes relataram recuperação plena, esse número caiu para 89,8% entre aqueles com diabetes. “É uma diferença considerável”, diz Silva.
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Como explica a pesquisadora, a infecção pelo SARS-CoV-2 coloca o sistema cardiovascular dos diabéticos sob grande estresse. “A inflamação sistêmica provocada pelo diabetes se soma à toxicidade direta do vírus, criando um cenário em que o coração se torna um dos principais alvos de complicações graves. E o risco aumenta conforme o número de comorbidades do paciente”, afirma.
Os reflexos desse efeito cascata são amplos. No grupo com diabetes, o vírus comprometeu a mobilidade de forma severa, sendo que 21,1% desses pacientes relataram quedas após a alta, quase o dobro do observado no grupo sem a doença (11,1%).
“Essa combinação de metabolismo alterado e tempo de internação, que foi maior entre os indivíduos com diabetes [16 dias contra 13], gera um ciclo de perda de massa muscular e vulnerabilidade que dificulta o retorno à autonomia diária”, conta Silva à Agência Fapesp.
Para a pesquisadora, é preciso compreender essas particularidades metabólicas, bem como as dificuldades socioeconômicas associadas ao diabetes, no atendimento clínico. “O estado inflamatório crônico associado ao diabetes e à obesidade, somado à progressão acelerada de danos cardíacos e funcionais, torna esse grupo mais suscetível a complicações graves. Além disso, o vírus pode afetar diretamente células do pâncreas ou desencadear resistência à insulina, agravando o quadro”, explica.
Ela também destaca que desigualdades sociais influenciam os desfechos da doença, como baixo acesso a cuidados médicos, estresse, alimentação não saudável e falta de tempo para a prática de atividade física. “As políticas de saúde devem considerar essas particularidades, oferecendo acompanhamento específico para pacientes com diabetes no pós-COVID”, defende a cientista.
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O vírus como gatilho
Outro achado relevante foi que 7,3% dos participantes não diabéticos desenvolveram a doença após a infecção pelo SARS-CoV-2. Para a pesquisadora, no entanto, embora não se possa descartar o papel direto do vírus na destruição de células do pâncreas, é provável que a COVID-19 tenha desmascarado casos preexistentes ou que o quadro inflamatório grave tenha servido como gatilho em pessoas já predispostas.
“É preciso ter cuidado com essa informação, pois, embora a infecção possa catalisar o surgimento do diabetes, também é possível que a própria situação de pandemia e o isolamento social tenham influenciado em fatores como estresse, má alimentação, sedentarismo e obesidade, que podem desencadear o diabetes”, diz.
O estudo com os pacientes internados no HC na primeira fase da pandemia continua e os pesquisadores estão analisando os dados coletados três anos após a infecção. “É importante ter esse entendimento de como a COVID-19 impacta o diabetes ao longo do tempo”, conclui Silva.
O artigo "Post-COVID-19 diabetes outcomes" pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-42284-7.
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