SEQUELAS NEUROLÓGICAS

COVID longa: os sintomas neuropsíquicos e mecanismos biológicos

Estima-se que até 400 milhões de pessoas no mundo e 14 milhões no Brasil tenham a condição crônica; especialistas apontam necessidade de padronizar diagnóstico

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Por Luciana Constantino

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Quase três anos após a pandemia por Sars-CoV-2 ter sido oficialmente declarada encerrada, estimativas conservadoras apontam que entre 80 milhões e 400 milhões de pessoas no mundo têm COVID longa. Essa condição crônica associada à infecção está ligada a mais de 200 sintomas, como fadiga e falta de ar, mas especialmente a questões neuropsiquiátricas, que vão de disfunção cognitiva, distúrbios do sono e depressão até a perda de memória, com impacto na qualidade de vida, dificultando a realização de tarefas do dia a dia e o desempenho laboral.

Entre os mecanismos fisiopatológicos subjacentes (que ocorrem no organismo e ajudam a explicar determinados sintomas e alterações) estão: persistência viral do Sars-CoV-2, reativação do herpesvírus (quando o estresse imunológico permite que vírus latentes da família Herpesviridae se tornem ativos) e ativação imune crônica. Também incluem desregulação do sistema imunológico, desequilíbrio da função dos microrganismos no intestino (disbiose da microbiota), anormalidades de coagulação e dano endotelial. Em relação ao cérebro, há alterações estruturais e conectividade funcional anormal.

Porém, para avançar significativamente na compreensão da COVID longa, ainda é necessário realizar mais estudos científicos visando padronizar as definições e a nomenclatura usadas para o distúrbio, além de um número maior de ensaios clínicos com potenciais terapias.

Esse panorama está descrito no primeiro artigo de revisão publicado em dezembro de 2025 pela revista Nature Reviews Disease Primers dedicado às manifestações neurológicas, psicológicas e psiquiátricas associadas à COVID-19. O trabalho traz uma análise abrangente sobre epidemiologia, mecanismos biológicos, diagnóstico e abordagens terapêuticas, além do impacto na qualidade de vida e dos desafios para a ciência.

Desenvolvido por um painel internacional de 14 especialistas, o artigo tem entre os autores uma única brasileira, a professora e neurologista Clarissa Yasuda, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Ela é pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (Brainn), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fapesp, onde coordena desde 2020 uma série de estudos sobre COVID longa.

“Essa doença é nova e pouco conhecida. Tem muita gente estudando e tentando entendê-la não só pelos casos atuais, mas também porque a humanidade é suscetível a outros vírus que podem causar problemas da magnitude dessa pandemia. Precisamos aprender com ela e investigar de maneira efetiva e rápida. A COVID longa atrapalha muito a vida das pessoas e, no momento, não há tratamento específico. O importante é tomar as vacinas e evitar reinfecções. Essa é outra mensagem do artigo”, diz Clarissa à Agência Fapesp.

No trabalho, os pesquisadores frisam que a única prevenção à COVID longa até agora é evitar a infecção por Sars-CoV-2. Destacam que o diagnóstico é baseado na avaliação clínica. Sem biomarcadores disponíveis, requer histórico recente de contaminação pelo vírus, além de sintomas persistentes ou recorrentes por pelo menos três meses. Outras condições devem ser descartadas, o que pode exigir exames de sangue e de imagem, eletrocardiografia e ecocardiografia.

No Brasil, o número de casos de COVID-19 vem caindo ano a ano, mas ainda está em patamar alto – em 2025, segundo o Ministério da Saúde, foram notificados cerca de 432,4 mil casos, ante 984 mil no ano anterior. Entre janeiro e a segunda semana de fevereiro deste ano foram cerca de 25.200 registros.

Qualidade de vida

Na seção em que trata de qualidade de vida, além de impactos na saúde, o artigo aborda efeitos da COVID longa no mercado de trabalho e estigmas ligados à doença.

Os autores apontam que pode haver perda de emprego e renda, além de dificuldades na volta às atividades por falta de apoio dos sistemas de bem-estar social. Citam que as pessoas afetadas passam por períodos de “altos e baixos”, “colapsos”, “depressões” e “vales”, fazendo com que se sintam incapazes de continuar com o mesmo nível de atividade.

Em 2024, um artigo produzido por cientistas de instituições dos Estados Unidos e publicado na Nature Medicine estimou que a COVID longa tenha resultado em mais de 803 milhões de horas de trabalho perdidas (dados daquele ano) somente no Brasil, com custo potencial de mais de US$ 11 bilhões. Isso equivale a cerca de 400 mil trabalhadores em tempo integral fora do mercado por um ano. O mesmo estudo avaliou que a doença pode ter um impacto econômico mundial de aproximadamente US$ 1 trilhão ao ano – cerca de 1% da economia global.

A própria professora Yasuda vivenciou dificuldades na retomada das atividades após ter COVID longa. Infectada em agosto de 2020, ela teve sintomas leves, sem febre, mas cerca de um mês depois percebeu que apresentava disfunção cognitiva, prejudicando suas tarefas acadêmicas.

No artigo Quero meu cérebro de volta, publicado na biblioteca digital Scielo Brasil em junho de 2022, ela relatou seu caso. “À época, mostrei o esforço de recuperação e as estratégias para conviver com as restrições persistentes em termos de desempenho cognitivo. Depois de muito esforço e disciplina, melhorei”, conta.

Também chamada de “condição pós-COVID-19”, a COVID longa foi incluída para acompanhamento no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2021, com atualização em 2023 por meio da Nota Técnica nº 57. Em boletim epidemiológico sobre o tema, divulgado em 2025, o número estimado de casos de “condições pós-COVID” no país foi de 13,8 milhões, sendo a maioria do sexo feminino (8,58 milhões). Por faixa etária, a mais atingida é dos 30 aos 49 anos (6,2 milhões de brasileiros).

“Marcas”

Em relação aos estigmas, os cientistas citam que os pacientes enfrentam múltiplas barreiras para ter reconhecimento da doença e acesso a cuidados e apoio. As experiências vão desde discriminação até tratamento inadequado e culpabilização, com estigma particularmente alto para indivíduos de minorias étnicas.

Lembram que, para crianças e adolescentes, pode haver sérias implicações em interações sociais e educacionais.

Por isso, sugerem que o acompanhamento dos pacientes seja realizado por equipes multidisciplinares, com profissionais de várias áreas da saúde.

Para ensaios futuros, recomendam que haja recrutamento de uma população de pacientes diversificada e representativa, levando em consideração as perspectivas de pessoas com COVID longa e o papel dos determinantes sociais e de saúde.

Nesse cenário, o grupo coordenado por Yasuda está trabalhando em uma pesquisa longitudinal para buscar compreender as mudanças provocadas pela doença no cérebro. “Ser convidada para participar dessa revisão foi muito importante e um reconhecimento internacional ao trabalho que estamos desenvolvendo no Cepid Brainn”, diz a pesquisadora, que também conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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O artigo COVID-19-associated neurological and psychological manifestations pode ser lido em: nature.com/articles/s41572-025-00674-7.

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