SAÚDE MASCULINA

Testosterona: entre a onda dos hormônios e a ciência que importa

Substância está longe de ser uma fórmula mágica capaz de resolver cansaço, queda de produtividade ou problemas emocionais

Publicidade
Carregando...

Os Estados Unidos vivem uma verdadeira explosão no uso de testosterona. Em 2025, o país registrou quase 12 milhões de prescrições do hormônio, um crescimento de 154% em relação a 2020. O avanço mais acelerado ocorre justamente entre homens no fim da terceira década de vida e na faixa dos 40 anos, um público que, impulsionado pelas redes sociais, promessas de rejuvenescimento e influenciadores da chamada "alta performance", passou a enxergar a testosterona como sinônimo de vitalidade, sucesso e masculinidade.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Mas a ciência conta uma história mais complexa. A testosterona é, de fato, um hormônio fundamental para a saúde masculina. No entanto, ela está longe de ser uma fórmula mágica capaz de resolver cansaço, queda de produtividade ou problemas emocionais.

Menos hype, mais ciência

Não há um nível de testosterona considerado ideal para todos os homens. Os valores variam conforme a idade e, principalmente, as características individuais.

"Mais importante do que um exame isolado é a combinação entre sintomas clínicos e resultados laboratoriais. Um homem pode apresentar uma testosterona considerada "baixa" dentro da faixa de referência e não apresentar qualquer prejuízo à saúde. Da mesma forma, outro pode estar dentro da normalidade e ainda assim desenvolver sintomas relacionados a outras condições médicas", alerta Izabelle Gindri, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), cientista,farmacêutica, cofundadora e CEO da bio meds Brasil, especializada em reposição hormonal.





Por isso, especialistas defendem que o tratamento só deve ser indicado quando há deficiência hormonal comprovada associada a manifestações clínicas, como diminuição importante da libido, disfunção erétil, perda de massa muscular, fadiga persistente e redução da densidade óssea.

Muito além da vida sexual

Embora seja frequentemente associada ao desejo sexual, a testosterona exerce funções muito mais amplas no organismo. Ela participa da formação da massa muscular, ajuda na manutenção da força física, influencia a produção de glóbulos vermelhos, contribui para a saúde óssea e desempenha papel importante na distribuição de gordura corporal. Também participa da produção de espermatozoides e pode influenciar aspectos do humor, da motivação e da disposição.





Isso, porém, não significa que níveis elevados tragam benefícios ilimitados. O excesso pode aumentar o risco de acne, retenção de líquidos, alterações cardiovasculares em alguns pacientes, elevação do hematócrito, infertilidade por redução da produção natural de espermatozoides e agravamento de doenças prostáticas em indivíduos suscetíveis.

Os pellets entram em cena

Entre as opções terapêuticas que vêm ganhando espaço estão os implantes hormonais subcutâneos, conhecidos como pellets. Pequenos bastonetes inseridos sob a pele liberam testosterona de maneira contínua e programada durante vários meses, reduzindo a necessidade de aplicações frequentes ou do uso diário de géis.

Para muitos pacientes com deficiência hormonal confirmada, a estratégia oferece praticidade e níveis hormonais mais estáveis. No entanto, especialistas alertam que os pellets não são indicados para qualquer pessoa e exigem acompanhamento médico rigoroso.

"Uma vez implantado, o hormônio permanece ativo até ser completamente absorvido pelo organismo, o que dificulta ajustes rápidos de dose caso ocorram efeitos adversos. A escolha da via de administração deve considerar histórico clínico, objetivos terapêuticos e perfil de cada paciente", reforça a cientista Izabelle Gindri.

O marketing da virilidade

A ascensão da testosterona acompanha um fenômeno cultural. Um estudo de 2020 com Rangers do Exército dos EUA descobriu que a privação de sono inerente ao treinamento reduziu significativamente os níveis de testosterona. Estresse crônico, privação de sono, exposição a explosões e má alimentação podem causar um conjunto de problemas de saúde chamado "síndrome do operador" (Operator Syndrome, no original em inglês).





Em alguns casos, as condições de trabalho dos agentes de forças especiais podem fazer com que os níveis de testosterona de um homem de 35 anos se aproximem dos níveis típicos de um homem na casa dos 80 anos. As Forças Armadas impõem exatamente as condições que suprimem a testosterona e, em seguida, propõem corrigir o resultado com mais testosterona.

O psicólogo que batizou a síndrome alertou que administrar testosterona aos soldados não restaura sua saúde, pois os verdadeiros culpados são a falta de sono, o estresse e as lesões.

Adicionalmente, plataformas digitais associam níveis elevados do hormônio a liderança, riqueza, coragem e sucesso profissional. Em muitos conteúdos, a testosterona aparece quase como um indicador absoluto de masculinidade.

Essa narrativa simplifica um sistema biológico extremamente sofisticado. O comportamento humano resulta da interação entre genética, ambiente, saúde mental, sono, alimentação, atividade física e inúmeros outros hormônios. Reduzir personalidade ou capacidade de liderança apenas à testosterona não encontra respaldo científico.

Da mesma forma, agressividade excessiva, impulsividade ou dominância social não podem ser atribuídas exclusivamente ao hormônio, apesar de essa associação ainda ser bastante popular.

O mito do "quanto mais, melhor"

Outro equívoco frequente é acreditar que homens jovens precisam manter níveis de testosterona próximos ao limite máximo dos exames para alcançar melhor desempenho físico ou intelectual.

Na prática, indivíduos saudáveis produzem quantidades suficientes para atender às necessidades do organismo. A suplementação sem indicação médica pode, paradoxalmente, reduzir a produção natural do hormônio pelos testículos, provocar infertilidade temporária e criar dependência do tratamento para manutenção dos níveis hormonais.

Além disso, sintomas como fadiga, baixa libido e desânimo muitas vezes têm origem em privação de sono, obesidade, estresse crônico, depressão, diabetes ou sedentarismo, fatores que podem, inclusive, diminuir a testosterona de forma secundária.

Testosterona não define masculinidade

A associação entre testosterona e masculinidade continua cercada por mitos que reforçam o estereótipo do "machão". Embora o hormônio seja essencial para o desenvolvimento de características biológicas masculinas, ele está longe de determinar traços de personalidade ou comportamento.

A ciência demonstra que agressividade, autoconfiança, liderança e controle emocional resultam da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Ainda assim, discursos simplistas e a influência das redes sociais alimentam a crença de que níveis elevados de testosterona seriam sinônimo de força, virilidade e sucesso.

"A testosterona é uma peça importante desse quebra-cabeça, mas está longe de ser a única. Antes de buscar uma solução rápida, vale lembrar que saúde masculina não se mede apenas por um número no exame de sangue, muito menos pela promessa de juventude eterna vendida nas redes sociais. Ela depende de uma visão ampla do organismo, baseada em diagnóstico correto, acompanhamento médico e expectativas alinhadas à realidade científica", aponta Izabelle Gindri.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Tópicos relacionados:

ciencia doencas estudo hormonio saude testosterona

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay