Rouquidão ou afta por mais de 15 dias? O aviso é sério
O erro comum de confundir um incômodo corriqueiro com inflamação passageira tem levado milhares de brasileiros ao diagnóstico tardio
compartilhe
SIGA
Muitos pacientes acreditam que a rouquidão prolongada, uma ferida na boca que não cicatriza ou uma dor de garganta persistente são problemas passageiros. O risco, no entanto, é adiar a investigação de tumores de cabeça e pescoço, que seguem entre os tipos de câncer com maior mortalidade no Brasil, sobretudo porque costumam ser diagnosticados em estágio avançado.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o país deve registrar, em média, 17.190 novos casos de câncer da cavidade oral e 8.510 casos de câncer de laringe por ano no triênio 2026–2028. Esses tumores fazem parte de uma categoria mais ampla, que também inclui os de seios paranasais, fossas nasais, glândulas salivares, tireoide e pele da região.
Leia Mais
Os números reforçam a preocupação. Publicado em 2025 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, um estudo conduzido por pesquisadores do Inca analisou 145.365 casos de câncer de cabeça e pescoço registrados no Brasil entre 2000 e 2017 e constatou que 78,2% dos pacientes receberam o diagnóstico em estágios avançados da doença.
A pesquisa também revelou que pessoas com menor escolaridade e pacientes mais jovens apresentaram maior probabilidade de diagnóstico tardio. "São tumores com significativa mortalidade no Brasil, especialmente porque os pacientes já apresentam doença avançada ao diagnóstico. Por isso, o maior desafio é o diagnóstico precoce", enfatiza a oncologista Gabriela Chaves, coordenadora do Serviço de Oncologia no Mater Dei Contorno e no Mater Dei Betim-Contagem.
Julho Verde
O próximo dia 27 marca o Dia Mundial de Conscientização sobre o Câncer de Cabeça e Pescoço que integra a campanha Julho Verde - voltada a chamar a atenção para sintomas que muitas vezes são confundidos com problemas comuns, como rouquidão, dor de garganta e aftas persistentes.
André Alencar Araripe Nunes, presidente da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), afirma que a principal dificuldade é que os primeiros sintomas costumam ser discretos e frequentemente negligenciados.
Ele explica que muitos pacientes acreditam que a rouquidão prolongada, uma ferida na boca que não cicatriza ou uma dor de garganta persistente são problemas passageiros. "Quando esses sintomas permanecem por mais de duas semanas, é fundamental procurar avaliação médica, pois o diagnóstico precoce aumenta de maneira significativa as chances de cura e pode permitir tratamentos menos agressivos", ressalta.
Entre os sinais de alerta estão:
-
rouquidão prolongada
-
feridas na boca ou na língua que não cicatrizam
-
dor de garganta persistente
-
dificuldade ou dor para engolir
-
caroço no pescoço
-
sangramentos na boca ou no nariz sem causa aparente
-
alterações na voz
-
dor de ouvido sem infecção identificada
Entre os fatores de risco, André Alencar destaca que a maioria dos casos está associada a fatores evitáveis, como tabagismo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, infecção pelo HPV — especialmente nos tumores de orofaringe —, exposição excessiva ao sol no caso do câncer de lábio, má higiene bucal e alimentação pobre em frutas e verduras. "É importante reforçar que a combinação entre cigarro e álcool potencializa o risco de desenvolvimento da doença."
Mudança no perfil dos pacientes
Por décadas, o câncer de cabeça e pescoço teve um retrato bem definido: homens mais velhos, fumantes e alcoolistas de longa data. Mas esse cenário vem mudando. "Devido ao vírus HPV, vemos um aumento significativo de tumores na orofaringe, parte de trás da boca e garganta, em pacientes bem mais jovens, na faixa dos 40 a 50 anos, e muitas vezes sem nenhum histórico de tabagismo", diz o oncologista Bruno Favato Neto, também do Mater Dei.
Gabriela reforça que o tabagismo continua sendo o principal fator de risco, mas destaca a mesma mudança observada na prática clínica. "A gente tem visto cada vez mais, em pacientes até mais jovens, em pessoas que nunca fumaram e que nem bebem. E são tumores de orofaringe relacionados ao HPV", afirma.
A prevenção do câncer de cabeça e pescoço se baseia principalmente em mudanças de hábitos, incluindo a vacinação para HPV. "É fundamental educar a população sobre sinais e sintomas de alerta para saberem quando procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce aumenta as chances de cura", diz Gabriela.
Tratamentos mais precisos
Nos últimos anos, o avanço mais significativo não foi apenas ampliar a sobrevida, mas também preservar funções essenciais, como fala e deglutição. "O grande foco da oncologia moderna é curar o paciente garantindo a sua qualidade de vida. Os maiores avanços vieram na precisão dos tratamentos. Hoje temos técnicas de radioterapia extremamente modernas e precisas, que atacam o tumor e poupam os tecidos saudáveis ao redor", explica Bruno.
Na oncologia clínica, ele destaca a imunoterapia como um divisor de águas. Associadas a cirurgias menos invasivas, essas terapias abrem espaço para os chamados protocolos de preservação de órgãos. "O uso da imunoterapia, medicamentos que estimulam o próprio sistema de defesa do corpo a combater o câncer, revolucionou o tratamento, aumentando a sobrevida com menos efeitos colaterais que a quimioterapia tradicional. Em muitos casos, conseguimos curar o paciente sem precisar retirar a laringe, preservando sua voz natural e a capacidade de se alimentar normalmente", afirma o oncologista.
A escolha entre cirurgia, radioterapia e tratamento sistêmico nunca é feita isoladamente. "Os fatores que mais pesam são o estágio e o tamanho da doença, a localização exata do tumor, se ele é causado pelo HPV ou não, e as condições gerais de saúde do paciente", detalha.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Ele explica que, se um tumor inicial pode ser operado sem causar sequelas na fala ou deglutição, a cirurgia pode ser o melhor caminho. Se a cirurgia for muito mutiladora, a alternativa é associar quimioterapia e radioterapia para tentar preservar a anatomia e a função da região.